Do Barroco ao lúdico

 

O Museu de Arte de São Paulo – MASP propõe uma incursão pelas Histórias Afro-atlânticas com duas mostras de relevante importância que traçam cada qual as multifacetadas potencialidades da arte em enfoques que captam a sacralidade e o cotidiano, Aleijadinho e Maria Auxiliadora.

Dois enfoques diversos com realidades típicas de épocas diametralmente opostas, mas que realçam a força da expressão artística independente de qualquer corrente.

A implantação do Barroco no Brasil se deu por intermédio dos jesuítas, primeiramente na Bahia, no final do século XVII, num período em que predominava a riqueza advinda da produção açucareira. A elite da época queria se impor, ostentar poder, um terreno fértil para a afirmação da linha barroca tanto na arquitetura por meio de suntuosas igrejas como nas imagens sacras com seus incríveis detalhes.

O ciclo de ouro nas Minas Gerais foi o cenário em que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814) desenvolveu sua obra, período em que o Barroco e o Rococó se enraizaram na concepção estética de uma comunidade extremamente religiosa com o apoio poderoso das confrarias, ordens terceira e irmandades. Dentre seus contemporâneos destacam-se Mestre Piranga, Francisco Xavier de Brito, o incrível Mestre Ataíde, Francisco Vieira Servas e tantos outros anônimos que enriqueceram o panorama do Barroco brasileiro.

O Barroco se solidificou na Europa em pleno século XVII, no final do Renascimento, abrangendo várias manifestações artísticas como a arquitetura, a pintura, a literatura e a música, tendo como característica a extravagancia e a ostentação, a eloquência e a sutileza. O Rococó por sua vez, surgiu primeiramente na França no século XVIII, uma tendência que suavizava os excessos e a suntuosidade do Barroco. A palavra rococó tem origem do termo francês rocaille que é um tipo de decoração empregada nos jardins em formato de conchas.

O termo barroco tem uma origem precisa, designa em joalheria uma pérola fina irregular, ou uma pedra mal talhada. O barroco tem também como significado algo anormal, exuberante. Os historiadores de arte em pleno século XX deram um conceito estético geral aplicado a um estilo brilhante do período que se estende precisamente na Itália entre a Renascença e o Neoclassicismo.

A Inquisição na Espanha a partir de 1480 e em Portugal a partir de 1536 ameaçou a liberdade de pensamento, e foi nesse clima repressivo que o movimento artístico chamado Barroco se desenvolveu, uma arte eclesiástica que desejava propagar a fé católica.

Deve-se observar que o Concílio de Trento realizado de 1545 a 1563 proporcionou expressivas mudanças no Catolicismo como resposta à Reforma Protestante de Martinho Lutero. A Companhia de Jesus reconhecida pelo papa em 1540, dominou o ensino, tendo papel relevante na difusão do pensamento católico e a arte foi um canal bem eficiente.

As 50 obras de Aleijadinho expostas no Masp refletem toda essa carga histórica, a arte sacra com suas esculturas devocionais, agregando tradições culturais da sociedade mineira na época colonial, proporcionando reflexões sobre aquele momento com suas dualidades, repressão e criatividade, imposições do poder e fé com liberdade de expressão.

Paralelamente, a mostra de Maria Auxiliadora (1935-1974) revela a singeleza de uma pintura extremamente vibrante com relevos que transformam as festas populares em algo lúdico. Agregada às tradições africanas, a artista faz uma incursão memorável pelo candomblé, a capoeira, o samba, a umbanda, os orixás, destacando o dinamismo cultural popular. Os temas propostos por suas telas são recorrentes à sua sensibilidade em conectar realidades sociais em clima alegre com uma pitada de humor que transcende e encanta os visitantes. A última grande mostra de Maria Auxiliadora aconteceu no MASP, em 1981, portanto já era tempo de resgatar o percurso de uma artista vinculada ao vigor das tradições afro-brasileiras.

 

 

 

José Henrique Fabre Rolim35 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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