Veja Livro dos Huni Kuin no Itau Cultural

A cultura é a força deste povo que vive no Acre. Assim, a pesquisa dos pajés, os tratamentos de cura e sabedoria ancestral são a essência da exposição Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do povo Huni Kuin do Rio Jordão, na qual a ciência e a arte fazem parte do mesmo conhecimento integrando cadernos de estudos, desenhos, pinturas, elementos do cotidiano, cerâmicas e tecelagens.

Com abertura no dia 6, quarta-feira, às 20h, e visitação de 7 de dezembro a 13 de fevereiro de 2018 em horário normal, Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do Povo Huni Kuin do Rio Jordão encerra a programação das exposições no Itaú Cultural este ano. Instalada nos pisos -1 e -2 do instituto, a mostra foi desenvolvida colaborativamente por representantes desta etnia ao lado da editora Anna Dantes, o artista Ernesto Neto, a equipe do Itaú Cultural e com organização do pajé Dua Buse. Ela reverbera a frase formulada pelo pajé Agostinho Manduca Mateus Ika Muru (1944-2011): “A cultura é nossa maior proteção”, que definiu, assim, como este povo habitante da região amazônica, no Peru e no Acre, se organiza e se posiciona na contemporaneidade, preservando e disseminando sua cultura ancestral.

Na aldeia Coração da Floresta, Manuel Vandique Dua Buse começou a organizar o projeto Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva. A primeira fase de pesquisa teve apoio do Rumos Itaú Cultural 2013-2014. Já os seus desdobramentos – a exposição, a construção de uma Kupixawa-escola (maloca) na aldeia, a confecção de um livro e de um documentário, ambos acessíveis na mostra, e a futura disponibilização ao público de um site com os cadernos de pesquisa dos pajés estão sendo consolidados com apoio direto do Itaú Cultural.

Esse processo é apresentado no Itaú Cultural buscando a ampliação da experiência na floresta amazônica acreana em conexão com as tecnologias das cidades, como o lápis e o papel. Ao chegarem na cultura Huni Kuin, esses materiais alteraram a forma de transmissão do conhecimento – antes oral, agora pelo desenho e, consequentemente, pela pintura. Una Shubu Hiwea dá continuidade a esse trabalho iniciado em 2011 pelos pajés, que, em um primeiro momento, resultou na publicação do livro Una Isi Kayawa, Livro da Cura (Dantes e Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2014) e que agora será relançado na exposição.

No -1, piso que na mostra se chama Rios, está plotada no chão uma grande reprodução da pintura dos rios Jordão e Tarauacá ladeados por sua mata ciliar, como em uma panorâmica vista do alto. Cerâmicas, cestaria, tecelagens e outras artes Huni Kuin, feitas especialmente para esta mostra, estão reunidas no centro da sala.

Ainda neste espaço estão os desenhos e cadernos originais que registram a pesquisa Huni Kuin, com relatórios de tratamentos, inventários de plantas nos parques medicinais, diários e mensagens. Pequenos vídeos levam à exposição a fala de quatro pajés e um grande mural conta a história da transformação dos pajés antigos em plantas medicinais, para curar seu povo.

Uma síntese da história dos cinco tempos Huni Kuin está desenhada em um quadro-negro. Na mesa, talhada com relevos de kenes – uma geometria sagrada –, estão os três livros publicados no tempo Xinã Bena – cujo significado é Novo Tempo, representando o momento atual vivido por este povo e um dos que marcam a sua história. Os livros são Una Hiwea, Livro Vivo (UFMG, 2013), o já citado Una Isi Kayawa, Livro da Cura e Una Shubu Hiwea (Dantes e Itaú Cultural, 2017). Este andar é envolvido pela paisagem sonora criada por Yan Saldanha a partir de gravações captadas nas aldeias e na floresta. Assim, o visitante sente e escuta o som de diferentes momentos e situações vividos ao longo de um dia no universo natural indígena.

Jiboia é o nome do piso -2 nesta exposição, onde se pode conhecer um pouco mais da cultura desse povo cercado do som noturno da floresta. Uma sala de vídeo exibe os registros aéreos do seu território, nos rios Jordão e Tarauacá, feitos por Taua Klonowski a partir de filmagens com drone. Em outra, o visitante assiste ao documentário Una Shubu Hiwea, de Camilla Coutinho Silva, ainda inédito. Nele, Dua Buse, que aprendeu com seu pai os conhecimentos antigos sobre o tratamento de doenças com as plantas medicinais da tradição, conta um pouco desse trabalho, realidade, e forma de viver e pensar do seu povo.

As imagens deste doc foram captadas por Camilla durante as viagens de construção do livro Una Shubu Hiwea, pensado por Dua Buse para ser um registro dessa sabedoria para as futuras gerações. Neste andar, também se encontram fotos dela que apresentam o universo dos parques medicinais. Estão representados ali, ainda, 13 mitos Huni Kuin em pinturas de grande dimensão. Uma jiboia, símbolo da transformação para eles, está reproduzida no chão e traz, sobre o desenho, a instalação de 36 bancos – um para cada aldeia dos rios Jordão e Tarauacá.  Ao centro da sala encontra-se um solene Tasakanã, tipo de banco usado nos batismos, feito com a madeira da raiz da samaúma e rezado pelo pajé – estes assentos são uma reprodução feita pelo Itaú Cultural em eucalipto para representar os originais.

Um grupo de indígenas escolhidos pelos pajés das 36 aldeias chegaram ao Itaú Cultural com semanas de antecedência para trabalhar na montagem desta exposição. Eles pintaram painéis coloridos cujas formas descrevem a história e os saberes de seu povo. Na abertura da mostra e até o dia 10, Dua Buse e uma comitiva de pajés estará presente sacralizando este subsolo que emerge da avenida Paulista para compartilhar com o povo da cidade a sua cosmovisão.

A equipe do Núcleo de Educação e Atendimento programou atividades para os primeiros dias da exposição. De 7 a 8 de dezembro – quinta-feira e sexta-feira, às 18h30, e sábado e domingo às 14h e às 16h –, os visitantes podem conhecer mais da cultura Huni Kuin em contato direto com os seus representantes. Alguns indígenas daquele povo permanecem no espaço expositivo para promover encontros em roda e vivências com os cidadãos urbanos, entre cantorias, conversas, oficinas de desenhos, entre outros. As atividades acontecem nos espaços da exposição, pisos -1 e -2, cada atividade com duração aproximada de 60 minutos e sem distribuição de ingressos.

A exposição é acompanhada, ainda, de uma publicação produzida especialmente para esta ocasião em uma parceria entre o Itaú Cultural, o artista Ernesto Neto, a editora Anna Dantes, a Dantes Editora e representantes das aldeias. Ela será distribuída durante o período em que a mostra estiver em cartaz. Em www.itaucultural.org.br também poderá acessar mais informações e conteúdo da exposição.

Paulo Varella1238 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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