Arte

Universo de Torres Garcia

A exposição Joaquín Torres Garcia – 150 anos em cartaz no CCBB se destaca de forma surpreendente pela sua extraordinária obra, representando a vitalidade da arte latino- americana na raiz do construtivismo. O percurso de sua magnífica carreira está registrado nas obras expostas no belo espaço do Centro Cultural reunindo pinturas, aquarelas, desenhos, afrescos, colagens, objetos e documentos todos do período de 1913 a 1943. Tendo a curadoria de Saulo de Tarso e dos bisnetos do artista, diretores do Museu Torres Garcia, de Montevidéu, a mostra busca também criar um diálogo com diversos artistas como Tuneu, Willys de Castro, Cildo Meirelles, Anna Bella Geiger, Alfredo Volpi, Arnaldo Ferrari, Antonio Cabral, Antonio Dias, Aparicio Basílio, Bispo do Rosário, Paulo Octávio, Leda Catunda, Leonilson, Mira Schendel, Mario Gruber, entre tantos que possuem afinidades com o construtivismo e a linha antropofágica brasileira, possibilitando novas interpretações da arte contemporânea. 

Torres Garcia. Foto: José Henrique Fabre Rolim

O visitante se defrontará com obras de forte expressividade, um contato visual enriquecedor podendo aquilatar a verdadeira dimensão do concretismo na sua perfeita harmonia com as leis da natureza, o equilíbrio estético das formas e das cores no grau máximo da sensibilidade geométrica. O conjunto de obras impressiona, além de uma coleção de livros, manuscritos e fotos, apreciar cada detalhe é puro prazer, descobrir o geometrismo em estado puro. 

Torres Garcia. Foto: José Henrique Fabre Rolim

Sobre Torres Garcia

Torres Garcia nasceu em Montevidéu, de mãe uruguaia cuja família era formada por carpinteiros e de pai catalão imigrante, tendo se mudado para Barcelona quando criança, viveu intensamente as diferentes facções da arte concreta no início do século XX, passou certos períodos em Nova York, Paris e Madri. Certa vez disse: ”Eu, no fundo quem sabe seja tão romântico como ninguém mais, porém quero ser clássico”. Todavia com 55 anos, Torres Garcia une as duas filosofias numa combinação revolucionária no conceito do Universalismo Construtivo, baseado numa visão sem paralelo, de uma estrutura unida harmoniosamente a um pensamento metafísico totalmente construtivo. Foi poeta além de pintor e escultor, se envolvendo profundamente nas questões artísticas. Quando atuava em Barcelona, frequentava o famoso café “Els Quatre Gats” tendo conhecido Picasso, os irmãos Julio e Juan Gonzalez e Ramón Casas, como também, Joaquin Mir, Isidro Nonell e Joaquin Sunyer. Fez amizade com notáveis personalidades como o compositor Isaac Albérniz, o arquiteto José Pijoán, o escritor Luis de Zulueta, o poeta Eduardo Marquina e o escultor Manolo Hugué. Colaborou inclusive com Antoni Gaudí na reforma da Catedral de Palma de Mallorca, especificamente os vitrais. 

Torres Garcia. Foto: José Henrique Fabre Rolim

Um movimento que muito o influenciou foi o Noucentismo, fundado pelo ensaista Eugenie D’Ors, que realçava uma visão totalmente catalã do mundo e da vida. Torres Garcia foi um dos seguidores mais fiéis, de Montevidéu a Barcelona, participou dos fluxos vanguardistas na Espanha, nos Estados Unidos, na Itália e na França, sendo um dos protagonistas mais ativos da arte dos novecentos com o Construtivismo Universal. 

A sua obra sempre buscou novas perspectivas analíticas da arte na complexidade estrutural dos conceitos filosóficos propostos nos eternos desafios da criação. O seu traço é arquitetônico, seus desenhos denotam equilíbrio das formas e dos espaços, propondo uma junção de pintura com o ritmo gráfico que incrementa o seu construtivismo, definindo uma linguagem invulgar, caracterizando-se pela objetividade dos resultados estéticos alcançados. No seu percurso artístico certos fatores foram decisivos para a implementação de sua linha de execução artística como seu grande interesse pela arte pré-colombiana, as artes primitivas e a escultura africana. No final dos anos 20 deixa o classicismo mediterrâneo, centralizando seu interesse para o lado instintivo do mágico, a intuição na sua dinâmica, partindo do inconsciente para se aprofundar na consciência. 

Torres Garcia. Foto: José Henrique Fabre Rolim

Nos anos 30, Torres escreve o editorial “Vouloir Construire” na revista “Cercle et Carré” no seu primeiro número onde diz: “Se pensarmos que deveríamos nos reunir é porque lá fora reina a desorientação e a desordem. É para encontrar uma base, para ter certezas. E nossa razão mostrou-nos que essa base é a construção”. O Universalismo Construtivo representa um movimento marcante e revolucionário no seu embrião lançando a semente do construtivismo no continente lalino-americano. Assim dizia o mestre uruguaio “Nuestro norte es el Sur”. 

Serviço

Exposição Joaquín Torres Garcia – 150 anos
Período: de 10/12/25 a 09/03/26
Local: CCBB SP – Prédio Histórico. Rua Álvares Penteado, 112. São Paulo – SP
Aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças
Entrada gratuita
Classificação Livre

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José Henrique Fabre Rolim

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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