“Dragão Floresta Abundante” em BH

Exposição “Dragão Floresta Abundante”, chega a BH apresentando um olhar íntimo da cultura milenar chinesa

Mostra apresenta o resultado da residência artística de Christus Nóbrega, artista brasileiro que mergulhou na cultura milenar chinesa ao participar de uma residência artística no país entre os meses de outubro e dezembro de 2015, resultando em obras e trabalhos de arte contemporânea que apresentam diversas formas e expressões de linguagem artística

Na história da humanidade diversas civilizações criaram histórias e narrativas épicas para registrar metafórica e figurativamente importantes acontecimentos para o desenvolvimento das sociedades. Culturas antigas como as das civilizações gregas, árabes e japonesas possuem um respeito pela história de seus antepassados que ajudam a moldar as tradições e costumes pelos quais são sedimentados os caminhos do novo mundo. Uma das culturas que melhor combina tradição e modernidade na sua rica e milenar trajetória é a histórica cultura chinesa, presente nos trabalhos de arte contemporânea que integram a exposição “Dragão Floresta Abundante”, que poderá ser conferida entre os dias 02 de maio e 30 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB-BH.

Pipas na Exposição Dragão Floresta Abundante – crédito Lucas Las Casas

A exposição, que vem para Belo Horizonte após uma temporada de sucesso em Brasília, registrando mais de 24 mil visitantes, narra a história de um deslocamento. Ela apresenta o resultado da residência artística de Christus Nóbrega, artista brasileiro que passou dois meses em Pequim, na China, durante um grande processo de imersão na cultura do país oriental, observando e compreendendo seus valores e aspectos etnográficos e antropológicos, retratados e apresentados na exposição por meio de uma narrativa visual.  Ao longo de sessenta dias, o artista frequentou as dependências da Central Academy of Fine Arts – CAFA (http://www.cafa.com.cn/), considerada a maior e mais prestigiada universidade de artes visuais da China e uma das mais importantes da Ásia. Recebe regularmente muitos estudantes de Taiwan, Hong Kong, Rússia e alguns da Europa. Christus Nóbrega foi o primeiro brasileiro a estudar na instituição, tendo sido convidado pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) a estrear o programa criado em parceria com a CAFA, iniciando a parceria entre universidade e Itamaraty.

Obra Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos – Exposição Dragão Floresta Abundante – crédito Lucas Las Casas

Tanto a curadora do programa de residência Tiffany Beres quanto os organizadores do programa no Itamaraty reconheceram na minha produção diálogos com a arte chinesa e, assim, uma possibilidade de aproximação entre os dois países. Um dos aspectos técnicos dessa aproximação foi o uso de papéis recortados, já que a China tem no paper-cutting um patrimônio cultural secular utilizado tanto por artesãos como por artistas. Porém, diferentemente de como é feito na China, utilizo como suporte a fotografia enquanto os chineses o papel vermelho”, destaca o artista.

Durante esse processo, Nóbrega desenvolveu obras que apresentam uma narrativa visual resultante de seu processo intimo e pessoal de observação, afastamento, identificação e vivência da cultura chinesa, trazendo até seu próprio nome na língua local para o coração da exposição.

“Em minha residência tive os trintas primeiros dias, que chamei de ver-paisagem e os trinta dias seguintes, que nomeei de ser-cidade. Ao olhar como turista, vemos os espaços, as edificações, as pessoas, os sons e outros elementos do entorno como paisagem, pois entre nós e eles há um grande vácuo simbólico. À medida que entendemos os significados desses símbolos e começamos a praticá-los, atrelando-os em nosso cotidiano, o que era antes distante e puramente paisagístico transforma-se em cidade. Enquanto estava apenas a ver-paisagem tive a oportunidade de conhecer mais a cultura chinesa. Começar a entender um pouco seus modus operandi, seus sabores, seus tabus, seus medos, seu sistema de controle, suas tradições milenares, suas formas de transitar, de negociar, suas posturas políticas, sua economia, seu entendimento do que é arte e do que pode a arte”, afirma o artista.

Montagem da Dragão Floresta Abundante – crédito Lucas Las Casas

O título “Dragão Floresta Ambulante”, inclusive, é a tradução literal do nome Lóng Pèi Sem, que foi dado a Nóbrega durante o período em que viveu na nação oriental. “No meu cotidiano conheci uma estudante de fotografia de Taiwan, Gloria Lee, que generosamente me tutoriou pela China, me apresentando ao cotidiano da região e me explicando muito dos hábitos e costumes de seu povo. Como Gloria Lee também era formada em Letras/Chinês e foi a pessoa que mais me conheceu intimamente, no dia do meu aniversário foi capaz de escolher e presentear-me com um nome em chinês 龍沛森 (pronuncia-se Lóng pèi sēn). O primeiro logograma significa dragão, o segundo abundante e o terceiro floresta. Em uma tradução livre significa ‘aquele que faz coisas bem-aventuradas e grandiosas’”, conta Nóbrega.

Com curadoria da historiadora da arte Renata Azambuja, a mostra tem ligação direta aos diferentes formatos de registros milenares da cultura chinesa que se dão, em vasta maioria, em recordações escritas, desenhos, contos e histórias épicas grafadas em manifestações artísticas. Assim, Dragão Floresta Ambulante é composta por uma série de oito obras de arte contemporânea, que transitam entre diferentes linguagens e expressões artísticas como fotografia, registros de performances, desenhos feitos por meio de um equipamento GPS, recorte laser e algoritmos, propondo reflexões sobre diferentes tecnologias, desde as mais arcaicas e enraizadas nas origens anciãs chinesas – como o mapa e a pipa – até as mais modernas, causando o encontro entre tradição e contemporaneidade. A exposição também conta com obras interativas, que convidem o público a imergirem profundamente na produção artística e nas temáticas trabalhadas.

Obra 89 passos. 89 linhas. Desenhos sobre a paz – crédito Lucas Las Casas

O objetivo da mostra é fazer o público adentrar no processo de residência artística, que geralmente ainda é uma experiência pouco difundida para o público em geral, apresentando o tipo de experiência que o artista vive quando enquanto está em estado de trânsito por uma região rica em inspirações. Uma obra de destaque para essa compreensão é a intitulada “Dicionário Feminino”, uma série de fotografias criadas com pigmento natural sobre uma folha de cartografia, explorando os processos de construção de palavras em mandarim, uma língua gramaticalmente simples, mas complexa em sua fonética e caligrafia. Dessa forma, o artista conseguiu mostrar como ficou profundamente tocado pela forma como diversas palavras na língua local utilizam do radical “mulher” para construírem as relações fonéticas, gramaticais e semânticas.

Já a obra “Roupa Nova do Rei” apresenta uma série de autorretratos de artistas recobertos com mantos de papel recortados por artesãs chinesas, afixados sobre as imagens com o uso de alfinetes de ouro. A técnica utilizada é a milenar arte do paper cutting chinês, que utiliza do papel vermelho recortado como amuleto de sorte e felicidade. Por conta disso, as peças desenvolvidas sob essa técnica são comumente utilizadas para presentear amigos, familiares e entes queridos em diversas celebrações.

Outra obra que merece destaque é “Passeio Controlado”, que convida o público a participar de uma Fábrica de Pipas, aproximando o público a imergir na tradição cultural milenar de empinar pipas, ao mesmo tempo em que propõe um olhar sobre as mazelas do sistema de produção industrial e a desvalorização de trabalhos manuais e métodos artesanais. A montagem ainda apresenta centenas de pipas estampadas por fotos de chineses que já exerceram o ofício de produzir pipas, mas que, por motivos como exílio político, problemas de saúde, foram separados compulsoriamente de suas famílias e entes queridos.

Um trabalho que simboliza bem o desenvolvimento da sensibilidade no olhar do artista durante sua residência é a exposição de fotografias “Fábrica de Nuvens”, que apresenta diferentes pontos de vista da visão que Christus tinha da janela do cômodo em que residia na Universidade, encarando a chaminé de uma fábrica que contribuía diretamente com a poluição do ar, que cada vez mais alcança índices alarmantes na China.

Além destas obras, a exposição Dragão Floresta Ambulante conta com os trabalhos “89 Passos. 89 Linhas. Desenhos sobre a Paz”, “Expedição Empório Celestial“, “Agitações concêntricas, sistêmicas e organizadas em lago verde”, “A Roupa Nova do Rei” em sua montagem.

 

SOBRE CHRISTUS NÓBREGA

Artista e Professor Adjunto do Departamento de Artes Visuais  (VIS),  do  Instituto  de Artes  (IdA)  da  Universidade  de  Brasília  (UnB).  Doutor e Mestre em Arte Contemporânea pela  UnB.  Leciona e orienta nos curso de Pós-Graduação em Artes e Design da mesma instituição. Vem participando regularmente e exposições nacionais  e  internacionais.  Tem obras em acervos e coleções privadas  e  institucionais,  a  exemplo  da  Fondation  Cartier  –  Paris e no  Museu  de  Arte  do  Rio  (MAR)  –  Rio  de  Janeiro,  Embaixada  do  Brasil  na  China  –  Itamaraty,  Central  Academy  of  Fine  Arts  Museum  (CAFA)  –  Pequim,  Embaixada  da  Alemanha no  Brasil,  Museu  Nacional,  entre  outras.  Autor de livros e artigos científicos na área de artes e arte/educação.  Premiado pelo Programa Cultural da Petrobras (2004 e 2011) e pelo Museu da Casa Brasileira (2004). Em 2015, representou o Brasil na China pelo Programa  de  Residência  Artística  do Ministério  das  Relações  Exteriores  do  Brasil,  na  universidade  chinesa  Central  Academy of Fine Arts (CAFA).

 

::Serviço::

 

Exposição “Dragão Floresta Ambulante”, de Christus Nóbrega

Datas: de 02 de maio a 30 de julho

Horário de visitação: de 09h às 21h

Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários)

Informações: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/belo-horizonte

Entrada Franca

 

Paulo Varella1390 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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