A guerra à intolerância com o amor

Tales Frey (Cia.Excessos) - "O Outro Beijo no Asfalto", 2009 (Porto - Portugal)

Bacharel em artes pela Universidade Federal Fluminense e com mestrado em Cultura, Crítica e Curadoria pela Central Saint Martins – University of the Arts London, Julia Pelison é atualmente doutoranda em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes – Universidade de Coimbra. Com este rico panorama de estudos, Julia nos enviou este texto que prova seu conhecimento antes mesmo de nos apresentar qualquer dado sobre sua formanção.

É com felicidade que agradecemos à contribuição de Julia e publicamos a matéria a seguir:

Tales Frey (Cia.Excessos). -O Outro Beijo no Asfalto-, 2011. Ouro Preto, Brasil

Tales Frey (Cia.Excessos) - "O Outro Beijo no Asfalto", 2011 (Ouro Preto - Brasil)

Através de uma arte-política “queer” engajada, determinada a suscitar o pensamento crítico contra uma relação de poder controlador/disciplinar amparado por uma lógica proporcionada pelos regimes de normalização, a Cia. Excessos apresenta a exposição “Beija-me” na unidade do SESC Ribeirão Preto de janeiro a março de 2015 como uma irônica súplica pelo gesto de carinho como um ato que substitua as tantas pedradas, porradas e “lampadadas” que ainda são, brutalmente, aplicadas contra o ser humano taxado por abjeto em nossa sociedade. A temática insistente (quase obsessiva) explorada em uma série de ações que resultam nesta exposição funciona como um minucioso estudo antropológico e, sobretudo, social, pois evidencia como cada ambiente especulado reage e lida com uma determinada situação de beijo, sendo que, em todos os casos, o elo entre os lábios expõe uma relação que questiona normas vigentes mesmo quando trata-se de um beijo heterossexual.

Com “O Beijo” (2006), “O Beijo II” (2007), “O Outro Beijo no Asfalto” (2009), “Reciprocidade Desalmada” (2010), “Beija-se” (2012), “Aliança” (2013) e “Romance Violentado” (2010), a heteronormatividade, a chamada “heterossexualidade compulsória” e o heterossexismo são postos em xeque.

Lidar com a diferença é incomensurável e a Cia. Excessos procura harmonizar a relação entre os subalternizados e os hegemônicos através das situações conflitantes criadas, propondo que enxerguemos no Outro, nós mesmos, sugerindo a aceitação de uma perspectiva não normalizadora.

Foi em 2006, depois de um ato de censura por parte do Centro Cultural do Banco do Brasil, ao retirar uma obra de Márcia X. da exposição “Erótica: Os Sentidos da Arte”, que Tales Frey e Cristine Ágape resolveram se beijar por trinta minutos ininterruptos no foyer do CCBB com seus trajes convencionalmente trocados segundo uma lógica binária e, assim, surgiu a performance “O Beijo”, que depois foi desdobrada em “O Beijo II” para, posteriormente, originar a ação “O Outro Beijo no Asfalto”, a qual extrapola as barreiras institucionais para consignar a primeira intervenção pública realizada pela companhia e, também, a forte parceria entre Tales Frey e Paulo Aureliano da Mata, bem como a oficialização da Cia.Excessos.

Tales Frey e Christine Ágape (Cia. Excessos). -O Beijo-, 2006. CCBB, Rio de Janeiro, Brasil

Tales Frey e Christine Ágape (Cia. Excessos) - "O Beijo", 2006 (CCBB, Rio de Janeiro - Brasil)

Com estas ações, Tales, junto da Cia. Excessos, prova que a sociedade reage com menos tolerância e compreensão com relação ao rompimento das normas ou convenções de gênero do que com relação à orientação sexual em si [1]. Já com “Reciprocidade Desalmada” e com “Beija-se”, a estratégia é analisar o narcisismo tão presente na nossa atualidade e a nossa incansável relação com o espelho, bem como os tantos elos possíveis: ela e ele, ela e ela, ele e ele, entre outros tantos possíveis elos que rompem os limitadores preceitos já ultrapassados.

“Aliança”, um ritual de casamento que se inicia numa galeria de arte e termina num cartório, é o desfecho desta série e o timbrar de uma relação que envolve o amor íntegro e uma fundamentada parceria artística que busca perseverar, fixar e persistir como uma tatuagem, tal qual a registrada na “body art” Romance Violentado de Paulo Aureliano da Mata e que foi coerentemente incorporada a esta exposição. Beija-me, embora reúna resquícios de eventos inicialmente concebidos para serem vistos ao vivo, transportam o teor despertado na experiência da vivência para uma viva análise documental.

Tales Frey (Cia.Excessos). -The Other Asphalt Kiss-, 2012. Chicago, USA.

Tales Frey (Cia.Excessos) - "The Other Asphalt Kiss", 2012 (Chicago - USA)

[1] Cf. MISKOLCI, Richard. “Teoria Queer: Um Aprendizado pelas Diferenças”, p. 41.

Paulo Varella1241 Posts

<p>Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais.</p> <p> Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref</p>

1 Comment

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password