O que devemos fazemos com a arte feita por pessoas perversas? (parte 2)

À medida que mais homens enfrentam alegações de comportamento perverso, discutimos aqui o que fazer com estes trabalhos.

Cada vez mais lemos manchetes sobre o comportamento desonesto de artistas / cineastas / atores / YouTubers.

As notícias mais recentes foram os ataques sobre o artista Chuck Close e o fotógrafo Thomas Roma, cujas instalações – cerca de uma dúzia de obras de cada um – na Galeria Nacional de Arte de Washington DC foram retiradas por tempo indefinido após acusações sexuais feitas contra eles. Em um tempo recorde, outras instituições começaram a retirar também os trabalhos destes artistas. Parece que o mundo da arte não pode mais evitar esta questão e faz com que nos perguntemos: Como podemos punir estes artistas por seus crimes sem apagar a história da arte?

Artistas que se comportaram mal não são novidade para ninguém. Sabemos sobre a as taras de Egon Schiele e Pablo Picasso, entre muitos outros, há anos. Nada disto está escondido – tudo está impresso em nossos livros de história. No entanto, mais recentemente, um grande número de mulheres tomou coragem e apoiadas pelos acontecimentos apresentaram histórias horríveis de agressão e abuso sexual nas mãos de homens que ainda estão vivos. O que fazer? A condenação das pessoas é algo indiscutível. Estes artistas cometeram crimes e devem ser punidos. Mas será que devemos condenar a arte também?

Egon Schiele: Mulher reclinada

Se um artista contribuiu majoritariamente para a história da arte, ele está isento? Se o Kevin Spacey pode ser demitido da série House of Cards, isso significa que podemos remover artistas “predadores” das paredes da nossa galeria? Esta é uma questão difícil, pois na maioria das vezes, ao dizermos sim, entramos em um território sem leis e ao dizermos não nos tornamos permissivos. O que fazer?

À favor da remoção das obras

Museus e galerias em todo o mundo estão lentamente enfrentando o fato de que colocaram muito dinheiro e esforço intelectual em trabalhos de homens perversos.

Por exemplo, muitos já apostaram em Picasso, que uma vez disse: “para mim, existem apenas dois tipos de mulheres: deusas e capachos”.

Quando a National Gallery of Art anunciou que estava cancelando a exposição individual do pintor Chuck Close e do fotógrafo Thomas Roma devido a acusações de má conduta sexual, esta se tornou a grande manchete nas mídias. Será que todos os outros museus deveriam começar a questionar os segredos ocultos dentro de seus acervos?

As pinturas de Chuck Close são fantásticas. Não se pode falar sobre o foto-realismo sem mencioná-lo e como ele criou a relação entre a pintura e a fotografia.

No entanto, até agora, quatro mulheres alegaram que a Close as convidou para o estúdio dele, pediu-lhes que posassem nuas e, em seguida, usou linguagem explícita – em um ponto dizendo: “sua buceta parece deliciosa” – fazendo com que elas se sentissem desconfortáveis, manipuladas e exploradas; é hora de ouvir estas pessoas.

Precisamos mesmo de uma outra exposição de Chuck Close? Este é essencialmente o mesmo problema que o programa House of Cards está enfrentado. O que eles fizeram? Expulsaram o ator problemático e promoveram a mulher. Os curadores devem aprender com House of Cards e tornar a próxima temporada de arte mais diversificada, mais radical e, acima de tudo, mais segura.

A questão de julgar a arte ou o artista é antiga. Não devemos simplesmente julgar o próprio trabalho? É por isso que estamos aqui – quem realmente se preocupa com a vida pessoal de algum cara que gostava de pintar tanto que ele eventualmente se tornou estranhamente, fantasticamente bom nisso?! Mas esse é o problema. Essas coisas não são questões separadas. Nossa compreensão da arte é moldada pela própria cultura que a manteve como brinquedo para homens ricos, heterosexuais e brancos.

Outra exibição de alguém com acusações de má conduta sexual contra o artista não é o que precisamos da arte agora. É censura? É um ataque à liberdade da arte e dos artistas? Não é o momento certo.

Mas há boas notícias. Recentemente, devido a má conduta sexual, um museu alemão suspendeu uma retrospectiva importante para Bruce Weber e a Tate suspendeu um relacionamento com um marchand proeminente. As instituições de arte de Londres têm hospedado recentemente uma série de grandes exposições que se baseiam no excelente trabalho de ativismo para mudar o rumo no mundo da arte.

Estão acontecendo uma retrospectiva importante para Rachel Whiteread na Tate Britain, assim como a retrospectiva para Jean-Michel Basquiat no Barbican (ambas deveriam ter acontecido há cerca de 10 anos atrás). E a Tate Modern realizou duas exposições monumentais sobre histórias muitas vezes esquecidas, como Arte Britânica Queer e Alma de uma Nação. Então, as instituições devem continuar a cancelar exposições de artistas problemáticos? Sim, pois não queremos que a arte permaneça obsoleta, pálida e masculina”.

 

Contra a remoção das obras

“A história da arte sempre foi problemática. É fácil ver nas paredes de institutos e museus artistas cujas biografias contém muita misoginia e personalidade predatória e são considerados “gênios”. No entanto, fora dos debates, onde o monumento físico leva à celebração de pessoas terríveis, os artistas têm o benefício de serem independentes do trabalho que produzem. Quando estamos admirando um Picasso, é o trabalho físico em tela que apreciamos. Lendo qualquer biografia dele você saberá que o homem era um monstro.

É essa dissonância que muitas vezes dificulta a apreciação ou a compreensão da arte. Você pode amar o trabalho de um artista se, por trás da tela, existisse uma vida marcada por atos de agressão sexual, estupro ou apropriação? Estas são questões que temos de nos perguntar, especialmente à luz de exposições futuras, como a de Schiele ou Picasso. São questões importantes e difíceis. Não se pode e não se deve apagar a história da arte, mas certamente podemos impedir que a história se repita.

À medida que a sociedade se forma em torno das conseqüências do movimento #MeToo, há uma oportunidade para as grandes instituições usarem suas coleções como uma forma de revisitar importantes discussões críticas dentro da disciplina. As conversas precisam acontecer.

Esta abordagem curatorial metodológica, embora não inteiramente nova, permanece controversa. Em 2015, o Rijksmuseum tomou a decisão de renomear os títulos de pinturas culturalmente insensíveis. Na prática, isso resultou na renomeação da obra “Young Negro-Girl” de Simon Maris para “Young Girl Holding a Fan”, bem como muitas outras. Juntamente com esta ação, foram mudadas informações que atestavam eventos comprometedores das práticas das colônias holandesas.

O furor desnecessário fez com que as obras fossem completamente removidas, algo desnecessário para o que poderia ser um grande assunto para a educação e auto-interrogação.

O The Art Institute Chicago recentemente recebeu críticas merecidas por ignorar descaradamente as controvérsias inerentes nas obras de Gauguin em uma exposição dedicada à sua vida e trabalho. O olhar voyeurista de Gauguin sobre a cultura taitiana; sua sexualização aberta de mulheres jovens e, em seguida, seu casamento com uma criança nativa não são fatos a serem varridos sob o tapete escuro que é história da arte. Terminou sendo uma oportunidade perdida de tocar no assunto e que nos lembra a política regressiva e a ignorância consciente das principais instituições.

No caso de homens como Chuck Close, a diferença é que ele é um artista vivo. Um artista vivo com inúmeros relatos de agressão sexual relacionados a seu nome. Se alguma coisa deve ser aprendida com o passado, é que existem muitos homens tirânicos e abusivos na história da arte para servir como exemplo e não há a necessidade das instituições darem aos vivos esta mesma plataforma.

 

Referências: NY times, dazed, BBC, Wikipedia

 

Paulo Varella1398 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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