Eliseu Visconti, requinte e modernidade

Fazendo uma incursão pela arte brasileira, alguns artistas se destacam pela visão arrojada conectando um senso lírico que enaltece as sutilezas cromáticas envoltas pelas transparências e pela luz natural. Eliseu Visconti (1866-1944) é sem dúvida alguma um dos grandes artistas do país, sua linha pictórica transita no Impressionismo, no Simbolismo, no Art Nouveau e no Pós-Impressionismo numa confabulação incrível demonstrando uma versatilidade na técnica e nos resultados surpreendentes. As suas obras refletem uma modernidade incontestável bem anterior à Semana de 22, pena que os modernistas não se comunicaram com o mestre, considerado pelos mesmos erroneamente acadêmico, não percebendo a sua arrojada incursão pelo Pós-Impressionismo e a sua grande contribuição para a renovação do rumo das artes, um incontestável mestre.

A mostra “Eliseu Visconti 150 anos” aberta recentemente na Galeria Almeida e Dale com curadora de Denise Mattar evidencia a sua trajetória cobrindo uma época em que o Brasil se transformava literalmente com intensa modernização em todos os setores, especialmente na área cultural. Apesar de não ter participado de nenhum movimento artístico revolucionário, Visconti se concentrava numa linguagem pictórica consistente, fruto de pesquisas profundas buscando sempre a alma e a expressividade pura dos temas retratados, era essencialmente moderno, mas conservava o tradicional na sua integridade.

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A atual exposição reúne 40 trabalhos do início de seu percurso até os anos 30, entre pinturas, desenhos, cerâmicas e documentos, a grande maioria pertencentes a colecionadores particulares proporcionando ao visitante uma visão ampla da produção do artista, algumas obras são inéditas como o “Busto de Mulher” (1900), outras se destacam pela magistral poesia da luz como “Moça no trigal” (1916) uma cena deslumbrante.

Deve-se notar que Visconti, nascido em Salerno, na Itália chegou ao Brasil, praticamente criança, aos sete anos de idade, em 1873, conseguindo aos poucos se posicionar como um artista brilhante no decorrer de carreira.

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Na área do design e das artes aplicadas, Visconti foi o pioneiro no Brasil, devendo ser realçado os magníficos painéis decorativos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aberto em 1909, como também, a criação do ex-libris e emblema da Biblioteca Nacional como os famosos cartazes da Companhia Antartica e os selos como o comemorativo do 1º Centenário da Independência do Brasil em 1922.

Observa-se que Visconti iniciou seus estudos em 1883 no Liceu de Artes e Ofícios, tendo conquistado um Prêmio de Viagem da Escola Nacional de Belas Artes, que lhe possibilitou estudar em Paris, entre 1894 e 1899 na consagrada École Guérin na área do desenho e das artes decorativas tendo como mestre Eugene Grasset, pioneiro do Art Nouveau. Simultaneamente frequenta a Academia Julian, cumprindo as tarefas impostas pelas regras exigidas por um pensionista, dedicando-se com grande empenho ao estudo da arte, seus trabalhos são influenciados pelo Art Nouveau vinculado ao Simbolismo.

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Regressa ao Brasil em 1900 realizando no ano seguinte uma exposição na Escola Nacional de Belas Artes, apresentando 60 peças entre pinturas, pasteis e desenhos como trabalhos de arte decorativa e de arte aplicada às indústrias (design industrial) resultado dos ensinamentos de Grasset. A diversidade de produção impressiona os visitantes, formada por selos, projetos de pratos e de jarras, vasos, vitrais, marchetaria, luminárias, ex-libris, estampa de tecidos e papel de parede. Na sua carreira as artes decorativas se destacaram amplamente espelhando sua notável capacidade de desenvolver uma estética vinculada ao frescor das formas naturais.

Serviço
Exposição: “Eliseu Visconti – 150 anos”.
Curadoria: Denise Mattar
Local: Galeria Almeida e Dale
Data de visitação: 29 de outubro e 10 de dezembro
Endereço: Rua Caconde, 152, Jardim Paulista.
Mais informações: no site da Almeida e Dale.

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José Henrique Fabre Rolim20 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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