Exposição explora elementos de marginalidade e subversão na produção de Hudinilson Jr.

Xerox da série “Tarot”, de 1981

Quem é o artista?   A Galeria Jaqueline Martins apresenta uma exposição “Posição Amorosa” sobre a produção do artista Hudnilson Jr., falecido em agosto de 2013, quando sua obra se voltava aos olhos de importantes instituições nacionais e internacionais. Hudinilson Jr. é nome de referência para o grafitti brasileiro e um dos poucos artistas francamente identificados à arte homoerótica no Brasil. A produção de Hudinilson Jr. é considerada marginal e underground. Lançando mão dos meios de comunicação, da intervenção urbana, suas obras exploram a poética do corpo e discutem questões acerca de valores morais e políticos.

O que terá na exposição? Com curadoria de Marcio Harum, a mostra intitulada “POSIÇÃO AMOROSA” (em caixa alta a pedido do curador), é composta por uma série de trabalhos que percorrem a trajetória artística deste importante artista paulistano. São obras criadas a partir dos anos 1970, e que abordam uma diversidade de temas, materiais e suportes. Nesta exposição, o curador reúne uma série de desenhos, pinturas, mail-art (arte postal), graffiti e xerografia (arte xerox), muitos deles inéditos, tais como a série em que o artista utiliza as próprias vestes, pintando-as e engomando-as, para criar peças escultóricas têxteis singulares.

Sobre o espaço:  A  galerista Eliana Benchimol esta presente no mercado de arte desde 1986. Começou como proprietária da Votre Galerie, no Rio Design Leblon e a partir de 2005, depois de se dedicar a uma pesquisa sobre Victor Vasarely, Jésus Rafael Soto e Carlos Cruz-Diez, interessou-se  pela arte cinética e em 2007 inaugurou o Espaço Eliana Benchimol, no Shopping Cassino Atlântico, com a primeira exposição do artista venezuelano Dario Perez-Flores no Brasil. A galeria participou das sete ultimas edições da SP-arte e participa das mostras da ArtRio. Este ano comemoram seus 27 anos no mercado de arte.

Quando? De 26 de março até 10 de maio.

Mais sobre o artista:

Hudinilson Jr. experimentou múltiplas expressões artísticas como desenho, pintura, mail-art (arte postal), graffiti, xerografia (arte xerox), performance e intervenções urbanas, nas quais o corpo humano masculino, o erotismo e o prazer  são temas recorrentes. Seus trabalhos geralmente contém nus masculinos frontais ou se apropriam de fotos e desenhos do universo gay e pornô.

Por muitos anos sua obra foi negligenciada por museus e galerias, ao elaborar formas de democratização da arte surgida nos anos 1960, como a “mail art”, a “mídia xerox”, a apropriação de imagens em colagens e o próprio grafite mural.  Em 2011 a Galeria Jaqueline Martins passou a representar o artista, e sua obra ganhou visibilidade em museus e galerias. A valorização de sua produção era questão de tempo – e também de um olhar atento para uma produção experimental e de caráter “marginal” das mais representativas das décadas de 70 e 80, época em que o mercado de arte buscava chancelar produções artísticas cada vez mais palatáveis, em detrimento às propostas de caráter experimental ou conceitual.

Ainda estudante do curso de artes plásticas da FAAP, protestava contra a ditadura no Brasil com os amigos Mário Ramiro (1957) e Rafael França (1957 – 1991). Em 1979, funda o grupo 3Nós3 com França e Ramiro. Até 1981, o grupo realiza intervenções artísticas na paisagem urbana de São Paulo, encapuzando estátuas públicas e  atormentando os militares. O 3Nós3 tem como premissa ocupar, ao mesmo tempo, tanto o espaço da cidade como o espaço da mídia. A ocupação dos meios de comunicação de massa, os registros gerados pela imprensa, bem como as documentações fotográficas e publicações feitas pelo grupo, são partes integrantes dessas intervenções. Além disso, realizam atos de subversão e crítica ao mercado de arte daquele momento, atormentando também os proprietários de galerias de arte e diretores de museus ao lacrarem as portas de inúmeros estabelecimentos e instituições em São Paulo.

Exímio artista da colagem, Hudinilson combina referências dos universos pop e homoerótico à sua história pessoal. A partir de 1982, inicia a série Exercícios de Me Ver, que consiste na reprodução xerográfica de partes do próprio corpo, com exposições na Galeria Chaves, Porto Alegre, e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP em 1983. Seus trabalhos em graffiti, utilizando estêncil, são elaborados desde meados da década de 1980. Nesse período, conhece Alex Vallauri (1949 – 1987), de quem recebe orientações e desenvolve parceria em alguns trabalhos. Em 1984 participa da 1ª Bienal de Havana e da exposição Arte Xerox Brasil, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, da qual é curador. Expõe na 18ª Bienal Internacional de São Paulo em 1985 e na 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em 2002. Negligenciado pelo mercado de arte local, foi resgatado pela galerista Jaqueline Martins, que realizou duas exposições de seu trabalho em São Paulo, em 2012 e 2013. Suas obras foram o destaque da galeria na feira ARCO 2013, em Madri, despertando a atenção de instituições internacionais.

Crítica

Com olhos de Narciso, Hudinilson se debruça sobre a máquina de xerox e registra as partes de seu corpo. Num ato sensual, desmembra tronco, pernas, braços, sexo, para depois juntá-los ou trabalhar cada parte sobre um suporte que pode ser colagem, objeto, grafite ou mesmo xerox. Ex-integrante do grupo 3Nós3, lacrou portas de galerias, ensacou monumentos e fez várias intervenções urbanas. Em seguida, envolvido com o universo do mito grego e tomando seu universo como pulsação central, Hudinilson inicia a busca de si mesmo na projeção do outro. Como uma criança que descobre o prazer de brincar com o espelho que lhe devolve a própria imagem, Hudinilson Jr. joga com as imagens. No entanto, a busca de Hudinilson na projeção do outro nunca se refletiu no mercado de arte. Artista marginal, sempre se manteve paralelo ao circuito – até o momento presente. Sua morte em agosto de 2013 despertou interesse maior pelo seu posicionamento estético, e sua obra torna-se agora objeto de reflexão e análise retrospectiva pela crítica especializada.

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