Procura-se um novo diretor para o Metropolitan

Duas semanas atrás, nós funcionários do MET e os membros do conselho fomos convidados para participar de uma reunião para saber a quantas anda a procura de um novo diretor para substituir Thomas Campbell, que pediu demissão do museu em fevereiro desse ano. O novo diretor será responsável por administrar um museu que conta com 17 departamentos de curadoria, uma coleção de mais de 2 milhões de obras, em torno de 2.300 funcionários, e público visitante que chega a 7 milhões de pessoas por ano.

Daniel Weiss

Daniel Weiss, então presidente na gestão de Campbell, assumiu o título de presidente e CEO, e agora é responsável pela liderança geral do museu. O novo diretor escolhido responderá a Weiss e ficará encarregado de liderar as principais funções ligadas à missão do museu.  Weiss enfatizou na reunião que os requisitos necessários para ser o novo diretor do MET incluem: um excelente olho, um profundo comprometimento com a pesquisa e a educação, ser corajoso, inovador, autoconfiante, além de ser uma inspiração para o público diverso que frequenta o museu.

Campbell se demitiu após uma série de polêmicas, inclusive a alegação de que mantinha relações inapropriadas com uma funcionária e que causava um mal-estar entre os outros funcionários. O diretor deixou o museu com déficit de $40 milhões, um histórico de demitir 100 funcionários, congelar benefícios e reduzir a programação das exposições. O novo CEO frisou mais de uma vez que era muito importante que o novo diretor seja capaz de se dar bem com todos do staff, sendo um bom líder e um bom ouvinte.

Eu no Metropolitan

Campbell era curador e especialista em tapeçaria quando foi nomeado, em 2009, diretor e CEO do MET, depois da aposentadoria de Philippe Montebello, diretor que esteve à frente do museu por 25 anos. Desde que assumiu como diretor, Campbell esteve focado em tornar o MET um “museu do século 21”. Suas ações incluíram o redesenho do logo do museu, o redesign do site – que agora disponibiliza online toda a coleção do museu digitalizada –, e o desenvolvimento de um aplicativo para smartphones. Estima-se que o novo departamento digital contava com 75 pessoas, a um custo anual de $20 milhões –mais funcionários que quatro departamentos da curadoria juntos.

Em 2013 o MET recebeu de Leonardo Lauder, dono da empresa de cosméticos Estée Lauder, a doação de 78 pinturas cubistas, avaliadas em 1 bilhão de dólares. Campbell se comprometeu a construir uma nova ala de arte moderna e contemporânea, projeto estimado em 600 milhões de dólares, para exibir essa coleção e para ser um centro de pesquisa em arte moderna e contemporânea que levaria o nome de Lauder. Os esforços do museu em ser mais comprometido com arte moderna e contemporânea incluem também um contrato de oito anos para administrar a antiga sede do Whitney Museum of American Art, num prédio projetado na década de 1960 por Marcel Breuer. O Whitney se mudou para um novo prédio ao sul da ilha de Manhattan, e seu antigo prédio é agora o MET Breuer, que conta com uma programação de exposições temporárias de arte moderna e contemporânea ao custo anual de 17 milhões de dólares.

Os que mais sofreram com os planos ambiciosos do antigo diretor foram os próprios funcionários. Catorze de dezessete chefes dos departamentos de curadoria foram substituídos ou se aposentaram. A curadoria teve também seus recursos para viagens reduzidos e precisou diminuir o tamanho dos catálogos e das exposições. Tudo isso porque Thomas Campbell queria que o MET fosse um museu do século 21. Mas afinal o que é ser um museu do século 21?

Que é importante o acesso digital, com a coleção digitalizada e disponível online para pesquisa, não há dúvidas. Mas não é isso que faz um museu ser um museu do século 21. Um museu de arte do século 21 precisa, antes de tudo, ser um lugar cuja dimensão social, política e econômica vá além das suas funções anteriores de ser uma casa de memória, de representação social e um espaço de mediação cultural.

A arte hoje em dia não deve existir sem a reflexão do público sobre a nossa realidade.  E cabe ao museu promover esse engajamento crítico. A obra de arte tem que contribuir para a apreciação das pessoas e sua arte em um sistema aberto e democrático a serviço do público, onde a comunidade local, os estudiosos, os profissionais do museu, os artistas, e os visitantes estão em constante diálogo.

 

A promessa da construção de uma nova ala, a um custo exorbitante, para então receber a doação das 78 pinturas cubistas, não deveria ter existido.  O MET não será o museu referência em arte moderna e contemporânea, pois ele compete em New York com o MoMA e o Whitney.  Mesmo assim, o MET pode ter um papel significativo em promover arte moderna e contemporânea usando do seu acervo e de seu nome para pensar exposições temporárias.

 

O MET Breuer é um exemplo de que o museu é capaz de fazer isso. Essa nova sede, aberta em 2016, foi pensada para ser um espaço adicional para exibir arte moderna e contemporânea em paralelo com o MET da quinta avenida. Desde de sua abertura o MET Breuer expôs temas atualizados, e apresentou uma melhor participação de mulheres e minorias étnicas. A brasileira Lygia Pape e a italiana Marisa Merz ganharam suas primeiras retrospectivas individuais nos Estados Unidos. Além delas, o museu exibiu a primeira retrospectiva do MET dedicada a um artista negro vivo, Kerry James Marshall. A exposição foi considerada um sucesso, mas por incrível que tenha sido essas iniciativas, o novo espaço recebeu desde de sua abertura um público de 557.000 visitantes, um número muito inexpressivo frente aos milhões que a sede principal recebe.

O atributo fundamental para o museu de arte do século 21 é criar uma experiência lúdica e significativa com as obras, cujas atividades e exposições devem ser o reflexo do trabalho e esforço de nossa própria sociedade, em que nosso envolvimento possa nos fornecer maneiras de se reconhecer, de se expressar e de revisar nós mesmos. Os esforços do MET devem ser levados em consideração, mas não adianta ser um museu do século 21 para uma minoria intelectual que está antenada com as últimas tendências do mundo. Os turistas compreendem 70% dos visitantes do MET  e eles precisam ver muito mais do que as grandes obras gregas e egípcias do acervo do museu. Ser um museu do século 21 não é disponibilizar um aplicativo super moderno para acessar dentro das galerias, mas é ser um museu que inclua uma maior diversidade de artistas negros, mulheres, latinoamericanos, e que seu staff seja reflexo da diversidade do que é hoje os Estados Unidos.  E por que não uma mulher como próxima diretora?

 

 

 

 

 

 

Renata Baltar5 Posts

<p>Trabalhou no MASP por 3 anos e mudou-se para NY para um mestrado em Historia da Arte com foco em museologia.<br /> Atualmente é voluntaria da organização All of us (International women in New York), promovendo guide tours em exposições pela cidade de Nova York com foco nas mulheres artistas. É também estagiária no Metropolitan Museum of Art, sendo responsável pelas políticas e procedimentos relacionados a aquisição, empréstimo, exposição, armazenamento, embalagem e transporte, administração, seguro de obras e gerenciamento de riscos.</p>

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