Tradução de entrevista com Pablo Reinoso

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TH 24, Série Thoneteando, 2007

Originalmente realizada por conta de uma exibição do artista na Art Plural Galllery (instituição de Singapura) e publicada no site artsy, a entrevista nos pareceu interessante por nos mostrar o contato com este artista pouco retratado em nosso país e com interessantes comentários.

Segue introdução e entrevista abaixo:

La cinq, 2010 - 1

TH 09, Série Thoneteando, 2005

Borrando as barreiras entre a arte e o design, o franco-argentino Pablo Reinoso cria esculturas que são, ao mesmo tempo, funcionais e independentes. Trabalhando especialmente com a madeira e com bancos, o artista subverte nossa concepção inicial de assento e nos traz diferentes maneiras de observar este objeto.

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Banc Spaghetti Wall, 2006

Como começou a trabalhar com esculturas?
Quando criança tinha um avô pelo qual eu sentia muito carinho. Ele era um Francês que se mudou para a Argentina após a Segunda Guerra e tinha paixão por carpintaria, fato que o fez abrir sua própria oficina. Eu passava horas por lá nos finais de semana e adorava o lugar. Anos depois, eu realizei uma viagem a Paris para conhecer meus parentes e tive encontros que definiram algumas coisas para mim. No Museu Rodin eu descobri o trabalho de Henri Laurens’ o qual me causou grande impacto e me fez decidido de que queria ser um escultor. Foi então que conheci Jorge Michel, este que se tornou meu mentor na área da escultura. Ele fazia bancos. Eu era fascinado por seu trabalho e técnica e ele passou isso a mim. Porém, me proibi de fazer bancos pois acreditava que era o domínio dele.

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Bendel Beam Bench, 2012

Como você define o design?
Para mim, o surgimento do design foi com os guerreiros de terracota (ou guerreiros de Xi’an). Todas as cabeças foram personalizadas de forma diferente uma da outra mas todo o resto era igual – a primeira produção em massa de um objeto de arte. Quando você faz uma escultura, você faz isso para si. Quando você cria o design de uma casa, é para outra pessoa. Se um cliente pede por uma casa para duas crianças, um casal, dois carros, um cachorro e uma piscina – e você faz uma sem estacionamento e com dois lofts… talvez seu projeto fique fantástico mas você não alcançou os objetivos. Quando eu faço um batom, é um batom. Quando eu faço uma garrafa, é uma garrafa. Tem vários exemplos de designers que erram por quererem fazer ‘arte’. Eles não estão respeitando o funcionamento.

Como e quando você resolvou combinar arte e design?
Eu combino arte e design me conectando com a necessidade do objeto e me libertando desta ao mesmo tempo. Por exemplo, meus bancos funcionam como banco em determinada parte, mas, nas pontas, se tornam livres desta função. No começo eu pensava: ‘Ops, cometi um erro’. Pessoas começaram a me perguntar se aquilo seria um banco ou um trabalho de arte. Para isso eu apenas respondia que havia brincado com as fronteiras. Para que as duas atividades funcionassem em harmonia, eu me esforcei, as entendi e, acima de tudo, entendi o que cada área pedia em meu interior. Artistas constroem um trabalho de arte que satisfaz eles em primeira esfera, e apenas depois o consumidor – na melhor das hipóteses. Mas isso não é um tipo de regra. Nós artistas não temos especificações de uso; nós construímos primeiro e depois entendemos isso. Meu fator diferencial é ter colocado a noção de design no coração do meu eu criativo, coloquei isso como Yves Klein usou o pigmento azul em seu trabalho, ou como Mondrian se utilizou da geometria.

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Tribuna firulete, 2012

Ao escolher design também é escolhido algumas restrições (respeitar as funções, responder à problemáticas relativas ao espaço…). As restrições lhe guiam ou são um obstáculo para você?
Restrições são fantásticas. O escultor é um aliado das restrições. Quando ele escolhe o material de trabalho, ele já impõe para si mesmo algumas limitações. Tem também outros condicionamentos, como, por exemplo, quando eu faço um trabalho ‘site-specific’ e este tem de ser adaptado às características técnicas do local. Estas limitações são positivas pois eliminam possibilidades. De certa forma elas tornam a tarefa mais fácil.

O que as cadeiras e bancos representam para você?
Se você tivesse que escolher um objeto que pertence a humanidade, você escolheria a cadeira. Animais não precisam disso para sentar. E cada cultural humana tem sua própria cadeira. Portanto, a cadeira é um objeto de grande potencial antropológico.
Tenho colecionado cadeiras desde a infância. Em minha vida, é mais perigoso olhar para uma cadeira do que para uma mulher! A cadeira é um objeto de fetiche para um designer e eu tenho sempre me envolvido com esta área. É também um objeto de fetiche para um arquiteto, e eu também me envolvo com a arquitetura. Daí a chegada das cadeiras Thonet ao meu trabalho. A partir do momento que decide introduzir a noção de design ao meu trabalho artístico, eu senti a necessidade de um objeto icônico. Então a cadeira Thonet foi meu primeiro contato com o design industrial. Antes de 1850, ano de invenção da cadeira, não se via noção de design como vemos nos dias de hoje. Assim eu escolhi esse objeto e não qualquer outro que eu consideraria mais fashion.

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Two for tango, 2012

Porque você decidiu criar um quadro se ele não seria emoldurado com uma pintura?
A moldura é aquilo que fica entorno da pintura, é um objeto secundário. Eu queria dizer para essas molduras: desta vez é a sua oportunidade, não há mais pintura, você será a protagonista do trabalho. E seja livre! E como elas são livres? Porque elas são de madeira, e são livres como uma peça de madeira tem de ser: crescendo, saindo das raízes, crescendo para o céu.

Um monte de pessoas vem copiando seu trabalho. Como você lida com isso?
Se eu coloquei algo em um de meus trabalhos, isso não foi um acidente, isso significa algo. Minha arte não é decorativa. Portanto, pessoas podem copiar os gestos mas não os significados. Eu estou abrindo o DNA dos objetos e transformando-os em arte. Se querem realmente me copiar terão que pegar o significado e fazer dele algo próprio.

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TH 11, Série Thoneteando, 2005

Publicação original: artsy.net/post/art-plural-gallery-an-interview-with-pablo-reinoso

Para conhecer mais do trabalho do artista, acesse pabloreinoso.com/

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Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

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