Tempo e lembrança no trabalho de Maria Lima

Desenho da série Vigília

O trabalho de Maria Lima começa curioso por trazer diferentes elementos cotidianos. Ao vê-los pela primeira vez ocorre uma espécie de identificação que não se sabe de onde vem. Porém, aos poucos, é possível perceber que é esta presença do tempo rotineiro que nos provoca.

Graduada em Artes Visuais pela UNESP, a artista seguiu seus estudos realizando pós graduação em poéticas visuais pela EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná) e se diz apaixonada por desenho.

img1

Trabalhos do projeto Prontuário 063/13

Também se utilizando da fotografia e da pintura para se expressar, Maria chama atenção pela forte presença das letras em meio a seus trabalhos. Observando este seu curioso interesse pela junção de sílabas aos trabalhos, acreditei ser interessante saber as palavras da própria artista.

Ocorrências de viagem

Desenhos série Ocorrências de Viagem

Com isso, realizei uma entrevista na qual a artista fala um pouco mais aprofundado sobre seu trabalho. Segue abaixo:

A.R.: Qual sua relação com a literatura e como surge a comunicação entre seu trabalho e as páginas de livros?
M.L.: Os livros sempre estiveram presentes na minha vida, desde muito cedo. Meu pai era um bibliófilo então cresci rodeada por livros. Gostava de ver/perceber ainda criança as letras, espaços e a maneira que todos aqueles elementos eram distribuídos nas paginas. Mais adiante, passei a me interessar pela literatura marginal dos anos 70 e a forma como eram construídos os objetos/livros, artesanalmente, com produções pequenas, principalmente o trabalho do poeta Waly Salomão, com toda aquela experimentação poética, misturando texto, poesia e visual. Posso dizer que Babilaques de Waly é a minha maior influência para iniciar as séries em que uso texto e tudo que desenvolvi depois usando a palavra, seja no desenho, na pintura ou na fotografia. A primeira série em que trabalhei com a sobreposição do desenho em páginas de livro foi em “Ocorrências de viagem”. São desenhos baseados em lembranças desde a infância. Quis desenvolver esta série dando a mesma importância ao texto que dou ao desenho, o que me interessa desde o início é criar uma costura entra palavra e imagem, são elementos que se reforçam dentro da narrativa do trabalho.

A.R.: Você pontua alguma diferença entre os desenhos de vigília realizados em agendas e os executados sobre folhas brancas?
M.L.: Eu construo as minhas séries baseadas em coisas cotidianas. Vigília é uma série de desenhos de meus gatos dormindo. As primeiras foram feitas nas folhas em branco, ao mesmo tempo em que desenvolvia as primeiras séries de desenhos sobre as páginas de agenda. Eram desenhos despretenciosos, isolados. Normalmente trabalho com séries, repetições sobre o mesmo assunto, estas repetições também estão presentes nas agendas. Gosto dessa ideia da marcação do tempo, então resolvi trabalhar estas vigílias usando como base as marcações de tempo das agendas. Considero os desenhos desenvolvidos nelas, muito mais importantes e significativos do que os executados sobre o branco, exatamente pela presença gráfica do tempo. Meu maior interesse trabalhando com desenho hoje é a produção em forma de cadernos e livro.

img 2

 

Retratos-Sangria

A.R.: Em “Sangria” você acredita concretizar uma vontade pessoal?
M.L.: Sangria fala sobre dor, mais uma destas séries baseadas no cotidiano. Crises de enxaqueca me motivaram a fazer estes desenhos. Estes elementos mais violentos estão presentes em outras séries, como nas pinturas. Não vejo como concretizações de vontades pessoais, vejo como encenações. Há uma força nisso que me agrada.

A.R.: Do que se trata o livro C.H.E?
M.L.: C.H.E. é uma sigla para Combustão humana espontânea. Fiz desenhos baseados num documentário que vi há alguns anos atrás sobre pessoas que entram em combustão espontaneamente, fato ainda não comprovado cientificamente como verdadeiro, mas havia algumas imagens muito impressionantes de pessoas com parte do corpo carbonizado, aparentemente sem explicacão. Normalmente nestas imagens, a pessoa aparece apenas com os membros preservados. Havia feito alguns esboços pensando neste tema naquela época, desenhos que não foram adiante e ficaram guardados, mas a ideia nunca saiu da minha cabeça. Em 2014 retomei a série, mas com um elemento novo, o livro de investigação. Antes de retomar a combustão, estava trabalhando num livro de investigação/catalogação. Se trata da série Columbus, uma série de desenhos de pombos registrados de diversos pontos de Curitiba, com desenhos dos exemplares e informações do momento do registro. Então resolvi usar este elemento da investigação na série da Combustão. Criei um livro de investigações sobre CHE que está em curso ainda, com descrição de casos e informações destes personagens.

img3

Combustão Humana Espontânea (C.H.E)

A.R.: A busca das fotografias para uso no trabalho “Ephemeros” gira em torno de quê?
M.L.: Ephemeros se trata mais uma vez de ações cotidianas. A ideia surgiu revendo fotografias antigas de família. Havia trabalhado com fotografia numa série chamada Prontuário 063/13 usando autorretrato com a palavra, textos/frases poéticas sobrepostas. Foi quando comecei a pensar nas imagens como sequencias. Estes elementos levei para Ephemeros, em que me utilizo destas imagens mais antigas, com sequencias mais recentes, em que sobreponho com a palavra VIDA. Mais uma vez o tempo congelado, gosto de fazer uma relações desta série com as marcações de tempo das agendas que citei antes. Ephemeros se trata disso, destas frações de tempo e espaço, com registros simples e cotidianos.

Ephemeros - Série Vida

Ephemeros - série Vida

A.R.: Os retratos pintados por você são de pessoas existentes?
M.L.: Há pouquíssimos retratos de pessoas conhecidas, uns três ou quatro. Estou retomando a pintura depois de anos trabalhando só com desenhos, que é o meu meio preferido, mas a pintura sempre teve um papel importante. No início lá em 1999 quando considero o começo da minha produção mais significativa, a pintura era o meio em que mais trabalhava, sempre com retratos, de forma catártica. A pintura me proporciona isso de forma mais radical, gosto do gesto rápido, forte, violento, isso fica bastante evidente nestes retratos.

A.R.: Com o seu trabalho colocando cadeiras em representação central você acredita em um dialogo com o design?
M.L.: A série das Cadeiras é de 2014 e elas estiveram presentes em praticamente toda a minha produção deste período, alternada com outras séries de desenhos e a retomada da pintura. Não havia pensado numa relação com o design, eu quis retratar uma ação bastante pessoal, uma relação terapêutica, mais uma ação cotidiana que se mistura com o trabalho. A relação com o outro, a dinâmica da terapia, estão retratadas naquelas cadeiras. Todas as ausências, as presenças, estão ali colocadas naquela relação.

Anatomias 2

Anatomias

Com um traço discreto mas ao mesmo tempo impactante, Maria Lima resgata memórias, idéias, relações e, junto a isso, estabelece conexão com o cotidiano e analisa este à sua maneira. E, quando aqui falamos de cotidiano, muitas coisa são citadas – como as relações que se estabelecem neste e a forma como o vivenciamos – e não apenas o passar vulgar dos dias.

Para conhecer mais do trabalho de Maria, acesse marialimaportfolio.blogspot.com.br/

Ocorrências de viagem 2

Desenhos série Ocorrências de Viagem

E não se esqueça! Aqui no Preview você pode encontrar também o seu trabalho! Envie seu portfólio para preview@arteref.com.br e aguarde nosso contato.

Paulo Varella1078 Posts

Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password