A dimensão da arte em eterna expansão

Perscrutar a verdadeira raiz da arte é em essência buscar a força do espírito humano, compreender as sutilezas da própria vivencia, transpor os limites impostos, galgar novas visões do mundo, fazer da poética uma trilha de aventuras e confrontos, refletir e criar, inovando e compreendendo a complexidade da realidade em incursões rasantes.

A mostra de Julio Le Parc, aberta recentemente no Instituto Tomie Ohtake, produz no visitante uma sensação de transposição, de flutuação dos espaços, se revestindo de uma oportunidade especial para apreciar obras que se posicionam como extremamente referencias no fluxo revolucionário da arte cinética.

A importância da exposição se reflete na abrangência dos trabalhos apresentados cobrindo o período de 1958 e 2013, paisagens labirínticas pinceladas pela luz e pela transparência, formando espaços que confundem a percepção humana, propondo uma relação lúdica enaltecendo resultados arrojados e estimulando observações sutis. Um detalhe porém deve ser observado, a sua participação na Bienal Internacional de São Paulo em 1957, uma antevisão de suas elucubrações artísiticas.

Em 1958, obtém uma bolsa do governo francês e se instala em Paris. Cessa de produzir arte pelos meios tradicionais e realiza uma pesquisa profunda sobre a luz, o movimento e a cor, produzindo objetos cinéticos que se envolvem na “art perceptuel”. Peças que podem ser manipuladas com efeito de luz, estimulando a participação sensorial do espectador.

Precursor da arte cinética e da op art, foi membro fundador do CRAV (Centre de Recherche d’Art Visuel) em 1960, juntamente com Hugo Demarco, Horacio Garcia Rossi, Hector Garcia Miranda, François Molnar, Vera Molnar, Sergio Moyano Servanes, François Morellet, Francisco Sobrino, Joël Stein e Jean-Pierre Yvaral. Pouco depois da fundação do CRAV, os participantes se reduziram a seis: Garcia Rossi, Le Parc, Morellet, Sobrino, Stein e Yvaral e em 1961 o grupo se renomeou Groupe de Recherche d’Art Visuel – GRAV.

Em 1966, foi organizada a sua primeira individual na Howard Wise Gallery em Nova York e no mesmo ano ganha o Grande Prêmio de Pintura na Bienal de Veneza.

Em maio de 1968 participa ativamente do espírito de renovação que envolvia os estudantes e a sociedade em geral, tendo participado de um protesto na fábrica da Renault em Fins, no Vale do Sena, motivo pelo qual foi expulso da França. O GRAV se solidarizou com Julio Le Parc  e uma ampla campanha formada por Denise René e vários vultos da cultura se mobilizaram, e cinco meses depois retornaria à França.

Sua primeira individual aconteceu em 1972, em Dusseldorf, Alemanha, seis anos depois a BBC de Londres produziu um documentário sobre sua vida e sua obra com grande repercussão.

Produziu com Yvonne Argenterio, em 2004, na Elettrofiamma, na Itália, uma série de esculturas, e apresentou o evento “Verso la Luce” (Em direção à luz) no Castelo Boldenga (Brescia) visível no jardim da imponente construção, demonstrando extrema vitalidade em desenvolver obras inusitadas, um percurso artístico vibrante e expansivo na dominação da cor e da luz.

Paralelamente à mostra do Instituto Tomie Ohtake acontece na Galeria Nara Roesler, a apresentação de uma série de pinturas denominada “Alquimia” seguindo os conceitos da op art com cores vibrantes além de algumas esculturas, uma excelente oportunidade para aquilatar a dimensão de um artista extremamente criativo e visionário, que apesar de seus 89 anos continua a produzir intensamente.

José Henrique Fabre Rolim27 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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