Manifestações artísticas durante a intervenção militar brasileira

O que você pensa sobre essas pessoas que pedem por intervenção militar? Se imaginarmos que uma pessoa nunca ouviu falar sobre a ditadura militar brasileira, podemos contextualizá-la e apresentar algumas manifestações artísticas da época pra justificar porquê uma ideia dessas nos dias de hoje é simplesmente incabível.
No dia 31 de março de 1964 um golpe militar com o apoio de grupos de extrema-direita derrubou João Goulart da presidência e deu início a ditadura das Forças Armadas Brasileiras. As raízes do golpe militar são anteriores a esta data e as cicatrizes e consequências dela muito posteriores. Naquela época, o Estado reprimia e censurava as manifestações artísticas, atingindo diretamente os artistas que incorporavam a crítica cultural e política nas suas experimentações e estagnando grande parte dos setores culturais. Antes do golpe, por exemplo, o teatro buscava o apoio do governo para levar o público aos palcos. Depois dele, os palcos foram destruídos.
Nos anos 1950, com o concretismo e a construção de Brasília, a arte nacional se mostrava otimista em relação ao desenvolvimento do país. Já nos anos 1960, a palavra de ordem teve que ser a transgressão. Pois, as repressões e vigilâncias causavam recorrentes sinais de insatisfação no cotidiano social brasileiro. Assim, a arte passou a ser um instrumento de contestação política ao regime militar, não só denunciando o inconformismo em relação ao autoritarismo, mas também, aproveitando as mudanças artísticas pelo mundo.
Os artistas desta geração se apropriaram da linguagem da comunicação de massa para incitar a participação do espectador, instigando a reflexão e o debate ao invés da simples contemplação. Por isso, as obras participativas não só substituíam a contemplação individual pelo protesto, pela denúncia e participação coletiva do público como também questionava o sistema das artes plásticas e o estado autoritário após o golpe de 64. Essa efervescência cultural politizada que ganhava cada vez mais espaço foi abafada com a instauração do Ato Institucional n°5. Ou seja, se já havia repressão e violência desde os primeiros momentos do golpe, o AI-5 só serviu para se aumentar esta restrição.
Na perspectiva dos militares, seu forçado projeto político era necessário para estabelecer a ordem e livrar o país de ameaças comunistas subversivas. Eles se viam como encarregados de levar o Brasil para uma nova realidade econômica, política e moral por meio de uma “missão civilizatória”. Assim, o Estado não só reprimia e controlava o panorama cultural brasileiro, como também promovia um nacionalismo “embelezador” forjando-se uma identidade nacional de caráter ideológico que ocultava seus crimes políticos. Enquanto isso, os artistas de vanguarda difundiam um nacionalismo crítico ao denunciar o autoritarismo e expor a condição terceiro-mundista do Brasil.
A resistência à ditadura e o desafio ao conservadorismo deram origem à arte conceitual, onde o que importava era o conceito e a leitura que o artista fazia da realidade. Por isso, linguagens artísticas além das tradicionais pintura e escultura foram experimentadas.
A obra “Tropicália”, de Helio Oiticica, é um exemplo da estética contestadora do período, que inclusive, deu origem ao movimento cultural chamado de tropicalismo.
Além disso, artistas musicais como Gilberto Gil, Chico Buarque, dentre outros, precisaram de muita criatividade para driblar a censura. A musica popular brasileira, ao criar metáforas, trocar nomes e usar eufemismos, adquiria um teor social cada vez maior ao cantar sobre os pensamentos de quem lutava por mais liberdade. Porém, enquanto a repressão estimulava essa criatividade, também sufocava pouco a pouco o nome dos artistas.
Outro exemplo da resistência artística da época foi o boicote internacional contra a X Bienal de São Paulo em 1969. Encabeçada pelo crítico de arte Mário Pedrosa, no período em que presidia a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), a reação contra  as arbitrariedades cometidas pelo poder político durante os anos de ditadura se deu por uma nota de repúdio ao ato do governo de negar o livre exercício da criação da obra de arte e da crítica de arte, e por consequência, suspender a presença brasileira na VI Bienal de Jovens de Paris. A proibição do envio das obras à Bienal de Paris se deu pelo conteúdo das obras que protestavam contra o regime e afrontavam a “conduta moral” incentivada pelos militares. Contudo, as declarações de testemunhas e os documentos que provavam a existência da censura à atividade artística no Brasil, reuniram 321 artistas e intelectuais estrangeiros no Museu de Arte Moderna de Paris para assinarem o manifesto “Não à Bienal”.
Sendo assim, nos mais de vinte anos do período militar brasileiro, as restrições à liberdade crítica e artística não chegaram a impedir o desenvolvimento de uma arte vanguardista, pelo contrário, contribuiu para o desgaste do regime frente à opinião pública. O que  não justifica o retorno da repressão, censura e principalmente da violência velada de uma intervenção militar. Não há espaço para que esta história se repita!
Já são muitas as dificuldades que um artista tem em desenvolver seu trabalho no atual contexto político e social brasileiro. Basta olharmos quantos trabalhos já tem sido descartados e até mesmo censurados recentemente. Em pleno multiculturalismo em que vivemos presenciamos frequentes atitudes radicais contra a diversidade cultural. Instaurar no país um poder regulador e opressor de uma nova intervenção militar dificultará ainda mais a difusão de nossas manifestações artísticas.
Texto e ilustrações: André D.X

André D.X

Graduado em Artes Visuais com ênfase em Metodologia do Ensino de Arte. É curioso a respeito de produções culturais e artísticas das mais diversas linguagens, por isso, sonha em ser artista, embora só dê aula como professor. Em 2014 inaugurou a Láudano Artes para saciar sua ansiedade por descobrir e criar. promotor@laudano.art.br

 

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