O pioneiro da arte cinética: obras de Alexander Calder no Itaú Cultural

Calder, singeleza no movimento

A sutileza das esculturas de Alexander Calder (1898-1976) são notáveis, essencialmente baseadas na poética dos móbiles que se agitam no ar, cujo início foi a partir dos ano 30, em Paris, acompanhados pela série de estruturas impactantes, os stabiles.

Desde cedo o seu talento florescia, fazendo seus próprios brinquedos, com apenas 4 anos esculpiu uma estátua de elefante feito de argila. Das performances com o Cirque Calder, nos anos 20, onde já criava movimento com material como o arame, concebendo miniaturas de personagens circenses, a sua intensa criatividade foi se aprimorando. Tendo se formado em engenharia mecânica, o seu lado artístico prevaleceu, foi pintor, ilustrador e escultor, tendo em 1923, estudado no Art students League onde concluiu o curso em 1926.

NaveMeditaFeNuJardim (2015 Ed. 3/3), de Ernesto Neto. Aço corten, porcelana, plantas, tecido, algodão, crochê de corda de poliéster e bola de cristal | Cortesia Galeria Fortes Vilaça, São Paulo (Foto: Eduardo Ortega/Itaú Cultural)
NaveMeditaFeNuJardim (2015 Ed. 3/3), de Ernesto Neto. Aço corten, porcelana, plantas, tecido, algodão, crochê de corda de poliéster e bola de cristal | Cortesia Galeria Fortes Vilaça, São Paulo (Foto: Eduardo Ortega/Itaú Cultural)

Visitou a Grã Bretanha, mas decidiu se estabelecer em Paris, onde conheceu os surrealistas, os dadaístas, além dos componentes do Grupo holandês De Stiyl, tendo se tornado amigo de Piet Mondrian, de Joan Miró, Jean Arp, Fernand Léger entre tantas outras celebridades como Josephine Baker.

Calder conhecido como Sandy, sempre retornava a Paris após se estabelecer nos Estados Unidos, conquistou fama no panorama da escultura moderna por ser o criador dos stabiles, sólidas esculturas fixas ao solo e dos móbiles, placas e discos metálicos unidos por fios, que se movem ao sabor do vento protagonizando formas incríveis. Marcel Duchamp dizia: “É a sublimação de árvore ao vento”.

Objeto Cinético (1986) de Abraham Palatnik. Tinta industrial, madeira, fórmica, metal e motor | Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), Fundo para aquisição de obras para o acervo MAM-SP - Pirelli
Objeto Cinético (1986) de Abraham Palatnik. Tinta industrial, madeira, fórmica, metal e motor | Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), Fundo para aquisição de obras para o acervo MAM-SP – Pirelli

Pioneiro em realçar o movimento na escultura, um visionário na arte cinética, tinha nos últimos anos um estúdio em Saché, perto de Tours, na França, e possuía também uma fazenda em Roxbury, Connecticut, local em que guardava diversas obras e objetos como até as bandejas feitas com lata de azeite italiano.

Esteve no Brasil em ocasiões especiais, em 1948, expôs no Ministério da Educação no Rio e no Masp, tendo doado a escultura Viúva Negra para o Instituto dos Arquitetos do Brasil, participou da Bienal de São Paulo em 1953, onde um fato curioso aconteceu, uma criança foi repreendida pelo segurança por ter manuseado um dos móbiles, mas prontamente Calder com sua grande simpatia interviu em defesa do curioso visitante, as peças poderiam e deveriam ser tocadas, conforme relato do veterano jornalista Luis Ernesto Kawall que presenciou a memorável cena.

No Brasil tinha grandes amigos como o arquiteto Henrique Mindlin, além de Burle Marx, Rino Levi, Heitor dos Prazeres e Lina Bo Bardi tendo frequentado o circuito artístico nacional em suas estadias subsequentes nos anos de 1959 e 1960.

Santos (1956), de Alexander Calder. Óleo sobre compensado | Calder Foundation, New York (Foto: AUTIVS/Itaú Cultural)
Santos (1956), de Alexander Calder. Óleo sobre compensado | Calder Foundation, New York (Foto: AUTIVS/Itaú Cultural)

Nos anos 70, Calder pintou além de um carro de corrida da BMW, três jatos DC-8 da Braniff Airways, sendo que uma das aeronaves foi customizada com formas arrojadas denominada como As Cores Voadoras da América do Sul, (Flying Colors of South America), uma ação inovadora por parte da empresa que criou forte impacto na aviação comercial da época, visando sobretudo difundir a obra de um dos grandes artistas americanos do século XX.

A exposição em cartaz no Itaú Cultural realizada em parceria com a Fundação Calder, de Nova York, reúne 60 obras, 32 de Calder, entre móbiles, guaches, maquetes, desenhos e óleos sobre tela, ao lado de 28 trabalhos de 14 artistas brasileiros que de certa forma tiveram afinidade com as esculturas do americano. Abrangendo pinturas concretas dos anos 50 até esculturas de Lygia Clark. A influência de Calder se faz notar na geometria e na sutileza das formas e movimentos inseridas na sua essência, características marcantes de trabalhos de Judith Lauand, Willys de Castro, Lygia Pape como os mataesquemas de Hélio Oiticica ao lado da arte cinética de Abraham Palatnik, uma integração de linguagens que surpreendem o observador. Outras obras expostas como o vídeo de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, além dos trabalhos de Waltércio Caldas se conectam num diálogo visceral com o frescor e a leveza dos móbiles de Calder, uma referência para os concretos, os neoconcretos e demais tendências artísticas que se definem pelo traço livre projetado na mente e no gesto. O neoconcretismo na realidade sempre foi considerado como o movimento que lançou a semente para a arte contemporânea brasileira, uma união entre a arte e a vida cotidiana, a transparência da criação plena propondo uma incursão lúdica pelas formas contrapondo-se à precisão quase matemática do concretismo.

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Metaesquema (1957), de Hélio Oiticica (Foto: Fabrizio Penteado/Itaú Cultural)

SERVIÇO
Calder e a Arte Brasileira
Local:
Itaú Cultural
Período expositivo: quinta 1 de setembro a domingo 23 de outubro de 2016
Endereço: Avenida Paulista, 149 – Bela Vista, São Paulo – SP, 01311-000
Funcionamento: terça a sexta 9h às 20h [permanência até as 20h30]
sábado, domingo e feriado 11h às 20h
pisos 1, -1 e -2

Entrada gratuita
[livre para todos os públicos]

Veja também:

Os 8 principais movimentos artísticos do século XX

José Henrique Fabre Rolim16 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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