Artista da Semana

Conheça o universo artistico e transformador de Carlos Martiel

Por Paulo Varella - novembro 14, 2014
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Where My Feet Do Not Reach, 2011 - [O corpo de Carlos (sob efeito de anestésicos) descansa flutuando em um bote]

Nao guardo na memória o dia em que ouvi falar do trabalho de Carlos pela primeira vez (provavelmente tenha sido em alguma roda de conversa com amigos das artes) mas, com certeza, não consigo esquecer do momento em que os visualizei. Seu trabalho é forte, golpeia, nos deixa no chão e não dá nem margem para respiro.

Me interessei bastante e fui atrás do artista para conseguir uma entrevista com ele. Carlos Martiel foi super atencioso durante todo o processo, se mostrou interessado e respondeu de forma gloriosa a todas as perguntas que lhe mandei. Segue abaixo a entrevista.

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Wisdom, 2007 - (Símbolo construido na grama através da retirada desta pelos dentes do artista)

Arte Ref: Levando em consideração uma história da arte ocidental construída em grande parte por homens brancos, como você entende o papel dos outros perfis na produção e reflexão contemporânea?
Carlos Martiel: Meu trabalho Wisdom ((Sabedoria)) envolve desenhos e símbolos no chão que, para os Mali ((Cidadãos do pais africano Mali)), representa sabedoria. A figura que iniciei extraindo da grama ao chão era totalmente desconhecida para os espectadores. Esse trabalho questiona o nível de compreensão sobre culturas não ocidentais. A colonização levou ao encontro e conhecimento do outro, mas, também, levou a invisibilidade e negação das culturas dominadas em um movimento de imposição daquela eurocêntrica ocidental. Este balanço de poderes vem se consolidando através dos anos, isto porque a sociedade contemporânea tem construído diferentes regras de classes. Porém, acredito que agora vivemos em um tempo de transformações e interconexões… reconhecimento, pesquisa e libertação nunca tiveram um papel tão essencial em nossa sociedade. Isso aumentou a recuperação de valores culturais ‘não-centrais’ e a descolonização é imposta em diferentes áreas pelo fato do mundo estar se tornando muiticultural.

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Wisdom, 2007 - (Símbolo construido na grama através da retirada desta pelos dentes do artista)

A.R.: Você acredita que seu trabalho devolva (ou tenha a pretensão de) algo positivo às questões apontadas nele (como no caso dos imigrantes no trabalho Simiente)?
C.M.: Um trabalho de arte o qual pretende questionar sempre traz uma visão positiva da realidade e das questões trazidas, mesmo que estas sejam inconvenientes. Falhar em obedecer os requisitos de uma sociedade tão conformada é algo muito positivo. Em Simiente eu proponho a decomposição e a integração em meu corpo de diferentes identidades que compõe um contexto específico, em favor de uma iluminação da universal natureza humana. Chicago é uma cidade com uma grande população de imigrantes, em minha pesquisa que antecipou o trabalho eu descobri que comunidades são divididas por bairros de uma maneira fragmentada. Em países estrangeiros, a maioria dos imigrantes tendem a viver nas periferias, isto não é nem ruim nem bom, é parte da realidade dos imigrantes.

A.R.: Os limites que mais te atravancam são físicos ou psicológicos?
C.M.: Não consigo definir quais são os meus maiores limites para as coisas que me exponho em meu trabalho, em alguns deles são físicos e em outros psicológicos, ou os dois, depende especificamente do trabalho.

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Simiente, 2014 - [O artista permance deitado em posição fetal sobre o sangue doado por imigrantes]

A.R.: O que é a dor para você?
C.M.: A dor é uma porta que atravessa o meu trabalho, mas não está no centro, como outros limiares que atravessam e destroçam resultando na revelação de um específico conflito. Entendendo este caminho da dor, meu trabalho funciona como uma arqueologia a qual torna visível no campo artístico certos problemas do homem e da sociedade.

A.R.: Você propõe alguma relação religiosa em sua produção?
C.M.: Eu venho de Cuba aonde a religião Yoruba tem uma forte presença. Eu cresci assistindo certos rituais religiosos, os quais em algum sentido são marcados pelo sacrifício e ritualismo natural do meu trabalho. Mas minha saída artística não tem conexão com religião.

A.R.: Qual seu maior medo?
C.M.: Me tornar incapaz de desenvolver minhas idéias e meus trabalhos, coisas que são verdadeiramente o significado de minha vida.

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Spills, 2011 - [O artista permanece deitado em uma poça de óleo com um catéter o qual faz com que seu sangue escorra]

A.R.: Como você e seu trabalho se relacionam com o Estado de Cuba?
C.M.: A primeira coisa que deve ser feita como um estado que se declara justo e humano é proteger o direito de seus cidadãos. Quando esta falha condena, dissidência e inquietação toma conta da população. Todo governo deve aprender com seus erros e reparar a estrutura social, fornecendo assim espaço para a democracia. O trabalho que tenho feito com relação a Cuba possui uma forte critica, revelando a realidade dos cubanos. Meu trabalho tem explorado em doses o abuso de poder, marginalização, isolamento como uma política estratégica, migração e racismo.

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Silent Prayer, 2014 - [O corpo de Martiel é ligado `a parede da galeria por fios de nylon os quais carregam sinos de prata]

A.R.: Qual o papel do som em seu trabalho?
C.M.: Em meu trabalho eu venho repetidamente usando sons mas em diferentes dimensões: sons voluntários que surgem da ação de meu corpo em outro objeto ou mesmo involuntários que vem da biológica ação da existência (algo incontrolável). O segundo caso, este que acho mais interessante, é como no Silent Prayer. Neste trabalho estavam costurados fios de nylon que ligavam minha pele e a parede da galeria. Cada cabo continha sinos de prata (totalizando cerca de 200). Os movimentos involuntários de meu corpo ativavam os sons dos sinos e criavam dessa maneira um harmônico concerto. Neste trabalho eu estava interessado em refletir e dar ênfase na importância dos seres humanos em nosso presente contexto, no qual a economia exerce um papel fundamental no desenvolvimento da humanidade. Vivemos em uma sociedade e estamos irrevogavelmente amarrados num sistema onde ficamos vulneráveis diante das relações de poder que privilegiam organizações e não cidadãos; interesses mentem para manter estável a economia e o poder de pequenos grupos de indivíduos, não a segurança das massas. Neste trabalho usei os som com um lugar central na critica; o ser humano e sua essência.

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Eschar, 2013 [Um indivíduo permanece deitado em cima de Martiel e com isso impede seus movimentos]

A.R.: Qual o real peso que nos impede os movimentos? (Refiro-me ao trabalho Eschar)
C.M.: A maioria dos países latino americanos carrega preconceitos contra comunidades de origem africana em certas regiões. Argentina é um caso particular, o tráfico de escravos inseriu pessoas vindas da África Subsariana e de Cabo Verde, as quais algumas são de províncias vindas de populações do século 18 e 19. Mas tem muitos outros negros em Buenos Aires hoje em dia, a maioria são refugiados de países africanos. Na Argentina tem um mito de que comunidades negras foram dizimadas pela febre amarela, disso surge que eles são isolados e confinados em suas vizinhanças, resultando em uma exterminação de massa.

A.R.: Esta foi uma questão sugerida por uma garota que participa de um coletivo negro: “Na sua obra podemos enxergar um declarado conteúdo político, em que temas como negritude, imigração e guerra são abordados de forma bruta, trazendo a violência da realidade do mundo na sua própria produção. No Brasil, alguns artistas negros como Rosana Paulino e Paulo Nazareth também abordam esses temas com postura crítica, embora com intensidades diferentes. Você acredita que na contemporaniedade,quando vemos na arte tamanha pluralidade, exista alguma constancia entre os artisttas negros?”

C.M.: Eu acho que o discurso racial deve ser transcendido na arte, isso indicaria que a sociedade está evoluindo para uma maior compreensão e menor diferenciação entre humanos. Porque a posição crítica de intelectuais que abordam a questão é a rebelião contra as políticas que têm justificado, se alastrando e perpetuando o racismo. Não se pode virar as costas para as coisas que acontecem, você não pode transcender o que é ainda latente e que afeta certos grupos humanos. É importante visualizar da arte certas questões, para criar uma consciência de mudança coletiva. Atualmente, existem artistas que trabalham com questões raciais, que têm um discurso interessante, incluindo o trabalho de Hank Willis Thomas, Bayete Ross, Glenn Ligon, entre outros.

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Exhumation, 2011 - [O artista se colocou em um túmulo e ficou dando sinais de vida até ser salvo]

A qualidade do trabalho de Carlos não está apenas em sua execução. O artista une a performance ao discurso e cria a potência transformadora máxima da qual a arte é carregada. Todos seus trabalhos tem muito além a dizer, normalmente trazendo questões políticas e sociais. Os trabalhos nos perturba e ficam em nossa mente. Não deixam escapar a realidade dura e difícil que vivemos. Martiel carrega o peso da gravidade em suas costas e faz dele o seu discurso poético. Para conhecer mais de seu trabalho, acesse o site http://www.carlosmartiel.net

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Where My Feet Do Not Reach, 2011 - [O corpo de Carlos (sob efeito de anestésicos) descansa flutuando em um bote]
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Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e colecionadores a melhorarem o acesso no mercado internacional.

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