O globo da morte de tudo

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Anita Schwartz Galeria de Arte apresenta, a partir de 13 de novembro para convidados e do dia seguinte para o público, a exposição “O globo da morte de tudo”, mesmo nome de um trabalho de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, dois dos mais inventivos e múltiplos artistas da cena contemporânea, amigos e parceiros de filmes e de canções.  Este trabalho ocupará todo o grande espaço térreo da galeria, com 200 metros quadrados de chão e pé direito de mais de sete metros. No segundo andar expositivo, Nuno Ramos mostrará cinco desenhos inéditos da série “Schreber” – tinta a óleo, folhas de ouro e prata, carvão e tecido sobre papel.

“O globo da morte de tudo” é um projeto que vem sendo pensado há dois anos, a partir do ritual da dádiva, da oferenda, existente em sociedades primitivas. O grande salão térreo da galeria abrigará dois globos da morte, em aço, comprados de um circo, e colocados de tal forma que haverá uma interseção de cerca de 60cm entre eles, “formando um oito tombado, o símbolo do infinito”, como explica Nuno Ramos. Estes globos estarão conectados a quatro paredes de prateleiras de aço, com seis metros de altura, onde serão depositados mais de 1.500 objetos, comprados e coletados nos últimos seis meses.

Esses objetos serão agrupados em quatro categorias:

1) Cerveja, que conterá objetos da vida mais imediata e cotidiana;

2) Nanquim, objetos associados à morte;

3) Porcelana, objetos ligados ao luxo; e

4) Cerâmica, a coisas arcaicas e ancestrais.

Cada um desses grupos será perpassado – “atravessado”, como explica Nuno –, por um líquido próprio de cada categoria: cerveja (vida imediata), tinta nanquim preta (morte), uma mistura de talco branco e água (luxo), e barro diluído (vida arcaica). Estes líquidos e estes objetos estarão empilhados em bandejas de vidros planos, formando um frágil equilíbrio, em um forte contraste com a presença agressiva dos dois globos.

Os objetos fazem uma espécie de inventário das coisas que nos cercam, e são tão díspares como um taco de golfe, um baralho, uma cafeteira, livros, fitas cassete, castiçais, celulares, garrafas, muletas, remédios, herbicidas, óculos, vestido de noiva, vaso sanitário, perfumes, colares, ancinhos, chapéus, flautas e flores artificiais.

MOTOCICLISTAS NO GLOBO DA MORTE

Algumas semanas depois da abertura da exposição, em um evento fechado ao público, dois profissionais de circo acionarão as motocicletas dentro dos globos da morte. Com o ruído provocado pelos motores e a trepidação, os objetos despencarão parcialmente das prateleiras e se espatifarão no chão. A exposição terá então dois momentos: o antes e o depois da performance das motos.

Na sala contígua ao salão principal, serão exibidos vídeos em loop com as fichas catalográficas dos objetos, típicas de biblioteca.

DÁDIVA, OFERENDA, ENTREGA

“Eu e o Clima nos interessamos, há bastante tempo, pela questão da dádiva, da oferenda, da entrega, do sacrifício, existente em tribos indígenas”, diz Nuno.  “Há tribos na Nova Zelândia e na Califórnia que têm esses rituais de presentear, como uma competição infinita, para ver quem dá mais”.  O assunto, observa, foi motivo de pesquisas fundamentais realizadas, entre outros, pelo sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss (18721950) – que escreveu o seminal “Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”, de 1925 – e os antropólogos Franz Boas (18581942) e Bronisław Kasper Malinowski (1884-1942).

Ele conta que quando mencionava o seu trabalho para amigos, imediatamente eles davam algum objeto. “Rola uma espécie de paixão de doar que quando começa não se interrompe mais”. Dentre os objetos que estarão na exposição, Nuno colocou todos os seus prêmios e troféus.

FORÇA INICIAL, COSMOGONIA

Em todos os trabalhos de Nuno Ramos está presente uma violência inicial: casas afundando na lama, aviões colidindo em árvores, barcos naufragando. Em 2000, nos trabalhos Marémobília e Marécaixão, ele se valia da baixa e subida da maré para soterrar móveis, e esculturas de compensado e espelho presas à areia por cabos de aço. Neste, agora, o assunto é o próprio acidente, “a força inicial”. “É uma espécie de cosmogonia, de colagem alegórica, um ritual de passagem”, conta o artista.

No trabalho de Eduardo Climachauska há quase sempre uma situação tensa, a iminência de uma ruína, de algo prestes a se desfazer, para que uma nova situação seja configurada. É assim por exemplo nos trabalhos onde cristaleiras são presas ao teto por finas hastes de aço (“Esquerdo”) ou nos guinchos de alavanca tensionados da série “Escorpião”.

SÉRIE SCHREBER, LÃMINA DE VIDRO E VÍDEOS

No segundo andar da Anita Schwarz Galeria de Arte estarão cinco desenhos inéditos de Nuno Ramos da série Schreber, iniciada há cerca de um ano e meio. Elementos geométricos sempre presentes nos trabalhos do artista, como duas retas e duas curvas, ganham uma dinâmica quase figurativa. “Elementos formais passaram a ser também um pouco vocabulário”, diz Nuno. Nos desenhos, estarão frases colhidas do livro “Memórias de um doente dos nervos”, escrito em 1903 por Daniel Schreber (1842-1911), um respeitado juiz alemão que passou a sofrer de surtos psicóticos, e acabou por morrer em um hospital psiquiátrico. “O sol fala comigo com palavras macias”, “eu era o melhor amigo dos raios puros”, “homens feitos às pressas”, “assassinato de alma”, “o sol é uma puta”, “milagres praticados contra mim” são algumas dessas frases. O artista observa que “esta série comunica-se com o trabalho dos globos pela presença destes elementos cosmogônicos,  difusos nas duas salas da exposição”.

Estarão ainda neste andar uma escultura inédita da série “Lâmina”, em lâmina de vidro plano, vidro soprado e vaselina líquida, com 2,06m x 2,06m de tamanho, e, no contêiner do terraço, a partir de janeiro de 2013, será exibido o registro da performance.

NUNO RAMOS E EDUARDO CLIMACHAUSKA: PARCERIA

Amigos e parceiros de longa data, Nuno Ramos (1960, São Paulo) e Eduardo Climachauska (1958, São Paulo) já compuseram juntos diversas canções, nove delas gravadas por Rômulo Froes e uma por Gal Costa, e realizaram três filmes: “Iluminai os terreiros” (2007), “Casco” (2004) e “Para Nelson – Luz Negra” e “Duas Horas” (2002), os dois primeiros com o cineasta Gustavo Moura.

 

Serviço: O globo da morte de tudo

Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio

Abertura: 13 de novembro de 2012, às 19h

Exposição: 14 de novembro de 2012 a 17 de fevereiro de 2013

Entrada Franca

Anita Schwartz Galeria de Arte

Rua José Roberto Macedo Soares, 30, Gávea, 22470-100, Rio de Janeiro

Telefones: 21.2274.3873 e 2540.6446

Horário: 10h às 20h, de segunda a sexta, e das 12h às 18h, aos sábados

Entrada franca

galeria@anitaschwartz.com.br

www.anitaschwartz.com.br

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