Vkhutemas a escola soviética de arte fechada pelo regime stalinista em 1930

O que foi a Vkhutemas?

Vkhutemas (em russo: Вхутемас, acrónimo para Vysshiye Khudojestvenno-Tekhnicheskiye Masterskiye (Escola Superior de Arte e Técnica) foi uma escola artística e tecnológica estatal Russa fundada em 1920 em Moscovo, sucedendo à Svomas. A instituição foi estabelecida por decreto de Vladimir Lenin com a finalidade de, nas palavras do governo Soviético, “preparar artistas com a mais alta qualificação para a indústria, e construtores e gestores para o ensino técnico-profissional.” O corpo da escola era composto por 100 membros e frequentada por 2500 alunos. A Vkhutemas formou-se através da fusão de duas escolas existentes: a Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscovo e a Escola Stroganov de Artes Aplicadas. A instituição possuía as faculdades de artes e de indústria: a faculdade de artes leccionava cursos em artes gráficas, escultura e arquitetura, enquanto a faculdade de indústria leccionava cursos em impressão, têxtil, cerâmica, marcenaria e trabalho em metal.  Foi um centro para três dos maiores movimentos artísticos da vanguarda russa na arte e arquitetura: construtivismo, racionalismo e suprematismo. Nas oficinas, alunos e professores transformavam posturas em arte e realidade através do uso de geometria precisa com ênfase no espaço, naquela que foi uma das maiores revoluções na história da arte. Em 1926 a escola foi reorganizada em função de um novo reitor e o nome seria alterado para “Instituto”. Foi extinta em 1930, face às pressões políticas externas e internas ao longo dos seus dez anos de existência. O corpo docente, estudantes e legado foram distribuídos por seis outras escolas.

Comparações com a Bauhaus

O paralelismo da Vkhutemas com a Alemã Bauhaus é notório, sobretudo nos seus objectivos, âmbito e organização. Ambas as escolas foram as primeiras a formar artistas-designers de forma moderna. Ambas foram iniciativa dos estados para unificar a tradição artesanal com a tecnologia contemporânea, com um Curso Elementar que incidia sobre princípios estéticos, aulas de teoria da cor, design industrial e arquitetura. A dimensão da Vkhutemas era superior à Bauhaus, mas foi menos publicitada e é menos familiar à historiografia ocidental. Contudo, a influência da Vkhutemas foi bastante alargada, tendo a escola chegado a ter duas exposições distintas para académicos e trabalhos premiados de estudantes na Exposição de 1925 em Paris. A instituição captou ainda o interesse e visitas assíduas do director do MoMA, Alfred Barr. Com a internacionalização da arquitetura e design modernos, começaram a ser frequentes os intercâmbios entre Vkhutemas e a Bauhaus. O segundo director da Bauhaus, Hannes Meyer, tentou organizar um intercâmbio permanente entre as duas escolas, enquanto Hinnerk Scheper, da Bauhaus, colaboraria frequentemente com vários membros da escola russa no uso da cor na arquitetura. Para além disso, o livro Russia – uma arquitetura para a revolução mundial de El Lissitzky e publicado em Alemão em 1930, continha diversas ilustrações de projectos colaborativos entre ambas as escolas. Tanto a Vkhutemas como a Bauhaus floresceram num período relativamente liberal, e seriam encerradas sob pressão de regimes progressivamente totalitaristas.

Quer conhecer mais?

Sesc Pompeia apresenta exposição “Vkhutemas: O futuro em construção (1918 – 2018)”, recriando projetos da escola soviética de arte e design fechada pelo regime stalinista em 1930

A partir de 26 de junho, primeira exibição nas Américas dos trabalhos desenvolvidos na instituição contará com cerca de 300 projetos de autoria de artistas, designers e arquitetos como Ródtchenko, Tátlin, Kandinsky e Maliévitch, que serão especialmente refeitos para a mostra 

Com a maior parte dos registros destruídos, universidade influenciou a escola alemã Bauhaus e inspirou Lina Bo Bardi na concepção das Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia

O Sesc Pompeia apresenta, entre os dias 26 de junho e 30 de setembro de 2018, em suas Oficinas de Criatividade, a exposição “Vkhutemas: O futuro em construção (1918 – 2018)”. Com curadoria dos pesquisadores Celso Lima e Neide Jallageas, a mostra reúne pela primeira vez nas Américas cerca de 300 projetos desenvolvidos na escola soviética de artes Vkhutemas (lê-se “vrrutemas”), que foram especialmente recriados para essa exibição. Entre os autores, estão 75 artistas, designers e arquitetos como Ródtchenko, Tátlin, Kandinsky, Maliévitch, El Lissítzki, Zaliésskaia e Komaróva.

A exposição se afasta de uma proposta museológica, ou seja, da apresentação de obras originais. Nossa intenção era realizar um resgate histórico da Vkhutemas com a reconstrução material dos acervos produzidos em suas faculdades de ofícios e promover uma discussão ampla sobre as pedagogias e os processos da escola, que revolucionaram as artes e o design modernos e até hoje reverberam nas mesas de criação por todo o mundo”, afirma Celso Lima, pesquisador da história do design e curador da mostra.

Inaugurada em 1918, em Moscou, a universidade Vkhutemas esteve alinhada à vanguarda do pensamento estético do começo do século 20, sobretudo às correntes futuristas, suprematistas e construtivistas. “Oferecemos ao público uma seleção sintética da produção de grandes mestres, com destaque para as estruturas físicas e tridimensionais de gesso Arkhitekton, criadas por Kazimír Maliévitch, o projeto A Cidade Flutuante, do arquiteto Gueórgui Krútikov, as peças de roupas desenvolvidas por Liubov Popova e Várvara Stepánova, bem como trabalhos de Vassíli Kandinsky, Konstantín Miélnikov e El Lissítzki”, cita a pesquisadora de cultura russa e curadora da exposição, Neide Jallageas.

 

Várvara Stepánova – Trajes esportivos – 1923

REVOLUÇÃO NA MANEIRA DE PENSAR O FAZER ARTÍSTICO

Seguindo os ideais de liberdade propostos pela revolução de outubro de 1917, a Vkhutemas foi criada como um centro de experimentações, defendendo o uso da arte como instrumento educativo e de transformação social. Em seu arrojado modelo de escola de artes e ofícios – que se distanciava dos processos distintos das chamadas “belas-artes” –, a aprendizagem estava diretamente vinculada à invenção de um mundo novo, de uma sociedade diferente. Suas novas práticas pedagógicas se equilibravam entre atitude estética e postura política e visavam democratizar o ensino, combater o analfabetismo e promover a emancipação feminina.

Nos anos 1920, a Vkhutemas revolucionou a área de arquitetura ao formar cerca de 30 mulheres nesse curso – algumas se tornaram profissionais mundialmente reconhecidas. Lidia Komárova, por exemplo, elaborou o projeto Komintern, complexo administrativo cujo prédio principal traz uma monumental construção espacial em anéis circulares maciços. Já Liubov Zaliésskaia se dedicou a novos desenhos para o espaço público, virando referência em paisagismo com o projeto do Parque Gorki e a proposta construtivista para residências comunais nos países soviéticos da Ásia Central.

A escola funcionou até 1930, quando o regime stalinista começou a deixar de lado o espírito revolucionário e ganhar um caráter mais autoritário, colocando um ponto final em iniciativas autônomas no meio artístico. Após seu fechamento abrupto, a maior parte dos registros históricos e ações desenvolvidas pela instituição foram destruídos ou se perderam.

Ainda que breve, a mudança artístico-pedagógica provocada pela Vkhutemas influenciou a criação e a existência de muitos outros caminhos para o ensino de arte e design. A escola alemã Bauhaus teve em seu corpo docente muitos mestres que saíram da instituição soviética e um programa de ensino originário dos russos, que também inspirou a concepção do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) e as Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia, projeto arquitetônico e conceitual concebido por Lina Bo Bardi.

“As vastas e inéditas experiências realizadas dentro da escola, desde a criação de novas pedagogias até um pensar original para o desenho de objeto e consumo, ecoam por todo o mundo”, diz Celso Lima.

Exposição “Vkhutemas: O futuro em construção (1918 – 2018)”

Sesc Pompeia: Rua Clélia, 93 – Oficinas de Criatividade

Abertura: 26 de junho, às 20h | Visitação: 27 de junho a 30 de setembro de 2018

Horários: Terça a sexta, 10h às 21h30. Sábado, domingo e feriado, 10h às 18h

Visitas com arte-educadores para grupos: escreva para o e-mail agendamento@pompeia.sescsp.org.br ou ligue para (11) 3871 7759

Entrada gratuita

 

Paulo Varella1446 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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