O Quinta Cunhã que você precisa conhecer

Nesta semana o Arteref conheceu um projeto que traz em seu nome o conceito de Cunhã, palavra de origem tupi “Kunhã “, e que carrega em si um significado direto e simples: Mulher.

Estamos falando aqui do Quinta Cunhã  um projeto que traz a mulher protagonista da cena artista, produtora, administradora, mãe, chef , e todas as outras definições possíveis que você puder imaginar, e que permite que elas  assumam e conduzam juntas o tom de uma noite especial cheia de música, poesia, e compartilhamento de experiências.

Curiosos para saber como tudo isto é conduzido fomos conversar com a curadora deste projeto, Fernanda Lelot.

Acompanhem a entrevista:

Arteref: Queremos te conhecer um pouco melhor, nos fale um pouco sobre você Fernanda.

FERNANDA LELOT: Sou Fernanda Lelot, tenho 38 anos, natural de São Paulo. Formada em Educação Física, trabalhei por 12 anos na área, e há quase 10 anos eu resolvi largar a minha atuação profissional dentro desta área de formação para trabalhar com aquilo que sempre foi realmente a minha grande paixão, que é a música.

Eu comecei a estudar flauta com 11 anos e sempre tive  a música muito presente na minha vida, sou de uma família muito musical e repleta de pessoas que trabalham e trabalharam com música. A música sempre foi muito forte pra mim, sempre foi uma referência muito importante, até porque a música era uma das poucas coisas que me mantinha concentrada e com um pouco de tranquilidade.  Eu tenho memórias muito fortes, desde muito pequena de ter a música como algo que mexia comigo de uma forma muito intensa, muito profunda, então em 2008 eu fui fazer fazer pós graduação em sócio – psicologia, já desviando um pouco da minha formação original, e foi neste momento que me despertou a vontade de realmente fazer aquilo que estava muito mais nos meus sentimentos do que na minha ação, e desde então eu trabalho com música. Eu sempre toquei, mas não tocava profissionalmente. Eu participava de uma orquestra amadora, e levava aquilo como um hobby muito intenso, em seguida  comecei a trabalhar como produtora, isso ainda quando eu trabalhava como educadora física, em 2008.  Em 2009 comecei a trabalhar com musicalização infantil e estou até hoje.

Tenho um trabalho como educadora, como instrumentista, como cantora, e tenho um trabalho de música para crianças, e meu trabalho como artista está muito voltado para este universo. Meu projeto se chama Fê Lelot Música para Crianças, e com este projeto além de fazer muitas apresentações e oficinas, e tive a oportunidade de gravar meu primeiro disco que se chama Revoada, e também fiz duas turnês pela Europa no começo de 2017 ( Holanda e Bélgica) e no começo de 2018 ( Holanda, Portugal e Espanha). Estas duas turnês foram independentes assim como a gravação do disco, tudo feito com muita batalha, como musicista independente e como produtora independente que sou. Então basicamente é isso, sou flautista, saxofonista, cantora, e tive a oportunidade de estar próximas de músicos muito importantes, pessoas muito bacanas que me fizeram não só me desenvolver e aprender coisas sobre os instrumentos mas também enquanto profissional musicista e enquanto pessoa.

Fernanda Lelot – créditos Marcella Camillo

Arteref: De onde surgiu a ideia do projeto Quinta Cunhã?

FERNANDA LELOT: O Quinta Cunhã surgiu da minha vontade de abrir um novo espaço para a atuação da mulher artista independente na cidade de São Paulo, e  foi basicamente  esta a ideia inicial do projeto.

Arteref: Como se estrutura o projeto e qual é a proposta central?

FERNANDA LELOT: A partir da vontade de abrir um espaço para a atuação da mulher artista independente, estendi um diálogo com Amanda Vasconcelos, proprietária do Espaço Tucupi, e uni à vontade dela de ter em seu espaço atividades culturais acontecendo, a proposta de construção do projeto Quinta Cunhã. Ela gostou muito desta proposta e então, começamos a estruturar mais o formato deste projeto, no sentido de cronograma das atividades, etc.

Enfim, juntas definimos que o projeto irá acontecer uma vez ao mês, sempre na última quinta – feira de cada mês, isto dentro do período das primeiras edições que estão para ocorrer nos próximos três meses. Então a proposta central é trazer ao Espaço Tucupi uma artista, uma cantora, uma instrumentista, uma compositora, uma intérprete que tenha algum trabalho gravado ou não, ou que esteja em processo de produção de algum material artístico de forma independente.

A ideia é divulgar o trabalho destas artistas, propondo também não só um show, onde as pessoas vêm apenas assistir, confraternizar e depois ir embora. A nossa proposta é também que seja um espaço de compartilhamento de conversas e ideias, construção de discussões entre as artistas que estão alí se apresentando com as pessoas que estão participando deste evento, para que elas possam entender o processo de criação daquela artista, saber um pouco mais da história daquele trabalho, e para que as pessoas também conheçam as dificuldades que nós enfrentamos enquanto artistas independentes e enquanto mulher dentro desta cena.

Não é um evento fechado só para mulheres, mas é um evento que tem como foco principal dar voz e espaço de discussão para mulheres, porque são temas e dificuldades, e assuntos pertinente à mulher. Todo artista independente passa por dificuldade, e a mulher artista independente passa por muito mais dificuldade do que o homem que se encontra nesta mesma situação profissional, então a proposta central deste projeto é esta.

 

Fernanda Lelot, Creditos: Flavio Bacellar

 

Arteref: Assumindo papel de  curadora. idealizadora e mulher, como você se vê dentro deste novo cenário? Quais desafios e impulsos te cercam?

FERNANDA LELOT: Ao meu ver esta nova experiência como curadora deste projeto, me faz despertar a ideia de que, mais do que curadora, eu pretendo ser uma facilitadora  de encontros.  Porque acho que a palavra curadora é um pouco pretensiosa, talvez pra mim neste momento, mas esta será a minha função dentro desta história que será encontrar pessoas, projetos e histórias para mostrar nesta oportunidade que o Espaço Tucupi está abrindo para nós.

Enquanto artistas independentes serem querem mostrar seus trabalhos, no entanto estamos   em um cenário difícil de lidar. Tem mulheres fazendo trabalhos como este em alguns espaços culturais, assim como instituições que tem abertura para projetos neste formato como a rede Sesc, por exemplo, já temos mulheres fazendo este trabalho de curadoria, mas pra mim é um grande desafio, e estou muito feliz em me jogar nele, e abraçar esta história como possibilidade de encontrar outras artistas, de trocar ideias, conversar,  conhecer estes outros trabalhos mais profundamente, e de nós nos apoiarmos e caminharmos mais juntas, para conseguirmos maiores resultados.

Uma coisa que eu sinto ainda, é que no nosso meio musical, e talvez isso esteja começando a  ter uma outra força agora, é que acabamos fazendo muitas coisas sozinhas, cada uma vai tentando resolver o seu problema, e fazendo a coisa acontecer de forma isolada, e acho que para nós termos  um melhor resultado precisamos fazer isso mais juntas. Conseguir olhar para isto como uma possibilidade de  mais oportunidades e de  ter mais poder para conquistar melhores resultados. Então acho que este espaço, ao meu ver, é uma oportunidade incrível de avançar junto com outras pessoas. Estamos inseridas sim, num cenário difícil, em um momento difícil para a cultura, para a arte, para a expressão, diante destes bloqueios impostos precisamos encontrar alternativas, e acho que dentro de pequenos espaços podemos conquistar grandes avanços. Em grupos pequenos vamos fazendo os ideias se aumentarem aos poucos.

 

Fernanda Lelot, creditos: @camillomarcela

Arteref: Sob sua ótica, de que maneira podemos exaltar a nossa cunhã interior?

FERNANDA LELOT: Esta é uma pergunta bem complexa, né? Bem, acho que tudo o que fazemos com o objetivo de nos valorizar, e de nos colocar à frente das coisas que queremos, tem a capacidade de exaltar a nossa cunhã interior. Não é um movimento fácil, porque enfrentamos muitas coisas contra o tempo inteiro, então se colocar à frente já é uma forma de exaltar a nossa cunhã interior, e acho que este é o nosso maior poder na verdade. Ter força pra conseguir enfrentar todas as situações adversas que enfrentamos e mesmo assim tentar nos colocar numa posição de auto valorização, e acho que isto é o mais importante.

Bom, com esta matéria encerro a série que homenageia a representatividade feminino no mundo das artes aqui no Arteref.

Se vocês vem acompanhando e gostando das matérias  não deixem de compartilhar esta matéria com seus amigos e aproveitem para nos seguir nas redes sociais!

Estou preparando com carinho novas séries temáticas aqui no Arteref para vocês.

ONDE ACONTECE O QUINTA CUNHÃ?

Espaço Tucupi

Rua Major Maragliano, 74 – Vila Mariana

CEP 04017-030 – São Paulo

QUANDO

Toda última quinta-feira de cada mês.

17:00 às 23:00

 

 

Paula48 Posts

Amante das belezas da vida, Paula sempre está por dentro do que está acontecendo no cenário cultural na cidade de São Paulo. Bacharel em Ciências e Humanidades e Técnica em Gestão Pública com foco em políticas culturais, Paula vem colecionando uma bagagem de conhecimentos nas áreas de Gestão Cultural e Jornalismo Cultural. Hoje Trabalha no programa de incentivo cultural Pro-MAC da Prefeitura de São Paulo

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