O Cinema do Distanciamento
O CINEMA DO DISTANCIAMENTO
de 21 a 31 de maio de 2012
Um objeto distante: vendo-o de longe ele não nos revela seus detalhes, é difuso. Mesmo próximo, ele pode parecer distante por não expor suas razões, por pertencer a outro mundo que não aquele presente nessa proximidade. O posicionamento que temos frente a um objeto determina seu significado. Na mostra O Cinema do Distanciamento, o CINUSP Paulo Emílio pretende investigar essas questões relativas ao objeto distante no campo do cinema.
O cinema clássico sempre se pautou pelo que se convencionou determinar “identificação” – um reconhecimento de características semelhantes entre o espectador e a personagem – e pela decorrente condução imagética e narrativa do público provocada por essa identificação. O espectador, identificado com as personagens, coloca-se na trama como elas e reage aos fatos como se eles se passassem a ele próprio. Na consolidação das convenções do cinema, acabou-se se optando por essa aproximação emocional do espectador com o objeto das narrativas. A partir daí, começaram a se definir as noções de condução emocional, de construção do suspense, de elaboração do clímax. Estas convenções cinematográficas criaram um padrão de transparência, dentro do qual o que a tela mostra deve ser transmitido clara e diretamente ao espectador. Para que a identificação ocorra, é necessário mostrar, expor, revelar, explicar.
Seguindo em rumo contrário a essa tendência, há outro tipo de cinema, que justamente não valoriza a aproximação entre a personagem e o espectador, mas sim o distanciamento. Nessa categoria de filmes, a fruição vem não desse fluxo emocional entre a personagem e o espectador, mas justamente de seu conflito. O cinema do distanciamento oculta as razões de suas personagens, encobre suas reações; não explicita sua ambigüidade, mas a enreda num íntimo inacessível das personagens. O espectador, então, não sabe como seguir a personagem, não sabe o que achar de seus movimentos.
A identificação continua como elemento básico da dramaturgia, porque o distanciamento só consegue se afirmar contrapondo-se à identificação. O espectador sempre se identifica com o protagonista do filme, seja ele repugnante, vil, ou dotado de qualquer outra qualidade negativa. É o conflito entre essa identificação básica e o distanciamento provocado pelos recursos estilísticos do filme que cria a sensação de distanciamento. O espectador só se sente distante de algo que gostaria de estar próximo.
Diferente de se colocar no lugar da personagem em seu contexto, o espectador se coloca em posição de observação da personagem e seu entorno. A noção de conjunto se aprofunda, e isso se refere a um deslocamento dos significados da tela. O distanciamento é um recurso potente para que o elemento das circunstâncias, do assunto, ganhe destaque em detrimento da personagem. Uma visão distanciada corresponde a uma visão mais ampla sobre aquilo que se observa, porque, distante, seu campo de visão torna-se maior.
Stanley Kubrick é um diretor que explora exemplarmente essa relação entre figura e ambiente. Em todos seus filmes há a preocupação de mostrar a personagem inserida em seu espaço, e como o espaço a contamina – embora a estética de Kubrick se situe num ponto situado entre o distanciamento e a aproximação da imagem. Kubrick integra a mostra O Cinema do Distanciamento com Barry Lyndon, um filme que possui uma dramaturgia clássica, mas que estilisticamente é inovador no tratamento figura/fundo. O uso frequente do zoom conjugado a planos muito gerais cria outro modo de configuração do espaço, um modo que se configura com outro ritmo, como se esse ritmo definisse a noção de tempo no século XVIII. Aí está a inovação: uma sincronia em ritmo e espaço que busca caracterizar esse tempo histórico, da qual deriva uma mise-en-scéne invejável.
O que aqui caracterizamos como distanciamento é, portanto, um procedimento que permite que o espectador se distancie para observar as várias camadas da imagem, seja a camada da representação e das suas convenções, seja a camada do contexto histórico, seja da alegoria, da paródia, da revisão estilística. Esse olhar mais consciente das relações entre figura e ambiente desvela esses diversos elementos constitutivos da imagem; é um olhar que, por fugir da particularidade e da identificação, consegue produzir relações mais fortes entre o filme e o que se situa fora do filme.
Essa relação de distanciamento pode ser muito fértil criativamente, e se realiza de inúmeras formas. A presente mostra de filmes preocupou-se em selecionar usos e resultados diferentes desse recurso. São Bernardo, de Leon Hirszman, por exemplo, é um filme que constrói seu procedimento de afastamento por meio de uma proximidade ilusória. Contrariando o princípio de que planos próximos deixam o espectador mais perto das emoções da personagem, o filme apresenta por vezes uma aproximação física que não encontra contrapartida na aproximação emocional, causando assim um estranhamento no espectador que o leva a se afastar emocionalmente da cena.
A mostra também reúne filmes que se situam num limite entre o que seria uma representação mais clássica e essa que convencionamos chamar de representação distanciada. É caso, como já afirmado, de Barry Lyndon. É o caso também de Contos de Canterbury, filme construído pelo inconfundível estilo de Pier Paolo Pasolini, marcado sempre por uma ironia quase anárquica, que é uma afronta à verossimilhança – e à identificação em termos tradicionais, portanto. Apesar de uma decupagem que prioriza as tomadas próximas dos atores, há ali uma subversão à dramaturgia clássica que se realiza por meio dessa adaptação de um texto do século XIV e resulta tão livre que o filme não parece mais se comprometer a contar uma história, mas somente a expor esse divertimento indecoroso da Idade Média.
No fundo, parece que todas as personagens dos filmes aqui reunidos guardam algum segredo que não nos revelam, motivações ocultas. Ao ver os filmes, sentimos um desejo de identificar esse segredo, essa razão que não se expõe. O que é o interessante é que somos forçados a buscar essa compreensão no filme como um todo, em também em sua estrutura e nos elementos além da tela, para tentar chegar às respostas para esse segredo, alcançando assim uma visão mais consciente da obra em si.
Assim, com a mostra O Cinema do Distanciamento, o CINUSP Paulo Emílio convida a todos para descobrir as significações ocultas e as razões que se escondem dentro das personagens dos filmes selecionados, e espera que sejam encontrados ricos sentidos nessa busca.
PROGRAMAÇÃO:
21/05 | segunda
16h00 Contos de Canterbury
19h00 O Medo Consome a Alma
22/05 | terça
16h00 Deserto Vermelho
19h00 A Menina Santa
23/05 | quarta
16h00 Barry Lyndon
24/05 | quinta
16h00 O Medo Consome a Alma
19h00 Contos de Canterbury
25/05 | sexta
16h00 A Menina Santa
19h00 Barry Lyndon
28/05 | segunda
16h00 São Bernardo
19h00 Últimos Dias
29/05 | terça
16h00 O Dinheiro
19h00 Luzes na Escuridão
30/05 | quarta
16h00 Últimos Dias
19h00 São Bernardo
31/05 | quinta
16h00 Luzes na Escuridão
19h00 O Dinheiro
FILMES:
Barry Lyndon
Inglaterra, 1975, cor, 183min.
Exibição Digital
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Krüger, Diana Körner
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
No século XVIII, após um duelo em disputa da mão de sua prima, Redmond Barry é obrigado a fugir da Irlanda, seu país natal. Seguem-se numerosos contratempos, ao final dos quais Redmond traça um caminho para inserir-se na aristocracia inglesa.
Comentário:
Em Barry Lyndon, Stanley Kubrick tem um conceito estético muito específico: a construção de um ambiente do século XVIII, e mais que isso, de uma reflexão sobre esse ambiente. A parte conceitual deriva dessa ambivalência, de ser um filme que, mais do que reconstruir uma situação histórica ,faz um discurso sobre ela. Um discurso sobre o ritmo e sobre a trajetória do homem nesse período. O distanciamento faz parte desse discurso, que se constrói com o uso inovador dos zooms, fundindo os planos próximos aos gerais, e se conjuga a uma mise-en-scéne solene e rigorosa. O espaço é dissecado pelo zoom, que o analisa, e as personagens cadenciam sua dramaturgia com base em suas posições, num formalismo coreográfico. O espectador então se distancia da trama porque vê o aparato que constrói essa situação histórica. Dessa forma, a narrativa se abre, tornando-se mais universal. Nosso Barry Lyndon se torna mais um homem manipulado pelos recursos de uma narração que não controla. A grande força do filme está em explorar uma abordagem narrativa singular e mostrá-la para o público, de modo a tornar mais sólida a reflexão sobre esse outro período histórico.
3ªf, 23/05 – 16h
6ªf, 25/05 – 19h
Os Contos de Canterbury (I Racconti di Canterbury)
Itália/França, 1972, cor, 120min.
Exibição em 35mm
Direção: Pier Paolo Pasolini
Elenco: Hugh Griffith, Laura Betti, Franco Citti, Tom Baker, Pier Paolo Pasolini
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse:
Segunda parte da “Trilogia da Vida” do aclamado diretor italiano Pier Paolo Pasolini, Os Contos de Canterbury é baseado no poema narrativo homônimo de Geoffrey Chaucer, escrito no século XIV. Com um humor rico e um visual mágico, cada história narra episódios cômicos e muitas vezes obscenos entre personagens da Inglaterra medieval. Para completar, Pasolini faz uma representação de inferno que teria deixado Hieronymos Bosch orgulhoso.
Comentário:
Enquanto muitos filmes pautam seu estilo pelo excesso ou pelo rebusco de linguagem e forma, os filmes de Pasolini parecem se pautar pelo contrário. Aqui, é a simplicidade que incorpora tudo no filme, uma simplicidade que é tão extrema que se torna incomum. A repetição dos enquadramentos frontais, a decupagem econômica, a planificação das personagens e a ironia constante que percorre o filme dão outra significação às imagens: tudo se passa como uma ilustração dos contos, e os contos, como ilustração da vida. Esse jogo de significações, essa liberdade que os atores e as personagens possuem para se expressar são dados por um recurso que, mesmo sutil no filme, garante a relativa independência entre história e contexto, câmera e narrativa: o distanciamento.
2ªf, 21/05 – 16h
5ªf, 24/05 – 19h
Deserto Vermelho (Il Deserto Rosso)
Itália/França, 1964, cor, 113min.
Exibição Digital
Direção: Michelangelo Antonioni
Elenco: Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi, Rita Renoir, Aldo Grotti
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
Chuva, neblina, frio e poluição assolam a cidade industrial de Ravenna, na Itália. Ugo, o gerente de uma usina local, é casado com Giuliana, uma dona de casa que sofre de problemas psicológicos. Quando Giuliana conhece Corrado, um engenheiro que busca trabalhadores para montar uma fábrica na Patagônia, ela fica ainda mais perturbada.
Comentário:
Antonioni trabalha com o ritmo estendido e a amplidão nesse filme. A amplidão de uma cidade industrial, de paisagem esfumaçada, de corpos vagando por meio das torres e edifícios. O ritmo, como é característico de Antonioni, é lento, extremamente paciente, e permite que o espectador observe com calma tudo o que lhe é apresentado. Essa suspensão do ritmo nos encaminha a um suspense, que nunca se concretiza em ação. Os conflitos da narrativa permanecem lacônicos, a personagem de Giuliana é impenetrável. Frente a essa barreira que nos impede de aprofundarmo-nos nas personagens, nosso olhar se desvia para o ambiente, para a atmosfera desse mundo moderno e industrial.
3ªf, 22/05 – 16h
O Dinheiro (L’Argent)
França, 1983, cor, 81min.
Exibição em 35mm
Direção: Robert Bresson
Elenco: Christian Patey, Sylvie Van den Elsen, Michel Briguet
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
Após ter um aumento de mesada rejeitado pelo pai, o jovem Yvon é persuadido por um amigo a usar uma nota de dinheiro falsa. A partir daí, o filme segue o percurso comercial da nota e as conseqüências que ele acarreta. Baseado no conto Falso Cupom, de Leon Tolstói.
Comentário:
O estilo de Robert Bresson é característico: atuações secas, sem excessos dramáticos; enquadramentos justos e sóbrios; narrativas objetivas; ausência de trilha sonora incidental. Um grande cálculo da dramaturgia e da mise-en-scéne. Os efeitos, por muitos descritos como automatismo, estabelecem principalmente um distanciamento entre audiência e personagens. Robóticos e inexpressivos, os atores não parecem representar um parâmetro humano, não fornecem o modelo de identificação buscado pelos espectadores. Nesse filme, além disso, temos como coadjuvante uma nota de dinheiro, fato que torna a narrativa ainda mais conceitual e inumana. A atenção do público volta-se então para a trama, para o contexto, para as razões que justificariam o comportamento das personagens. A regra geral que percorre o estilo de Bresson parece reter uma explicação, e o espectador se atenta para tentar percebê-la em meio ao filme.
3ªf, 29/05 – 16h
5ªf, 31/05 – 19h
Luzes na Escuridão (Laitakaupungin Valot)
Finlândia/França/Alemanha, 2006, cor, 78min.
Exibição em 35mm
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi e Maria Heiskanen
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
Koistinen é um homem solitário, que trabalha como guarda-noturno em um shopping center de Helsinki. Tem pouquíssimos amigos e, mesmo com eles, trava uma relação desconfiada. Certo dia Koistinen conhece Aila, por quem se apaixona. Mas uma quadrilha de gângsters se aproveita de sua paixão por ela e de sua posição como vigilante para tramar um assalto a uma joalheria do shopping, incriminando Koistinen.
Comentário:
Nascido na Finlândia, o cineasta Aki Kaurismäki retoma em sua obra, em chave irônica, convenções formais típicas da era de ouro do cinema clássico americano, que hoje já foram atualizadas e caíram em desuso, conferindo aos seus filmes um curioso aspecto datado, deslocado de seu tempo. Kaurismäki resgata o ritmo lento, o movimento de câmera sóbrio, a predominância de planos médios e a iluminação artificial, criando uma imagem que por si só já se distancia dos padrões de representação de hoje. Essa iconografia encontra uma dramaturgia, contudo, que não é clássica. As motivações são veladas, as razões da narrativa também. Os silêncios predominam. As personagens agem em meio a um universo artificial, construído com base nessa revisão estética, evidenciando mecanismos de manipulação narrativa tão caros ao cinema clássico.
3ªf, 29/05 – 19h
5ªf, 31/05 – 16h
O Medo Consome a Alma (Angst essen Seele auf)
Alemanha, 1974, cor, 93min.
Exibição Digital
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Brigitte Mira, El Hedi Ben Salem, Barbara Valentin, Irm Hermann
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
Uma senhora viúva se apaixona por um homem negro e muçulmano vinte anos mais jovem. Eles decidem se casar e, juntos, enfrentam as opiniões contrárias das pessoas quanto ao relacionamento. Porém, ao mesmo tempo em que vão vencendo as dificuldades e preconceitos, começam a questionar a relação.
Comentário:
Fassbinder mais uma vez visita o gênero do melodrama em O Medo Consome a Alma, adaptando-o ao seu estilo pessoal, iconoclasta. Frente ao método melodramático por excelência, o acting-out, ou a atuação que prioriza a exteriorização dos sentimentos, Fassbinder retrata suas personagens com uma interiorização do sentimento e simplificação de conflitos interiores. A profusão que caracteriza o melodrama aqui é seca e econômica, causando estranheza no espectador, que vê uma trama marcada por características do melodrama, como a idealização amorosa e o conflito entre o desejo e a sociedade, mas sem sua estética do excesso. Essa apreciação conflituosa permite que analisemos melhor a personagem como ela é, em oposição a como gênero dita que deveria ser. Noutras palavras, temos uma visão que engloba o universo do filme e de fora do filme, uma visão que tem presente no filme as suas referências.
2ªf, 21/05 – 19h
5ªf, 24/05 – 16h
A Menina Santa (La Niña Santa)
Argentina/Espanha/Itália, 2004, cor, 104min.
Exibição em 35mm
Direção: Lucrecia Martel
Elenco: Carlos Belloso, Mercedes Morán, Maria Alche, Julieta Zylberberg
Classificação indicativa: 18 anos
Sinopse:
Amália e Josefina têm 16 anos e moram na cidade de La Ciénaga, na Argentina. Josefina pertence a uma família conservadora, enquanto a mãe de Amália, Helena, é divorciada e dirige um hotel. Certo dia, após um ensaio do coral da igreja, as duas garotas se reúnem para conversar sobre fé, vocação e segredos sentimentais. Pouco depois Amália conhece o doutor Jano, que participa de uma conferência médica no hotel de sua família. O encontro leva a jovem a descobrir sua verdadeira vocação: salvar os homens do pecado.
Comentário:
Nos filmes da cineasta argentina Lucrecia Martel, as motivações das personagens e os caminhos da narrativa são sempre insescrutáveis. Privilegiando silêncios, banalidades, detalhes, sua abordagem parece ressaltar as razões insondáveis que se escondem por trás de cada aspecto da vida cotidiana. Seu olhar distanciado permite sempre que inúmeras interpretações sejam aventadas pelos espectadores, sem interferência. Narrando de maneira amoral o conto moral de um homem seduzido por uma adolescente, a cineasta não emite julgamentos e não direciona a apreciação do espectador. Em seus filmes, estamos sempre livres para observar a vida desenrolar-se diante de nossos olhos sem interferência e tirarmos nossas próprias conclusões.
3ªf, 22/05 – 19h
6ªf, 25/05 – 16h
São Bernardo
Brasil, 1972, cor, 111min.
Exibição em Cópia Digital
Direção: Leon Hirszman
Elenco: Othon Bastos, Isabel Ribeiro, Nildo Parente, Vanda Lacerda, Mário Lago
Classificação indicativa: 10 anos
Sinopse:
Baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos e com trilha sonora de Caetano Veloso, o filme acompanha a trajetória de Paulo Honório, um modesto caixeiro-viajante que enriquece valendo-se de métodos violentos e compra a fazenda São Bernardo. Paulo Honório então contrata casamento com Madalena, a esclarecida professora da cidade, e o conflito se estabelece quando Madalena não aceita ser tratada como propriedade.
Comentário:
Com uma abertura estonteante, em planos gerais fixos, o início de São Bernardo já anuncia em suas imagens a visão que teremos da trama, uma visão afastada, hermética, opaca. De fato, há um abuso dos planos gerais, e pouca preocupação com expor a face das personagens. O filme não traz à superfície suas significações: é o espectador que terá que buscá-las em suas estruturas fechadas. A aparente intimidade com os atores parece levar o público muito próximo de seus sentimentos, o que se revela, por fim, ilusório. As personagens, quase impenetráveis, resistem às aproximações da câmera, mesmo em planos mais próximos não permitem que ela as desvele. Pelo contrário, essa aproximação que não revela mais detalhes da personagem produz um estranhamento, que distancia. O filme mergulha numa profundidade do que é oculto, do que não se revela, profundidade essa que se mostra extremamente rica. A voz over de Paulo Honório, tão solene quanto o ritmo do filme, guia-nos nessa jornada rumo ao interior de uma relação que se revela cada vez mais inacessível.
2ªf, 28/05 – 16h
4ªf, 30/05 – 19h
Últimos Dias (Last Days)
EUA, 2005, cor, 96min.
Exibição em Cópia Digital
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Scott Patrick Green
Classificação indicativa: 18 anos
Sinopse:
Blake é um famoso músico de rock que mora numa mansão mal conservada e isolada do mundo. Caminhando pelos bosques que circundam a casa, interagindo pouco com o grupo de amigos que coabita o local ou tocando música sozinho, ele se fechou em um mundo interior que o torna cada vez mais distante dos outros e da vida. Baseado na vida de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana.
Comentário:
Durante boa parte do início do filme, não vemos direito a face do protagonista. Encoberta pelos cabelos ou distante demais, a face permanece oculta. O protagonista permanece enigmático, uma personagem que não se expõe, não fala, age somente para si. A essa representação se aliam os enquadramentos, que se relacionam com Kubrick pela racionalização do espaço e atenção ao ambiente, e abusam dos planos gerais e de conjunto. A identificação vaga do protagonista relembra a relação com o músico Kurt Cobain. O filme busca retratá-lo, mas não particularmente, e sim retratar sua imagem, como algo que pode se reproduzir ou achar forma em outras personagens.
2ª, 28/05 – 19h
4ªf, 30/05 – 16h
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