Luz e Sombra na Dan Galeria

Uma África monumental, plástica e nada clichê, construída a partir de recortes abruptos, que dispõem fragmentos de animais e paisagens, privilegiando a estética à narrativa. Sob um olhar excêntrico, o fotógrafo Christian Cravo dá ao continente africano uma nova cara. Seu projeto Luz e Sombra, desenvolvido ao longo dos últimos sete anos, ganha, a partir de 5 de agosto, uma exposição com imagens inéditas na Dan Galeria, em São Paulo. Na abertura da mostra, o artista lança também um livro homônimo, que documenta e conclui esse seu trabalho.

A exposição é resultado de uma imersão do fotógrafo em sete países africanos: Namíbia, Zâmbia, Botsuana, Quênia, Tanzânia, Congo e Uganda. Na galeria paulistana, Christian apresenta um conjunto de 25 fotografias, muitas delas inéditas. Nesses trabalhos, pode-se notar a ausência da figura humana e a consequente supressão dos aspectos etnográficos e dramáticos, tão comuns nos registros que buscam retratar o continente.

“A África é um continente de múltiplas facetas, raças, culturas e biodiversidade. A minha experiência anterior a 2010 era restrita à natureza humana, à cultura e aos desdobramentos pan-africanos”, afirma o fotógrafo. Em Luz e Sombra, Christian foca na construção da própria imagem, através de questões intrínsecas a luz, tempo e espaço.

Nesse ensaio, o fotógrafo faz uso exacerbado de cortes, buscando com a técnica não documentar o real, mas apenas arrancar dele uma pequena porção por meio de ousados enquadramentos, seccionando paisagens e corpos de animais, e destacando, muitas vezes, apenas texturas. Resta ao espectador buscar a complementação desse espaço para além dos limites impostos pelas arestas do quadro – exercício nem sempre tão simples, uma vez que não raro as seções são tão parciais que chegam a aspirar a abstração absoluta.

“No fundo, Christian Cravo, com a construção dessa espacialidade fotográfica complexa, que engendra relações ambíguas entre o campo e o fora de campo e que evita toda e qualquer narratividade, busca desafiar os limites da realidade documental da fotografia para que a técnica possa se curvar ao simbólico e ao ficcional”, afirma Ligia Canongia, crítica e curadora de arte que assina o texto que acompanha o ensaio no livro.

Na série africana, diferentemente de outras de sua autoria, tais como Irredentos, realizada no sertão brasileiro; Nos jardins do Éden e Testemunhos do silêncio, com retratos da população do Haiti, Christian suprime a atmosfera cênica e narrativa dos personagens anteriores com a exclusão da figura humana, minando qualquer relação entre conteúdo e significado, apoiando-se exclusivamente num campo formal e estético.

As fotografias da África são concebidas como puras formas de luz e sombra, caráter que é reforçado pelo uso do preto e do branco na composição das imagens. As cenas capturadas pelo fotógrafo parecem desmaterializar a natureza, desestabilizar a percepção e cativar a imaginação do observador para um mundo que não é exatamente o real.

“Paisagens e corpos capturados na desmedida da ficção, sobreviventes virtuais de um real inacessível, as fotografias de Christian Cravo da série africana são pedaços indistintos de um universo desfigurado e absurdo, que não se reconhecem na objetividade do senso comum, habitando espaços e tempos que só existem no nível da linguagem e na excentricidade de seu olhar”, afirma Ligia Canongia.

Luz e Sombra

O ensaio africano nasceu de uma imersão do fotógrafo em territórios de Namíbia, Zâmbia, Botsuana, Quênia, Tanzânia, Congo e Uganda, entre os anos de 2010 e 2016. Ao longo dos últimos anos, Christian expôs alguns dos registros realizados nos países africanos que visitou. A mostra foi inaugurada em 2012, na galeria Throckmorton Fine Art, em Nova York. Em 2014, a exposição passou pelo Museu Rodin Bahia, de Salvador e, em 2015, pelo Museu Afro Brasil, de São Paulo. Esta última, inclusive, foi premiada como a melhor exposição fotográfica do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

A seleção de imagens que chega à Dan traz fotografias inéditas e é apresentada junto ao livro já editado, que conclui o projeto. A publicação tem capa dura e reúne mais de 90 fotografias.

O fotógrafo

Nascido em 1974, em Salvador, Bahia, Christian Cravo é filho de mãe dinamarquesa e de pai brasileiro. Apesar de ter crescido em um ambiente artístico, suas experiências com a técnica fotográfica ocorre somente aos 11 anos de idade, enquanto morava na Dinamarca, onde passou toda sua adolescência. Com 22 anos, Christian retornou à terra natal. Foi então que começou a encarar a máquina fotográfica com outros olhos.

Ao longo dos últimos 25 anos, o fotógrafo teve seu trabalho reconhecido, nacional e internacionalmente, por meio de exposições em importantes instituições culturais, tais como o Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador; o Instituto Tomie Ohtake e o Museu Afro Brasil, em São Paulo; o próprio o Ministério da Cultura, em Brasília; e as galerias Throckmorton Fine Art, de Nova York, e Billedhusets Galeri, em Copenhague. Christian participou ainda de exposições coletivas como a Witkin Gallery, em Nova York, na S.F. Camera Works Gallery, na Califórnia, na bienal Fotofest, em Houston, e no Palais de Tokyo, em Paris. Christian também foi um dos mais jovens artistas a receber o prestigioso prêmio norte americano, Guggenheim, além de ter sido indicado três vezes como finalista do desejado Prix Pictet.

O fotógrafo é autor de outros seis livros: “Irredentos”, de 2000; “Roma noire, ville métisse”, de 2005, “Nos Jardins do Éden”, de 2010; “Exú Iluminado”, de 2012; “CHRISTIAN CRAVO”, de 2014 e “MARIANA”, de 2016.

Serviço
Luz e Sombra, individual de Christian Cravo
Vernissage: 5 de agosto, sábado, das 10h às 14h
Período de exposição: de 7 a 28 de agosto
De segunda a sexta das 10h às 18h, sábado das 10h às 13h

Dan Galeria
Rua Estados Unidos, 1638. Jardim Paulista
Telefone: (11) 3083-4600

 

Paulo Varella1160 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password