A imagem, a literatura e o feminismo nas obras de Daniela Mattos

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Make Over (instalação residual de performance), SKUC Gallery, Eslovênia, 2006

Desde 2000, Daniela Mattos desenvolve obras em artes visuais com enfoque nas práticas da performance, fotografia, videoarte e escrita. Ela é artista, educadora e curadora independente tendo participado de diversas exposições, mostras de vídeo e publicações no Brasil e no exterior.

Para Daniela, estar presente nestes três aspectos do mundo das artes, ou se concentrar em um único campo de atuação é algo que depende de cada um. “Para mim isso aconteceu muito naturalmente. Como sempre tive que trabalhar para me sustentar, a prática como educadora foi algo que me atraiu, tanto por ser algo que gosto muito de fazer, quanto por me proporcionar uma estabilidade que minha prática artística ainda não me trouxe – apesar de também ser uma profissão muito mal paga e subvalorizada ainda”.

Doutora pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade, PUC-SP (2013) e Mestre em Linguagens Visuais, pela UFRJ (2007), como educadora Mattos têm atuado em escolas de arte, museus, universidades e cursos livres. Foi professora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na rede SESC do Rio de Janeiro e São Paulo, no Instituto de Artes da UERJ, e responsável pela Consultoria em Arte-Educação junto ao Programa Educativo do CCBB-RJ.

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Procura(r)-se - performance, 2002, Rés do Chão, Rio de Janeiro

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"Observe atentamente" - intervenção, instalação

Em suas produções artísticas suas inspirações podem vir tanto de referências e estudos tradicionais, quanto da vivência e cultura do cotidiano. “Posso ser influenciada tanto por uma imagem da História da Arte ou da Cultura, quanto pela experiência de fazer uma trança Nagô no meu cabelo com a Angelique, uma congoleza que atende num Salão Afro no Centro do Rio, e acredito que estas duas fontes são, ainda que diversas, de uma riqueza inesgotável”.

Segundo Mattos, talvez por sempre ter querido fazer de tudo um pouco e experimentar um pouco de cada coisa, suas obras abrangem diferentes práticas, embora as pessoas costumem a identificar sempre com a performance.

Acham que sou uma “Artista de Performance” coisa que não sou, ou melhor, que sou também e não apenas. Tenho sim muitos trabalhos performativos, mas tanto quanto tenho com Fotografia, Vídeo, Objetos, Escrita. Mas acho que as pessoas conhecem mais meu trabalho de Performance e Vídeo, pois tive mais oportunidades de mostrar essa parte da minha produção. Isso foi um comentário de muitas pessoas que viram a minha exposição no MAC de Niterói, a “Um teto todo meu”. Muita gente chegava pra mim e falava: “nossa, não tinha a menor ideia que você também faz estes trabalhos com Fotografia, Objetos e outras mídias além da Performance, que bacana!”. E isso foi super importante. Mas também posso dizer que cada trabalho tem um modo particular de vir ao mundo, cada um diz um pouco ao que veio. E é assim que penso: bom, isso vai ser feito com Escrita ou com Performance ou com Vídeo ou seja lá com o que for, dependendo do que quero desenvolver”.

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Objeto da exposição "Um teto todo meu", MAC Niterói

A exposição “Um teto todo meu” foi uma das individuais de maior destaque de Daniela. Nela a artista apresentou cerca de 30 obras, em diversos formatos, que lidam com as relações entre o corpo, a escrita e a imagem.

Tendo como forte influência a literatura e a poesia, o título da exposição faz referência ao livro ‘Um teto todo seu’ (A Room of One’s Own, no original), de Virginia Woolf, uma das grandes ídolas da artista.

“Digo que a Virginia é uma das minhas amantes (rs). Encontrar o livro “Um teto todo seu” foi um marco na minha vida. A influência da poesia e da literatura, ou melhor, a importância disso tanto no meu trabalho quanto na minha vida é mesmo de uma potência ímpar, vital, que me fez atravessar muito mais intensivamente meus momentos de estabilidade e de crise. Antes de chegar ao “Um teto todo seu”, eu estava pesquisando o Feminismo, como continuo fazendo até hoje, estudando a teoria, que é importante para ser aplicada, seja macro ou micropolíticamente (me considero uma ativista feminista do dia-a-dia, buscando mudar em mim e nos outros o tanto que ainda precisamos transformar para de fato termos igualdade entre os gêneros, raças, classes, os ditos normais e os ditos loucos, entre as diversas escolhas sexuais, enfim, entre as pessoas, com respeito às suas diferenças e às suas escolhas) e acabei chegando nesse livro da Vírginia, que me ensinou (poetica e literariamente, de um jeito que só quem lê o livro tem a dimensão) que a luta não é uma questão de gênero simplesmente, mas de humanidade. Ela mesma pagou o preço da liberdade de pensamento dela e merece ser lembrada pela sua riquíssima produção literária, ser reconhecida por isso, sempre. Salve Virginia Woolf! E salve tantas outras pessoas que lutam e lutaram por trazer mais poesia, arte, pensamento e vida ao mundo”.

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Make Over - performance, instalação, 2006

Outra obra que se destaca em sua carreira é “Make Over”, por questionar a cultura da beleza e maquiagem. Nesta performance a artista desempenha o papel de uma mulher narcisista e um tanto exagerada que ao maquiar-se sentada em frente a uma mesa e vendo seu reflexo em dois espelhos, não se contém e ultrapassa os limites de onde passar o batom.

No caso do Make Over há uma crítica não apenas à indústria da beleza, mas a um anestesiamento do nosso “saber do corpo” (algo conceituado pela Suely Rolnik), que nos faz ficar cada vez mais normatizados, padecendo de normoses (aquele desejo quase patológico de “ser normal”, de “estar bem” e “caber nos padrões”). Make Over foi um trabalho que fiquei muito tempo sem fazer (entre 2007 e 2015) e quando refiz recentemente, também para a minha exposicão individual “Um teto todo meu”, me dei conta disso, de um jeito ainda mais elaborado. Quando apresentei no MAC de Niterói a vídeo-performance de Make Over, as duas perguntas/comentários foram de crianças, algo que me alegrou muito (até porque que esse trabalho poderia estar classificado como algo mais voltado para um público adulto). O primeiro, um menino, me perguntou se eu me sentia mais forte quando estava toda vermelha, pintada de batom, para o que eu eu respondi que sim, depois de ter me surpreendido com a profundidade e sabedoria daquele comentário. A pergunta feita pela outra criança também era lindamente sábia e simples: “o que você quer quando se pinta toda?” Me transformar em outras, ser muitas, eu disse, ficando grata por aquela maravilhosa e difícil questão que a menina me colocou”.

Para conhecer mais do trabalho de Daniela, acesse seu site www.danielamattos.art.br

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Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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