Conheça a obra do chileno Sergio Larrain no Rio

O fotógrafo chileno Sergio Larrain atravessou o mundo da fotografia como um meteoro, constituindo em poucos anos uma obra riquíssima, marginal e genial. Esta ampla retrospectiva de seu trabalho, organizada pela curadora francesa Agnès Sire, dá conta de toda a sua produção: o começo fotografando crianças de rua em Santiago, a série de viagens profissionais, o trabalho como correspondente internacional, membro da agência Magnum, o olhar amadurecido de volta à terra natal, até sua precoce retirada, quando faz opção por uma vida de isolamento e meditação.

A esta grande mostra, que começou no Festival de Arles de 2013 e rodou o mundo, os curadores Miguel Del Castillo e Samuel Titan Jr., do IMS, acrescentam uma breve seção que recupera a passagem de Larrain pela revista O Cruzeiro Internacional.

 

“Uma boa imagem nasce de um estado de graça”

Fotógrafo pelo gosto da vadiagem, pelo desejo profundo de estar no mundo e na pureza do gesto, o chileno Sergio Larrain apesar de tudo passou a maior parte de sua existência em retiro, praticando meditação, ioga, escrita e desenho. Deixou uma obra brilhante, uma espécie de meteorito cujo trajeto ele teve a sabedoria de interromper no momento em que concluiu que já não lhe proporcionava a liberdade esperada. Depois de muito tempo em busca de si próprio, foi num despojamento voluntário que o homem que também aspirou a ser escritor finalmente se encontrou.

Pertencente a uma família da alta burguesia chilena, desde cedo Sergio Larrain (1931-2012) se esquivou à vida mundana praticada na casa do pai, um arquiteto e colecionador renomado. Apesar das relações difíceis entre os dois, o filho reconheceria mais tarde que, graças à riqueza da biblioteca familiar, pôde educar o olho e ter acesso à fotografia.

As crianças abandonadas de Santiago seriam objeto do primeiro trabalho consequente do aprendiz de fotógrafo, rebelde a todo tipo de integração social. Essas crianças são ao mesmo tempo o espelho de sua personalidade e a expressão de seu desejo de viver em uma sociedade diferente. Decidido a escapar de seu meio social, em 1958 Larrain conseguiu uma bolsa do British Council para trabalhar em Londres, seguindo os passos de Bill Brandt, que o chileno admirava. O inverno frio e enevoado da antiga capital de um império extinto representava, para o fotógrafo chileno, uma espécie de desolação dominada pelo poder do dinheiro.

Foi durante essa viagem pela Europa que suas aspirações se concretizaram: Cartier-Bresson, ao ver seu trabalho, convidou-o a tornar-se membro da cooperativa Magnum. Em pouco tempo, porém, Larrain passou a desconfiar dos malabarismos necessários para encontrar temas que as revistas quisessem publicar. Viajou com frequência, a partir de Paris, fazendo reportagens para a agência; depois tomou rapidamente a decisão de voltar para o Chile e lá permanecer, afastando-se, com isso, do comércio das imagens.

Valparaíso, cidade que já havia fotografado muito, ganharia toda a sua atenção. Ao longo dos anos, Larrain produziria na cidade um ensaio fotográfico fundamental, que marcaria seus pares de diversas gerações.

Esta exposição refaz seu percurso de forma bastante cronológica: das crianças errantes aos satoris e desenhos que o ocuparam ao longo de quase 30 anos. Os termos que utiliza para descrever o estado de graça no qual é indispensável encontrar-se para “acolher” uma boa imagem são os do misticismo e − por que não? − do espiritismo, como se as imagens já habitassem o cosmos, e o fotógrafo tivesse uma função de médium.

Sergio Larrain

Larrain se identifica com a pedra assim como se identifica com as crianças – as das ruas, que perambulam como anjos surgidos de lugar nenhum. Seu olhar magnético decupa fragmentos de realidade; ele não teme o que é externo ao campo, o tempo ainda por vir, as diagonais audaciosas, o impreciso, o sol batido ou a escuridão. Suas imagens não são fechadas; aliás, os personagens muitas vezes saem delas resistindo, como ele, à reclusão.

Depois de um percurso sinuoso, de rupturas penosas, a glória ao alcance da mão, Sergio Larrain deitou raízes em uma terra acolhedora para transmitir o que aprendeu, escrever e multiplicar seus alertas sobre a destruição do planeta Terra pelas mãos do homem. Que suas raízes produzam nos outros a consciência que ele invocava com seus votos de vagabundo pacificado.

A exposição abre no IMS Rio no dia 12 de maio de 2018, às 17h, com visita guiada por Emmanuelle Hascoët e Miguel Del Castillo.

 

Paulo Varella1402 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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