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O Aleijadinho, verdade ou mito? Saiba os detalhes aqui

O maior nome do barroco brasileiro pode nunca ter existido

Por Equipe Editorial - maio 30, 2019
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Uma breve biografia

Há controvérsias sobre sua data de nascimento e detalhes de sua vida, porém, de acordo com grande parte de suas biografias e historiadores, Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho, nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto (Minas Gerais), em 1730.

Maior nome do estilo artístico barroco brasileiro, o escultor, entalhador e arquiteto, tem como base em suas obras a questão da religiosidade, sendo algumas delas: esculturas do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, retábulos e projetos de fachadas de Igrejas. Filho de uma escrava com um imigrante português, Aleijadinho durante sua vida adulta, contraiu uma doença degenerativa e morreu em 1814, em sua terra natal.

Barroco Aleijadinho
Igreja de Bom Jesus de Matosinhos – Esculturas de Aleijadinho

Isso é o que a história nos contou durante décadas. É possível não seja verdade, pelo menos parte do que aprendemos.

O contexto histórico e artístico

Para entender a vida e a questão por trás da veracidade de sua existência, é necessário compreender inicialmente o contexto histórico e literário em que Aleijadinho esteve ligado. No fim do século XVI até meados do século XVIII, temos o período barroco na Europa; onde a arte passou a ser usada fortemente como forma de reafirmar o poder da fé católica ante o avanço do protestantismo e consolidar os poderes monárquicos. É importante lembrar que este estilo está inserido em um contexto de transformações políticas, econômicas e sociais, se situando “no meio” de:

  • Avanços nas técnicas de navegação
  • Descobertas de novos continentes
  • Valorização do racionalismo e da figura do homem

Ao mesmo tempo em que a Igreja Católica buscava:

  • Reafirmar e expandir seu poder
  • Ressaltar a importância de determinados valores na vida

Assim, essa arte, que apresenta elementos estéticos de tendências advindas da França, Itália, Espanha e Portugal, tem como características marcantes o dualismo, forte apelo emocional e riqueza de detalhes.

arte-barroca-Caravaggio
Barroco europeu – Flagelação de Cristo, também conhecida por Cristo na Coluna, é uma pintura a óleo sobre tela do mestre italiano do período barroco Caravaggio que está actualmente no Museu de Belas Artes de Rouen, França

É nesse contexto de transformações na Europa que o barroco brasileiro e Aleijadinho se inserem. Com a chegada dos portugueses ao Brasil, essa arte passa a ser desenvolvida a partir do século XVIII, sendo esse “atraso” justificado pela missão inicial do império português em assegurar a conquista do território nas esferas políticas, econômicas e geográficas. Ao longo desse tempo, a arte brasileira passou a incorporar elementos relacionados à sua realidade interna, tais como:

  • Escravidão
  • Divisão territorial em capitanias hereditárias
  • Influência das ordens religiosas e dos grupos indígenas
  • Configuração econômica particular

Portanto, por fazerem parte de realidades práticas e históricas distintas, o barroco brasileiro e o europeu possuem certas divergências plásticas. No caso do brasileiro, é no estilo rococó (desdobramento do barroco) mineiro que se encontra sua expressão mais original.

A extrema religiosidade popular se expressa em um espírito contido e elegante, gerando templos harmônicos e dinâmicos de arquitetura em planos circulares, decorados em pedra-sabão; as construções monumentais são substituídas por templos de menores dimensões e decoração requintada, mais apropriados à espiritualidade e às condições materiais do povo da região. Temos como expoente máximo desse estilo o Aleijadinho.

Aleijadinho
Barroco brasileiro – Aleijadinho

O barroco possui características intrinsecamente relacionadas ao contexto da Igreja Católica e com as mentalidades dos homens naquele período; os textos, quadros, a arquitetura desse estilo são resultados de expressões, emoções e vivências. Não podemos desvincular a vida da arte nem a arte da vida.

Mas afinal, Aleijadinho existiu ou não?

É a partir do conhecimento da realidade de produção das obras de Aleijadinho, ou seja, do contexto, da quantidade realizada, sua importância histórica, que podemos inserir o debate sobre sua existência ou não.

De um lado, temos fortes evidências que apontam para a existência do artista:

  • Grandes biografias escritas, como as de Rodrigo José Ferreira Bretas e de Sylvio de Vasconcellos
  • Igreja de São Francisco de Assis (um dos exemplos mais notáveis do barroco internacional) e a Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões
  • Conjunto de esculturas Os Passos da Paixão e Os Doze Profetas, da Igreja Bom Jesus de Matosinhos, na cidade de Congonhas do Campo
  • Ruptura em seu padrão estético a partir do diagnóstico de uma doença degenerativa, evidenciado por uma fase antes de sua enfermidade (obras refletiam a alegria de sua juventude) e depois de sua enfermidade (obra triste, amargurada e sofrida)
    • Isso é endossado pelo dermatologista Geraldo Barroso de Carvalho, que em 1998 exumou os restos mortais de um corpo que supostamente era do artista, onde a cor dos ossos sugere que Aleijadinho teria uma doença metabólica chamada porfiria.

Por outro lado, novas pesquisas contestam as evidências apresentadas até então:

  • De acordo com Guiomar de Grammont, doutora em barroco mineiro, em seu livro Aleijadinho e o aeroplano, existiram diversos “Aleijadinhos”, inventados à medida que se deu a construção nacionalista de uma imagem da “arte brasileira” em diferentes contextos, do século XVIII até hoje. 
  • O historiador paulista Dalton Sala é autor de uma tese de doutorado em que afirma que Aleijadinho é um mito criado pelo Estado Novo, comandado pelo presidente Getúlio Vargas. O mito foi criado para a construção da identidade nacional, como foi Tiradentes, sendo um protótipo do brasileiro típico: superou as dificuldades por meio da criatividade. 
  • Ao longo do tempo e sem comprovação, muitas obras foram consideradas de autoria de Aleijadinho. O livro Aleijadinho e sua oficina, dos pesquisadores Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Antônio Fernando Batista dos Santos e Olinto Rodrigues dos Santos Filho contesta a autoria de várias obras atribuídas ao Aleijadinho.

Conclusão

Tem-se, portanto, um debate extremamente interessante sobre a existência ou não de uma figura histórica de grande relevância com ótimos argumentos de ambos os lados. Isso não se limita ao Aleijadinho, figuras como Sócrates e Shakespeare, por exemplo, também possuem polêmicas no que tange esta questão da existência histórica. Assim, precisamos, muitas vezes, refletir sobre nossos posicionamentos e convicções. Por fim, ficam alguns questionamentos:

Para você, Aleijadinho existiu ou não?

Se sim, por que você acredita mesmo com a ausência de documentações concretas sobre sua vida e autoria de boa parte de suas obras?

Se não, por que as biografias, obras com seu estilo único refletidas também pela sua doença, não te convencem?

A figura que nos foi passada representa um homem ou mito? Que implicações a escolha da imagem transmitida pode gerar na história e nos espectadores?

Referências

SIMÕES LINS GOMES, Eunice; SILVA SILVEIRA DA FONSECA, Ramon. Fundamentos do barroco como amálgama da religião e da política (Foundations of the Baroque as an amalgam of religion and politics) – DOI: 10.5752/P.2175-5841.2013v11n31p944. HORIZONTE – Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, p. 944-964, set. 2013. ISSN 2175-5841. Disponível em: <http://200.229.32.55/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2013v11n31p944>. Acesso em: 30 maio 2019. doi:https://doi.org/10.5752/P.2175-5841.2013v11n31p944.

https://aristotelesdrummond.com.br/artigos/aleijadinho-o-artista-que-nunca-existiu/

https://www.tribunapr.com.br/mais-pop/livro-contesta-existencia-de-aleijadinho/

https://arteref.com/arte/aleijadinho-o-maior-nome-do-barroco-latino-americano/

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