Obra em derretimento do artista Patrick Tedesco

Como você reagiria se percebesse que a obra em sua frente esta derretendo? Se a imagen que você vê está desaparecendo/escorrendo?

O trabalho de Patrick se transfigura pelos estados físicos e se completa pela ação da lei da entropia, sendo um processo dinâmico e múltiplo. Mas o trabalho não fica apenas na peça escultórica, ele alcança também as linguagens da fotografia e com isso da reprodução de imagem, constituindo diversos trabalhos a partir de um. Ou seja, o que é uma obra em derretimento se transforma em mais de 1000 imagens do trabalho que se transformam em um ou mais vídeos do ato e que ainda pode ser visualizado por certos ângulos como uma performance.

Portanto, o trabalho é plural. Não só plural como curioso. Apesar do conceito de algo derretendo já ter sido explorado por outros artistas, como o trabalho “A Pound of Flesh for 50P” do artista Alex Chinneck, Patrick refaz isso de forma a utilizar algo presente em nosso cotidiano (o gelo) e sua confluência com os elementos da esfera artística (as tintas). Ao lidar com o estado sólido da água, o artista acaba por retirar a energia presente nas moléculas da água e, posteriormente em exposição, a energia vai se reequilibrando com a atmosfera e passa por lidar com as transformações que a colocam de volta no estado líquido.

patrick tedesco_cronografia obra em derretimento

Minimamente – porém não poeticamente desconsiderável – o objeto de Patrick retira a energia necessária do local de exposição. O espaço em seu entorno acaba por completar o trabalho e fazer dele o que é. Aliás, se fosse realizado em locais muito frios, o resultado seria obviamente outro, assim como mesmo dentro de determinado país o tempo necessário para a conclusão do derretimento recebe variação.

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Ao se apropriar desta energia propiciada pelo entorno, o trabalho vai adquirindo diferentes formatos. Primeiro parece derreter a parte mais pura, manchando a tela apenas como uma poça de água pouco colorida, em seguida, aos poucos, camadas mais fortes de cor vão se espalhando ao entorno, até que, então, acaba se observando apenas uma espessa camada pouco identificável de um pigmento forte referente à cor inicial observada.

As questões centrais parecem ser a distribuição de energia, a passagem do tempo, o acaso e a experimentação, esta última que levou o artista a expandir seu trabalho para outras linguagens e incluir fotografias em seu derretimento.

Com o trabalho em fotografias, outros sentidos acabam por serem apropriados no trabalho. A questão da passagem do tempo, por exemplo, acaba por parecer ainda mais clara por princípios e questões que a própria fotografia já nos traz (como olhar para o passado e fazer dele presente). Este pretérito presente na imagem detida no gelo vai aos poucos escorrendo, como se, de forma literal, o tempo escorresse.

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De forma não muito complexa é possível se aproximar de uma comparação bem (assumida aqui) rasa com o trabalho sociológico de Bauman e suas teorias sobre a vida líquida. Segundo o Polonês (de forma bem grosseira), as informações e as relações sociais ocorrem de uma maneira esvaziada e superficial, de modo que vivemos imersos em uma enxurrada de informações (muitas descartáveis) e responsabilidades que tolhem de certa maneira o nosso convívio e expõe as dificuldades da vida contemporânea.

Patrick não parece conscientemente querer abarcar as complexidades presentes na obra do sociólogo, porém, pelo fato de trabalhar com informações que vão se desfazendo de uma maneira liquefeita, a proximidade não deixa de se formar.

Formado em Psicologia e Design Digital, o artista se especializou em Artes Visuais e cursou mestrado em Literatura Comparada; fora sua produção com as obras em derretimento, realizou trabalhos de destaque com projeções e livros de artista.

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Sua proximidade com a música parece ser o flerte para o uso da projeção. No exemplo acima vemos a utilização deste meio para o desenvolvimento de um trabalho em parceria com o artista Luciano Mello, criando uma cenografia composta por imagens projetadas, que atuam ao mesmo tempo como iluminação e como elemento cênico para o show interartístico “Histórias em torno da queda”.

Além da parceria música/imagem o artista já experimentou projetar a fotografia de suas obras em derretimento em prédios, como na imagem abaixo (o que ele chama de projeções urbanas).

projeções urbanas

Ao trabalhar com o livro de artista, Patrick novamente revive seu contato com o acaso. Esse acaso que antes era presente nas transformações físicas da escultura, nesta peça se transmuta em um acaso mais fortemente determinado pelas configurações espaciais. No livro “Novo mapa estelar” o artista cria uma série de constelações fictícias que podem ser reordenadas para conceber a cada momento uma nova cartografia celeste.

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Patrick parece estar no prelúdio de seu percurso artístico, com potencial para se aventurar em novas experimentações e minha única ressalva sobre sua produção que mais me chama atenção (o conceito de obra em derretimento) talvez seja quanto ao tamanho. Espero que seu trabalho cresça cada vez mais. Por enquanto o tamanho ainda é muito reduzido para ser algo de absurda relevância quanto nas questões trazidas e talvez fosse mais impactante se as proporções fossem aumentadas.

Tenho vontade de ver o trabalho derreter até escorrer pelo espaço expositivo e tornar a passagem do tempo algo realmente perturbador assim como ela realmente é (dependente de sua perspectiva de análise). Perguntei sobre as dimensões e a resposta que obtive foi a tentativa de uma aproximação com o minimalismo e da ideia de fazer mais a partir do menos. De uma escultura pequena criar ecoamentos grandes, com projeções maiores ou imagens diversas.

De qualquer forma acredito que Patrick ainda poderia repensar o processo criativo e talvez até processar algumas tentativas de sobreposição de diferentes objetos para tentar criar alguma unidade maior entre eles. A escultura em si me remete uma grande potência e gostaria de poder presenciar ela com maior integridade.

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Também trabalha com registro de peças teatrais, imagens panorâmicas  360º, design para capas de cds e cartazes de filmes. Para conferir mais de seu trabalho acesse seu site patricktedesco.com

Contato: patricktedesco@gmail.com

E mande você também o seu trabalho para nós! preview@arteref.com.br

Paulo Varella1163 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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