Ana Maria Tavares: espaços em reflexos de formas

A complexidade da arte de Ana Maria Tavares na sua admirável retrospectiva na Pinacoteca do Estado se vincula em arrojadas concepções que estimulam investidas interpretativas diversas nos pontos cruciais de temas inquietantes. Reunindo mais de 160 obras desde os anos 80, o espectador visualiza uma trajetória rica de experiências com resultados extremamente vanguardistas, mas com um vigor visionário sutil ao desdobrar as inquietações do homem contemporâneo frente a tantos avanços tecnológicos e apelos visuais presentes na linguagem arquitetônica como no aparato propagandístico que inflama as metrópoles.

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Atlântica Moderna (parte I) [detalhe], 2016 | Modelação digital do projeto para intervenção (vista parcial)
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Mesa Curva , 1989, Curved Table | Crédito: Eduardo Brandão

As obras expostas ocupam majestosamente os espaços centenários da bela Pinacoteca transformando instalações em portais para dimensões que ultrapassam a realidade ganhando contornos de apuradas projeções enigmáticas da própria existência humana. A arte sempre vai além das elucubrações básicas do cotidiano, avança para outras esferas e perscruta as potencialidades da criatividade, onde não existe limite. O espaço é a grande tônica da mostra com reflexos, espelhos que fazem as obras flutuarem no olhar e na imaginação. A reação humana sempre extrapola o real, partindo para outros confrontos, experiências vividas, entre sonhos vislumbrados, tudo num só olhar em lances de segundos, estimulando novos desafios. A mostra “No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares”, faz o apreciador observar a engenhosidade das formas metálicas, das imagens captadas e enfocadas numa vibrante sensação de acolher os fluxos energéticos existente em cada incursão plástica, curvas, delineamentos, movimentos propostos pelos reflexos, entre alguns dos detalhes que enobrecem o conjunto das obras expostas entre corredores que são imaginários túneis do tempo.

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Logbook (Caixa Preta), 1990 | Crédito: Eduardo Brandão

A mostra se posiciona não como algo lúdico, mas como uma forma de aquilatar as conturbações sociais da atualidade. A sua primeira individual, aliás, aconteceu na própria Pinacoteca, há mais de três décadas atrás, o seu retorno ao começo é instigante, evidencia uma tenacidade ímpar ao ocupar as salas, o octógono, o lobby e os imponentes corredores, transformando tudo numa grande incursão por várias fases.

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Pergaminho, 1991, Parchment | Crédito: Rômulo Fialdini
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Exposição Relax’o’Visions, MuBE | Crédito: Rubens Mano

Existe uma crítica aos exageros de uma sociedade que busca bens materiais em excesso se esquecendo dos parâmetros vitais do ser humano, que necessita se encontrar consigo mesmo, tentar conquistar um autoconhecimento e controlar as imperfeições. Nota-se na obra de Ana Tavares um rigor estético que impregna todos os espaços, proporcionando uma instigante abordagem que lembra o Futurismo, a Bauhaus entre alguns movimentos que revolucionaram o século XX e influenciam as concepções artísticas atuais. Existe um fio condutor que passa uma energia mágica por períodos diversos, deixando sempre algo a ser descoberto e confrontado.

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Alguns Pássaros (Those in Flight) [Aqueles em vôo], 1991, Some Birds (Those in Flight) | Crédito: Eduardo Brandão
A presente mostra que mereceu prêmio pela APCA como melhor retrospectiva, consegue inovar cobrindo décadas de reflexões e realizações, um item referencial a ser estudado profundamente, numa das montagens mais revolucionárias ocorridas na Pinacoteca. Nos mais diversos ângulos as obras de Ana Maria Tavares tem autonomia e uma força individual suprema mas no conjunto geral, o visitante se empolga e se integra com as nuances de novas perspectivas forjadas nas inquietações do passado e do presente. A arte define caminhos prevê avanços consegue ser as vezes atemporal, mas no fundo permite reflexão e prazer na busca de inusitadas sensações e abordagens plásticas, notadamente na retrospectiva de Ana Tavares, as questões essenciais da expressividade artística se alinham com grande intensidade numa profusão de obras impactantes.

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Fortuna, 2009, Fortune | Crédito: Cia de Foto
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Vitrine III, da série Paisagens perdidas (para Lina Bo Bardi), 2008, Glass Case III, from the series Lost, Lanscape (for Lina Bo Bardi) | Crédito: Cia de Foto

Serviço
No lugar mesmo: uma antologia de Ana Maria Tavares
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2, Luz, São Paulo
De 19/11 até 10/4/2017
De quarta a segunda-feira, das 10h às 17h30
Tel.: (11) 3324 1000

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José Henrique Fabre Rolim16 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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