Da Terra Brasilis à Aldeia Global em Fortaleza

 

Em comemoração aos 45 anos da Universidade de Fortaleza, a Fundação Edson Queiroz promove Da Terra Brasilis à Aldeia Global, exposição que ocupa o Espaço Cultural Unifor entre 20 de março de 2018 e 24 de março de 2019. Com a curadoria de Denise Mattar, a mostra reúne 250 obras, abrangendo um arco temporal que se estende entre os séculos XVI e XXI. São trabalhos dos principais artistas do Brasil e também de estrangeiros que muito bem retrataram o País.

flores

A exposição toma como ponto de partida o livro Americae Tertia Pars, do livreiro belga Theodore de Bry. Publicado na Europa em 1592, a obra baseia-se em relatos de viagens realizadas por europeus no Brasil. De modo cronológico e didático, a mostra percorre todos os movimentos da arte brasileira, chegando por fim à contemporaneidade, com a apresentação de trabalhos de artistas como Vik Muniz e Adriana Varejão. Cada um desses períodos é contextualizado, evidenciando o reflexo que seus respectivos momentos histórico, político e social tiveram em sua concepção. A curadoria destacou ainda uma série de títulos da Biblioteca Acervos Especiais, da própria Fundação, acervo que conta com uma seleção de cerca de 8 mil publicações, muitas delas raras.

Dom Pedro 1829

 

“Ao optarmos por uma abordagem que contempla a História do Brasil por meio de seus movimentos artísticos, a exposição se torna, por si só, uma homenagem e uma linha do tempo ilustrada pelos principais artistas de suas épocas. Essa transfiguração da Arte em História é algo especial, que a Fundação Edson Queiroz pensou para, mais uma vez, presentear seu público em um ano tão importante para nós”, afirma Lenise Queiroz Rocha, presidente da Fundação Edson Queiroz, referindo-se aos 45 anos da Unifor.

Maurício de Nassau 1649

Randal Pompeu, vice-reitor de Extensão da Universidade de Fortaleza, lembra que a arte e a cultura fazem parte da atuação da instituição desde sua criação, em 1973, quando foi realizada a primeira mostra. “Desde então, a Unifor realizou sucessivas exposições e, em paralelo, a Fundação Edson Queiroz constituiu uma das coleções de artes visuais mais importantes do país, hoje reconhecida e exposta nacional e internacionalmente”, destaca.

Vista de Niterói Século XIX

A arte brasileira diante da globalização

Subordinada durante séculos às correntes artísticas internacionais, a arte brasileira sempre viveu sob o constante processo de cópia e repetição, adaptação e transformação, conseguindo poucas vezes imprimir a sua produção um sabor nacional. Barroco, Academia, Modernismo, Abstracionismo, Concretismo, Nova Figuração, Conceitualismo, Transvanguarda e Neoexpressionismo foram se sucedendo de forma cada vez mais veloz. Essa dinâmica começou a se reverter no final da década de 1980, quando se abriu espaço para a internacionalização e a arte realizada aqui começou a se integrar ao circuito de arte mundial.

Primeira missa em São Vicente, 1845

Além de traçar esse roteiro com o exterior, Da Terra Brasilis à Aldeia Global aponta como a questão centro e periferia se repetiu internamente no Brasil, sempre privilegiando os centros econômicos. No início da colonização, até então situados nas regiões Norte e Nordeste, esses centros deslocaram-se para o Rio de Janeiro, em função da descoberta do ouro – até a absoluta predominância do eixo Rio-São Paulo.

Engenho, 1661

“Alguns artistas significativos, por viverem fora dessa área, não chegaram a integrar o chamado circuito de arte. Outros alcançaram essa meta ao preço de sair de sua terra natal”, aponta Denise Mattar. Neste contexto, ela destaca a produção de artistas cearenses, integrando-os a cada um dos movimentos apresentados pela mostra. “A excepcionalidade da coleção da Fundação Edson Queiroz permite contar essa história, quase sem lacunas, pois seu acervo excede em qualidade e quantidade a de muitos museus do eixo Rio-São Paulo, acentuando sua importância dentro da discussão proposta”, pontua a curadora.

Juramento Regencia, 1831

Diante do já consolidado processo de globalização, a dinâmica das relações entre centro e periferia tem tomando novos e inesperados rumos, sempre em alta velocidade. Neste panorama, circula hoje o artista plástico brasileiro, que se move solitário, tendo como objetivo principal desenvolver sua obra e conseguir sua inclusão no circuito internacional.

Tocadoras de Atabque, 1940

Nunca, nas artes plásticas, essa inserção foi tão possível como agora. As barreiras se mantêm e as facilidades de ação para aqueles que estão nos países desenvolvidos seguem mais numerosas. A busca por talentos, entretanto, tem ultrapassado fronteiras. Em contrapartida, essa procura pela internacionalização tem levado bons artistas a deixar de lado suas pesquisas pessoais e sua matriz nacional para se adaptar às correntes mais aceitas por este circuito, algumas vezes com resultados decepcionantes. “Ser universal sem se perder de suas origens é um grande desafio”, conclui a curadora.

Lapa, 1944

A arte brasileira em 9 módulos

Módulo 1: Terra Brasilis (1500–1637)

Constam as obras Primeira Missa, de Victor Meirelles, Primeira Missa em São Vicente, de Johann Moritz Rugendas, além de quatro óleos de Frans Post e Vista do Recife e seu porto, de Gillis Peeters.

Módulo 2: A matriz barroca (séc. XVII-XVIII)

Consta o conjunto de quatro obras denominado Os Quatro Continentes, pinturas de forros caixotonados de autor desconhecido, usuais nas igrejas, capelas e salas senhoriais desse período. Segundo Denise Mattar, esses trabalhos guardam similaridade com o forro da Igreja Matriz de Aquiraz, datada de 1713. A exposição terá vídeo sobre essa igreja, mostrando a herança barroca presente na primeira capital do Ceará. O vídeo será produzido pelo professor Glauber Filho, do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor, com apoio técnico da TV Unifor.

Natureza Morta, 1950

Módulo 3: Reais mudanças (1808-1821)

Constam, entre outras, as obras Retrato de D. Pedro I (1829), óleo de Simplício de Sá Rodrigues, que tem um similar no Museu Imperial de Petrópolis (RJ), e Juramento da Regência Trina (1831), de Araújo Porto Alegre, que retrata, em proporções murais e com riqueza de detalhes, a cerimônia de posse da Regência Trina, realizada no Paço Imperial.

Quase todos os integrantes da Missão Francesa estão representados no grupo A Presença Francesa, destacando-se as obras São João (1799), de Nicolas Antoine Taunay, e Cascatinha da Tijuca (1840), de Félix-Emile Taunay. O módulo encerra-se com o conjunto O Olhar Estrangeiro, que inclui ainda pinturas, gravuras e álbuns de viagens, destacando-se obras de Adolphe D’Hastrel, August Müller, Durand-Brager, Conde de Clarac, Arnaud Julian Pallière e Johann Moritz Rugendas.

Menina, 1950

Módulo 4: Uma Academia nos trópicos (1826 -1922)

Seleção de obras de artistas influenciados pela Academia Imperial de Belas Artes (AIBA). A Coleção da Fundação Edson Queiroz reúne os mais importantes artistas acadêmicos brasileiros desse período. Fazem parte do núcleo obras de Belmiro de Almeida, Eliseu Visconti, Almeida Júnior, Rodolpho Amoedo, Vicente Leite e Raimundo Cela.

Módulo 5: Modernidade (1917-1950)

A Coleção da Fundação Edson Queiroz tem obras dos principais artistas do Primeiro Modernismo, dentre os quais, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Gomide, entre outros. A criação dos Museus de Arte Moderna em São Paulo e Rio, entre 1947 e 1948, encerra o ciclo do Segundo Modernismo, abrindo espaço para a chegada do Abstracionismo. Obras de Pancetti, Guignard, Segall, Volpi, Bruno Giorgi, Flávio de Carvalho, Ceschiatti, Aldemir Martins e Silvio Pinto completam o módulo, que prestará homenagem especial a três artistas brasileiros, com salas em separado: Di Cavalcanti, Milton Dacosta e Candido Portinari.

Estudo para o descobrimento do Brasil, 1950

Módulo 6: A Força da Abstração (final dos anos 1940 até a atualidade)

Dele fazem parte artistas abstrato-informais da Coleção: Vieira da Silva, Antonio Bandeira, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Walber Batinga, Iberê Camargo e Frans Krajcberg. Dos grupos de Concretos e Neoconcretos, integram a exposição Ivan Serpa, Lygia Pape, Abraham Palatnik, Franz Weissmann, Hélio Oiticica e Lygia Clark. Sem fazer parte dos grupos citados, outros artistas desenvolveram, ao longo dos anos, sua pesquisa no abstracionismo geométrico, e por isso merecem destaque na exposição. São eles Aldo Bonadei, Heloísa Juaçaba, Mira Schendel e Eduardo Frota.

Módulo 7: Tempos difíceis (1960-1970)

O título que dá nome ao módulo faz alusão ao período da Ditadura Militar. Entre os artistas deste período, Antonio Dias, Wesley Duque Lee, Sérvulo Esmeraldo, Lygia Pape, Cildo Meireles e Waltércio Caldas.

O carrasco o lao eu e você, 1965

Módulo 8: Chuvas de verão (1980 – 1990)

Agrupa os artistas da chamada “Geração 80”, reunindo obras dos principais nomes desse período: Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Daniel Senise, Francisco de Almeida, João Câmara Filho, Leda Catunda e Leonilson.

Módulo 9: A Aldeia Global (de 1990 até a atualidade)

Denise Mattar selecionou obras significativas da Arte Contemporânea presentes na Coleção da Fundação Edson Queiroz. São trabalhos de artistas como Adriana Varejão, Mariana Palma, Henrique Oliveira, Vik Muniz, José Tarcísio, Luiz Hermano e Efrain Almeida.

Árvore, 1922

Sobre a Fundação Edson Queiroz

Como poucas instituições no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo, a Fundação Edson Queiroz construiu amplo acervo de arte brasileira, sobretudo do século 20, com obras de artistas do porte de Lygia Clark, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Hélio Oiticica, Candido Portinari, Alfredo Volpi, entre outros. A articulação entre a educação superior e as artes faz parte da essência da Fundação Edson Queiroz, mantenedora da Universidade de Fortaleza (Unifor), onde a comunidade acadêmica convive em harmonia com as artes visuais, o teatro, a música e a dança, por meio da realização de exposições, espetáculos e do apoio permanente a seus grupos de arte – Big Band, Camerata, Cia. de Dança, Coral, Grupo Mirante de Teatro e Grupos Infantis de Sanfona, Flauta, Violino e Piano. Criado em 1988 e instalado no campus da Universidade, o Espaço Cultural Unifor apresenta exposições de grandes artistas internacionais, como Rembrandt, Rubens e Miró, artistas brasileiros e jovens talentos locais. A Fundação mantém ainda a Biblioteca Acervos Especiais, composta por cerca de 8 mil livros raros, que datam desde o século XV, incluindo parte significativa da coleção que pertencia a Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo Matarazzo, aberta à visitação pública sob agendamento.

Diamante Negro, 1950

Serviço
Exposição: Da Terra Brasilis à Aldeia Global – Coleção Fundação Edson Queiroz
Local: Espaço Cultural Unifor
Período expositivo: de 20 de março de 2018 a 24 de março de 2019
Visitação: de terças a sextas-feiras, das 9h às 19h; sábados e domingos, das 10h às 18h
Mais informações: (85) 3477.3319
Acesso gratuito

 

Paulo Varella1398 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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