Investidas reflexivas em imagens impactantes

As questões fundamentais da arte se coadunam com a complexidade humana e suas infinitas conexões com a busca de novas poéticas, esclarecedoras dos confrontos existenciais. Enaltecer as singelezas da criatividade enobrece o fluxo inovador das reflexões e das apreciações.

Aprimorar o olhar é uma atividade contínua que exalta a perspicácia cognitiva ligada à uma sensibilidade, fator essencial para estimular a interatividade que ultrapassa o lado físico para alcançar a pura expressão nas suas mais sutis formas.

Observar uma obra de arte é essencial para realizar as confrontações íntimas do apreciador que com sua vivencia e reflexão solidifica investidas mais profundas.

A arte é na realidade pura comunicação a ser interpretada conforme as propostas concebidas pelos artistas que se dispõem a serem transparentes ou não nos resultados plásticos, cada qual definindo seus rumos, cabe ao apreciador projetar as suas análises e usufruir das aberturas captadas pela observação dos detalhes.

A potencialidade artística é um desafio que permite ao ser humano se destacar como um visionário capaz até de prever futuras conquistas da ciência.

Um fato bem interessante aconteceu com Vincent Van Gogh na sua curta permanência na Provence, sul da França, entre 1889 e 1890, período de tratamento, em virtude de seus transtornos psíquicos. A região sul francesa possui uma luz incrível, além da beleza das paisagens, lugar inspirador para elucubrações e experimentações. Touluse Lautrec tinha tido ao mestre holandês que a luz na vila de Arles era especial como a luz do Japão, local privilegiado sobre todos os aspectos.

Um famoso quadro denominado “Noite Estrelada” (1889) em que luz e nuvens afloram em formas espirais, Van Gogh anteviu, 50 anos antes, o fenômeno físico do fluxo turbulento, intuitivamente constrói imagens em que a mesma intensidade de brilho se reflete em distancias diferentes.

Na foto de uma estrela tirada pelo telescópio espacial Hubble em 2004 se vê claramente os redemoinhos causados por poeira e gás em movimento turbulento. As pinceladas circulares de Van Gogh enfocam esse fenômeno físico na disposição da luz e das cores, visualizando antecipadamente o fluxo turbulento, estudado bem depois da obra realizada.

Os distúrbios mentais de Van Gogh são espelhados nas suas obras e na troca de correspondência, umas 900 cartas, com seu irmão Théo. Fatos dramáticos como a amputação da orelha entre tantos imprevistos existenciais contribuíram para que a sua loucura ficasse expressada nas telas, realçando o seu lado visionário e intuitivo alcançando até o campo da física.

O físico José Luis Aragon da Universidade autônoma do México e colaboradores na Espanha e Inglaterra buscaram uma solução matemática entre a turbulência dos fenômenos naturais e as criações do mestre holandês, que pintou “Noite Estrelada” e outras telas durante períodos prolongados de distúrbios mentais. Paul Gauguin conhecia muito bem o amigo holandês, chegou a vigiá-lo na sua permanência na Provence, a pedido de Theo, mas mesmo assim, Van Gogh acabou morrendo aos 37 anos, em 29 de julho de 1890, em decorrência de ferimentos causados por uma arma. A vida do mestre holandês foi muito conturbada e bem sofrida, a sua genialidade e o seu temperamento eram excessivamente desequilibrados ocasionando contínuos conflitos. Uma loucura que gerou tantas imagens pictóricas impactantes a expressarem sentimentos na folia da cores em gestos magistrais.

Os astrônomos que usam o Telescópio Espacial Hubble capturaram a imagem mais abrangente já montada do Universo em evolução – e uma das mais coloridas.

A arte permite em certo sentido captar outras dimensões que se conectam com a mente humana, fonte prodigiosa de revoluções culturais e científicas.

 

 

José Henrique Fabre Rolim21 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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