Biennalle
Em Veneza, onde a arte costuma fingir que flutua acima das misérias do mundo, quase vinte de pavilhões baixaram as portas — ou parte delas — nesta sexta-feira, 8 de maio. O gesto não foi de tédio nem de preguiça curatorial: foi greve. Uma greve contra a presença de Israel na 61ª Bienal de Veneza, organizada pelo grupo Art Not Genocide Alliance (ANGA), que reúne artistas, curadores e trabalhadores precários do circuito. O alvo declarado é o que chamam de “artwashing” — o uso da cultura para branquear o inaceitável —, mas o incômodo vai além e alcança também as condições de trabalho que sustentam o glamour da maior exposição de arte do planeta.
O holandês Dries Verhoeven, que representa os Países Baixos, posou diante do pavilhão fechado com uma bandeira palestina ao fundo. Não é modéstia: ele se vê como um cavalo de Troia. “Estamos felizes em mostrar nosso trabalho nos outros dias”, disse, “mas queremos discutir o evento de dentro para fora. Pedimos ao público: não aceitem isso.” Verhoeven lembrou o que muitos preferem esquecer: a África do Sul do apartheid foi excluída da Bienal entre o final dos anos 1960 e 1993. A história, aparentemente, só serve de exemplo quando convém.
A lista de adesões é heterogênea e eloquente: Áustria, Líbano, Eslovênia, Egito, entre outros. No total, cerca de 237 pessoas entre artistas, curadores e funcionários participaram de fechamentos totais ou parciais. Na Polônia, o pavilhão baixou as portas entre 16h e 19h. A comissária Agnieszka Pindera explicou que os artistas estavam “profundamente afetados” pela inclusão de Israel e Rússia e queriam dar vazão a emoções que a programação oficial preferia ignorar. O recado é claro: “Não é um sistema sustentável. Não é business as usual.”
Os fechamentos parciais tiveram sabores diferentes. No Arsenale, a instalação multisensorial da artista Hagar Ophir mergulhou na escuridão. O pavilhão do Japão permaneceu aberto, mas silenciou os elementos participativos e sonoros — incluindo a brincadeira de carregar bonecos de bebê pelo espaço. No Líbano, cartazes no chão entregavam o tom: “Estamos com a Palestina porque já sabemos que a destruição da Palestina é a destruição do mundo”.
O artista egípcio Armen Agop, que fechou seu pavilhão por uma hora, falou com a gravidade de quem carrega memórias de genocídio na família. Seu trabalho, Silence Pavilion, trata do tangível e do intangível, do que se escuta quando se cala o ruído. “As pessoas perguntam se a arte pode mudar o mundo. Eu acho que sim”, disse, emocionado.
Do outro lado, o pavilhão israelense é representado pelo escultor romeno-israelense Belu-Simion Fainaru, que se declarou contra boicotes culturais e a favor do diálogo “especialmente em tempos difíceis”. A Rússia, por sua vez, apresentou um programa performático com DJ malinês e ensemble folclórico russo — e seu pavilhão nos Giardini fechará após os previews, sob a sombra de sanções europeias.
A Bienal, como instituição, lavou as mãos com elegância burocrática: informou que as greves não envolvem sua equipe, que tudo está dentro da lei e que reafirma o compromisso com a liberdade de expressão e o pluralismo. Frase de manual para tempos de crise.
Por trás da disputa geopolítica, a ANGA e os sindicatos italianos (ADL Cobas, Unione Sindacale di Base e outros) lembram que a Bienal também se sustenta numa economia de contratos precários, em que muitos não têm sequer o direito formal de fazer greve. A arte, como sempre, é sublime; quem a monta, muitas vezes, não.
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