5 anos da Carbono Galeria

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Carbono Galeria completa 5 anos e abre uma retrospectiva desse período com 40 obras do seu acervo. Na ocasião será lançada uma edição especial de Abraham Palatnik para celebrar os cinco anos da galeria que também coincide com o aniversário de 90 anos do artista. Pioneiro na arte cinética no Brasil.

Um livro comemorativo aos 5 anos também será lançado durante o período expositivo, com textos de importantes curadores, galeristas, críticos de arte entre outros.

A fotografia revolucionou o mundo da arte, criou um novo paradigma para o conceito de imagem e implicou, definitivamente, a imbricação da arte com a tecnologia. Mais ainda, engendrou, de forma complexa e problemática, a relação entre arte e indústria, e entre arte e mercadoria.

Jac Leirner:Two Four Twelve

A questão da obra múltipla, ampliada com a invenção da foto e do cinema, nos primórdios do século XIX, tornou-se um fenômeno moderno e contemporâneo de larga escala, incitando proposições teóricas mundo afora e ao longo do tempo. A mais influente delas, escrita pelo pensador alemão Walter Benjamin, em 1936, e tida como a primeira teoria materialista da arte1, tinha como eixo a perda da “aura” da obra de arte única, a partir do advento das técnicas mecânicas reprodutíveis. Seus estudos avançaram a questão da massificação da imagem, sua banalização nas sociedades e, a reboque, a perda de seu aspecto ritualístico e seu fetiche. Por outro lado, anunciava um novo espírito, associado ao funcionalismo, sinalizando a potência libertadora da máquina sobre a arte, em relação aos elos que ainda a ligavam ao Belo tradicional e à estética contemplativa. A ideia de que a arte poderia estar inserida no cotidiano da vida dos homens, com apoio da indústria e em conluio direto com o desenvolvimento tecnológico superava, em termos históricos, o problema de uma passível perda da identidade dos objetos e de sua fruição aurática. Benjamin acreditava que a reprodutibilidade da imagem, através dos processos mecânicos, acabaria por multiplicar e difundir o trabalho de arte a ponto de sua consagração, vinculada ao mito do original, ser irrecuperavelmente afetada.

O ápice dessa questão surgiria, porém, trinta anos depois do ensaio benjaminiano, com a Pop Art, que explorou ao extremo o caráter da repetição serial, reduzindo o objeto de arte a uma forma estandardizada. A Pop colou a produção artística à ideologia da reprodução, fazendo com que a arte sucumbisse à determinação da mercadoria. Não sem motivos, críticos como Giulio Carlo Argan consideraram o movimento norte-americano como o ponto terminal do ciclo histórico da arte. Paradoxalmente, porém, e apesar de sua aparente imparcialidade, a Pop criticava o destino patético dos indivíduos regidos pela máquina e pelas sociedades de massa, apontando para a neutralização do sujeito contemporâneo. Roland Barthes diz, inclusive, que os artistas pop realizavam, por baixo dos panos, uma crítica oblíqua ao consumo massivo, á alienação da coisa anônima e aos estereótipos. Para ele, a neutralidade pop traía um significado mais profundo, além de sua inocente superfície e, assim, salvaguardava a metáfora, raiz de toda poesia. E não se pode esquecer que Duchamp, pioneiramente, já antevira a preponderância das imposições mercadológicas, provocando a burguesia e as massas com o estatuto do readymade, um objeto ambíguo por excelência, por aderir e ironizar, ao mesmo tempo, o poder da máquina e a vulgarização dos objetos na modernidade.

Tomie Ohtake:Sem Titulo 2013 foto: Everton Ballardin

Fato é que, passados os estudos de Benjamin, as provocações de Marcel Duchamp e o distanciamento da Pop, decorreram-se oito décadas de debate constante sobre a identidade, a persistência e o valor da obra múltipla, sem que, em momento algum, o original tivesse perdido a eficácia de sua aura. Ao invés, e muito possivelmente, foram os múltiplos que adquiriram uma discreta evidência aurática, contrariando as expectativas do filósofo alemão, e sustentando um discurso denso e autônomo. Mais do que um processo de dessacralização da arte e um abalo na autoridade do “original”, a grande questão do múltiplo continua sendo de caráter político, ao tentar alargar a circulação do objeto artístico, ampliar sua penetração no tecido público, e acionar o processo irreversível de democratização da arte.

Joseph Beuys, artista cuja importância na contemporaneidade é indiscutível, foi um grande fomentador da produção de múltiplos, tendo realizado, ele mesmo, dezenas deles. Nada mais pertinente para quem acreditava que a função da arte era “esculpir” a sociedade. Um ser político por natureza, poética e literalmente, Beuys disse:

“Interesso-me pela distribuição de veículos físicos sob a forma de edições, porque tenho interesse na disseminação das ideias” 2.

Angelo Venosa: Sem titulo 2013

O múltiplo, portanto, não elimina a experiência espiritual da obra única, mas não possui substrato poético menor do que o dito “original”, e ainda guarda a prerrogativa de dar acesso aos trabalhos artísticos a um leque maior de camadas sociais.

Nos últimos cinco anos, a Galeria Carbono, com o empenho e o entusiasmo de Ana Serra e Renata Castro e Silva, sedimentou-se na cidade de São Paulo como um empreendimento devotado a edições, defendendo a obra múltipla como uma prática independente, regida por suas próprias especificidades e livre do servilismo ao gosto dominante e ao mercado. Atuando para dar ao múltiplo a dignidade e o valor merecidos, e já legitimados historicamente, a galeria se impôs pela seriedade no lidar com as linguagens contemporâneas, pelo tratamento dado aos artistas e aos curadores e, sobretudo, pela forma como respeita e contribui para a “disseminação das ideias”. A Carbono tem a consciência de que a obra de arte múltipla é tema explorado na iconografia e no pensamento universal desde a Revolução Industrial, e que jamais poderia se equipar a uma mera mercadoria. Dedicando ao múltiplo a mesma reverência do sistema exclusivista da obra única, assume a multiplicidade como mais um desafio para o criador e suas inquietudes conceituais. A galeria celebra, portanto, cinco anos de êxito e de resistência às posturas conservadoras, que insistem em ver a criação do múltiplo com visão anacrônica e olhos castrados.

Os números não mentem. Nesses cinco anos, a Galeria Carbono promoveu duzentas edições exclusivas, de cento e cinquenta artistas brasileiros, além de ter realizado vinte exposições, e de ter estabelecido intercâmbio com diversas casas de edições internacionais. Renomados artistas e curadores do Brasil e do mundo participaram de suas mostras, numa adesão que traduzia o reconhecimento consciente de seus valores. Desde o início, ficaram claros os padrões profissionais e a seriedade da galeria, a ponto de se poder mesmo dizer que ela, praticamente, já nasceu madura. E aqui não se trata de precocidade, mas, sim, de respeito e compromisso permanente com os processos, veículos e conceitos contemporâneos.

Juan Fontanive: Rubi

Artistas participantes:

Abraham Palatnik, Adriana Varejão, Alfredo Jaar, Almandrade, Ana Holck, Ana Mazzei, Ana Prata, Angelo Venosa, Arnaldo Antunes, Artur Lescher,  Brígida Baltar, Bruno Dunley, Caio Reisewitz , Carlito Carvalhosa, Carlos Bevilacqua, Carlos Fajardo, Carlos Motta, Dalton Paula, Daniel Senise, David Batchelor, Edgard de Souza, Elizabeth Jobim, Emmanuel Nassar, Enrique Ramirez , Ernesto Neto, Fabio Miguez, Felipe Cohen, Gustavo Speridião, Iole de Freitas, Ivan Grilo, Jac Leirner, Jarbas Lopes, Jorge Mayet, José Bechara, José Rufino, Juan Fontanive, Laura Lima, Laura Vinci, Leda Catunda, Lenora de Barros, Lotty Rosenfeld, Marcelo Solá, Marcius Galan, Marcos Chaves, Maria-Carmen Perlingeiro, Marina Saleme, Nazareth Pacheco, Otavio Schipper, Paulo Bruscky, Paulo Monteiro, Paulo Pasta, Raul Mourão, Regina Silveira, Rodrigo Andrade, Romain Dumesnil, Sérgio Sister, Sérvulo Esmeraldo, Shirley Paes Leme, Tatiana Blass, Tomie Ohtake , Tulio Pinto, Vik Muniz, Waltercio Caldas.

Adriana Varejão: Olho Carnívoro

** Abaixo texto completo da curadora Ligia Canongia

SERVIÇO:

5 ANOS DE CARBONO

Abertura: 26 de março, segunda, das 19h às 22h

Visitação: 27 de março, terça-feira a 19 de maio, sábado

Carbono Galeria

Rua Joaquim Antunes, 59 | Jd Paulistano | SP

Horários: segunda à sexta, das 10h às 19h

Sábado, das 11h às 15h

Informações: (11) 4564 8400 | (11) 4564 8300 |  info@carbonogaleria.com.br |

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