Marinella Pirelli, inovadora e visionária: mostra da artista é aberta no MAB-FAAP

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Marinella Pirelli, 1968, clicada por Gianni Berengo Gardin | Créditos: Divulgação

Artistas que assumem uma posição além do tempo presente são visionários e raros, antecipam o uso de tecnologias avançadas e realizam obras inusitadas e reflexivas. Certa vez Lucio Fontana disse: “finito l’artista, finita l’opera, esiste l’infinito”.

A pintora e cineasta italiana Marinella Pirelli (1925-2009), se encaixa perfeitamente nesse perfil. A sua mostra na FAAP, faz uma incursão reveladora por um pequeno período (final dos anos 50 ao começo dos anos 70), apesar de ter uma longa trajetória artística, a sua produção foi revolucionária, antevendo pesquisas que só foram desenvolvidas bem depois, especialmente na Europa.

Inicialmente sua formação artística se estrutura na cidade de Belluno, norte da Itália, um local tranquilo e de certa forma bem isolado, que lhe permitiu desenvolver um senso apurado de observação, de olhar a natureza na sutileza das cores. As pinturas desse período demonstram uma extrema sensibilidade em captar a exuberância cromática em paisagens que transmitem silencio e uma luz especial bem característica daquela região italiana.

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Em 1948, Marinella se transfere para Milão, atuando como figurinista, cenógrafa além de atriz com a companhia Carrozzone, comandado por Fantasio Piccoli. A sua obra é reconhecida por um público antenado tendo conquistado o Prêmio Paris na cidade de Cortina D’Ampezzo, um reconhecimento de sua consistente linguagem revolucionária.

Muda-se para Roma, uma cidade totalmente livre do fascismo, num momento fulgurante onde pode exercer toda a sua potencialidade criativa com uma série de trabalhos memoráveis. O seu estúdio em Roma tornou-se uma atração, frequentado por artistas como Mario Ceroli, Pietro Dorazio, Iannis Kounellis e Mario Merz.

Aproveitando desse fluxo renovador que existia na Cidade Eterna, se aproxima da área do Cinema, iniciando assim as suas experimentações com tecnologia avançada. Trabalhando na Filmeco, produtora de filmes de animação teve contato com as obras do escocês Norman Mclaren, um dos expoentes da animação. Estudou profundamente a linguagem de animação, desenvolvendo as suas primeiras reflexões sobre as imagens em movimento, iniciando assim a sua evolução na poética artística.

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Após a perda de seu marido Giovanni Pirelli (união celebrada em 1953), em acidente automobilístico ocorrido em 1973, Marinella se isola e volta para Varese, onde continua seus estudos, afirmando que as cores são fracções da luz.

Suas intensas pesquisas sobre cinema de vanguarda e estudo sobre a luz levaram a resultados surpreendentes como a concepção dos trabalhos “Filmambiente-Environmental Screen” e a série “Meteore”.

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Na mostra são apresentados dois filmes de animação “Gioco di Dama” e “Palonca”, resultado de seu intenso estudo na Filmeco de Roma, além de seis filmes de 16mm realizados em Varese, nos anos 60 que tem como tema principal a natureza com as suas cores e a luz conectando dimensões paralelas. Tendo como curador o seu neto Giovanni Pirelli, a exposição é completada com documentos históricos, desenhos, esboços e fotografias de arquivo.

A sua obra é extremamente importante, mereceria uma exposição mais ampla com todo o seu trajeto vanguardista, a atual mostra ocupa o mezanino da Faap, num espaço extremamente reduzido. Uma grande retrospectiva da artista seria o ideal para que o visitante tivesse contato com uma artista que realizou uma obra fundamentada em estudos proporcionando revoluções intimistas e universais aliando arte e tecnologia, intuição e arrojo.

SERVIÇO
Período de visitação: 2 de outubro a 13 de novembro de 2016
Entrada gratuita.
Mezanino do MAB-FAAP – Rua Alagoas, 903 – Higienópolis

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José Henrique Fabre Rolim16 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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