Mucki Botkay 'Sem título', 2026. Bordado à mão com miçangas sobre tela, 142 x 110 cm, (MCK-0158). Foto: Rafael Salim ; Glauco Rodrigues 1929-2004, Rosa e verde, 1981. Assinada e datada no centro e assinada, datada, titulada e localizada no verso, Acrílica sobre tela, 54 x 44 cm, (GLR-0018). Foto: Ding Musa
A Galatea inaugura duas exposições em São Paulo: ‘Glauco Rodrigues: devorador de imagens’, na unidade Padre João Manuel, e ‘Mucki Botkay: pinturas bordadas’, na Oscar Freire. Duas mostras que apresentam diferentes olhares sobre o Brasil. Enquanto Glauco Rodrigues revisita o imaginário e os símbolos da identidade nacional, Mucki Botkay recria paisagens brasileiras, especialmente da Mata Atlântica e do litoral, em pinturas bordadas com milhares de miçangas.
A mostra reúne 25 pinturas realizadas entre as décadas de 1960 e 1980, incluindo obras inéditas para o público, na unidade da Padre João Manuel. O texto crítico é assinado pelo pesquisador e colecionador de arte Ademar Britto.
Pintor, desenhista, gravador e ilustrador, Glauco Rodrigues dedicou parte significativa de sua produção à investigação da identidade brasileira e à construção de seus símbolos. Em suas pinturas, personagens históricos convivem com banhistas, figuras do carnaval e elementos da fauna e da flora, aproximando diferentes tempos e representações do país. Com humor e ironia, o artista questiona os estereótipos associados à história, aos costumes e à imagem do Brasil. Sua abordagem também permite refletir sobre as disputas em torno dos símbolos nacionais, como a bandeira brasileira, e suas diferentes apropriações políticas.
A seleção percorre diferentes momentos dessa produção. Nas obras dos anos 1960, cenas das praias de Ipanema e personagens do cotidiano carioca aproximam-se da linguagem da arte pop que se desenvolvia na Europa e nos Estados Unidos. Nos anos seguintes, em meio à ditadura militar, a crítica à sociedade brasileira e às suas estruturas políticas e econômicas ganha espaço na obra do artista.
Entre os destaques estão pinturas da série sobre a carta de Pero Vaz de Caminha, realizada em 1971, na qual Rodrigues revisita o relato da chegada dos portugueses ao Brasil, registrado em um dos primeiros documentos escritos sobre o país. A exposição inclui também trabalhos de A Lenda do Coati-Puru, série criada durante a ditadura militar que aborda criticamente a ideia de progresso propagada naquele período.
Reconhecido em vida, Glauco Rodrigues participou de quatro edições da Bienal de São Paulo — a 5ª, a 6ª, a 9ª e a 20ª —, da 32ª Bienal de Veneza e da 2ª Bienal de Paris, além de realizar diversas exposições individuais. Em 2013, sua produção integrou L’Ange de l’Histoire, no Palais des Beaux-Arts de Paris, exposição organizada pelo teórico e curador francês Nicolas Bourriaud que contribuiu para ampliar novamente a visibilidade de sua obra no circuito internacional.
No Brasil, trabalhos do artista estiveram em Histórias brasileiras, no MASP (2022); no 37º Panorama da Arte Brasileira — Sob as cinzas, brasa, no MAM São Paulo (2022); e em Pop Brasil: vanguarda e nova figuração, 1960-70, na Pina Contemporânea (2025). A exposição na Galatea dá continuidade a esse movimento de retomada de sua produção, cinco anos após Glauco Rodrigues: Acontece que somos canibais, apresentada pela Bergamin & Gomide em 2021, ao reunir pinturas de diferentes períodos e evidenciar como o artista mobilizou imagens, narrativas históricas e referências da cultura brasileira para questionar a representação do país.
Com curadoria e texto crítico de Tomás Toledo, sócio-fundador da galeria, a mostra reúne 18 trabalhos realizados entre 2025 e 2026, nos quais a artista transforma paisagens da Mata Atlântica em composições construídas com milhares de miçangas de vidro bordadas à mão sobre tela.
Florestas, manguezais, restingas e outras formações vegetais do litoral do Rio de Janeiro e do sul da Bahia constituem o repertório visual da artista, que observa esses ambientes há décadas. Em suas obras, a vegetação ora ocupa toda a superfície da tela, em composições densas de troncos, raízes e folhagens, ora aparece em detalhes ampliados, nos quais flores, frutos e estruturas orgânicas se aproximam da abstração. A alternância entre diferentes enquadramentos e escalas desloca o olhar do espectador, propondo experiências que vão da imersão na mata à observação minuciosa de seus elementos.
Como destaca Tomás Toledo em seu texto crítico, Mucki não se limita a representar a natureza, mas investiga suas possibilidades formais por meio da cor, da textura e da composição. Ao aproximar-se da vegetação e reduzir as referências espaciais tradicionais da paisagem, a artista faz com que as relações entre formas e cores assumam protagonismo, dissolvendo, em determinados trabalhos, os limites entre figuração e abstração.
Essa pesquisa se articula diretamente à técnica desenvolvida por Mucki, que, após uma trajetória ligada à moda, à estamparia e à experimentação com tecidos, passou a construir suas imagens por meio do bordado com miçangas de vidro. Tingidas segundo a paleta cromática definida pela artista, as pequenas contas funcionam como unidades de cor, enquanto a direção e a densidade dos pontos contribuem para definir formas, volumes e contrastes. O resultado é uma linguagem pictórica que aproxima o bordado da pintura, tanto pela elaboração das imagens quanto pela maneira como a superfície reage à luz e à distância do observador.
“A escolha pelas miçangas e pelo bordado não foi uma decisão repentina; foi algo que aconteceu gradualmente e pelo qual me apaixonei. Amo escolher as cores, mandar tingir cada tom de miçanga e, na montagem, alfinetar cada pedaço enxergando como essa ‘pintura’ vai se realizar. Observo muito cada pequeno detalhe da natureza, fotografo e desenho. Depois, essa ideia vira uma impressão em alta definição, que eu redesenho por cima, marcando cada pedacinho”, afirma a artista.
A execução das obras envolve a colaboração de bordadeiras do Rio de Janeiro, de Ilhéus e de Minas Gerais. Depois de definir os desenhos e as cores, Mucki acompanha um processo inteiramente manual, no qual os conhecimentos técnicos compartilhados integram a construção das imagens. Como observa Toledo, o bordado “não constitui apenas um meio de transposição da imagem, mas participa diretamente de sua elaboração formal”. A técnica, portanto, não é apenas um recurso para representar a paisagem, mas parte essencial do pensamento pictórico da artista.
Entre os destaques da exposição está um tríptico de grandes dimensões inspirado nos manguezais. A multiplicação de raízes, troncos e folhagens cria uma paisagem contínua, marcada pela densidade da vegetação e pela variedade cromática. Em outros trabalhos, a artista aproxima o olhar de elementos específicos, como o cacau, ou explora os padrões concêntricos dos anéis de crescimento da madeira, convertendo estruturas naturais em investigações sobre linhas, superfícies e ritmos visuais.
Ao reunir essas diferentes abordagens, Mucki Botkay: pinturas bordadas estabelece um diálogo com a tradição da representação da natureza na arte brasileira e com a história das artes têxteis. A mostra evidencia como a artista expande as possibilidades da pintura ao incorporar materiais, procedimentos manuais e processos coletivos, criando imagens que oscilam entre a observação do mundo natural e a autonomia da composição.
A exposição dá continuidade à relação de Mucki Botkay com a Galatea, iniciada em 2024 com sua primeira individual no Brasil, Mucki Botkay: janelas imaginárias, na unidade de Salvador. Em 2026, a artista realizou sua primeira exposição individual internacional, na Anat Ebgi, em Los Angeles, e passou a integrar a coleção do Museu de Arte do Rio (MAR). Para 2027, está prevista uma nova exposição na Anat Ebgi, em Nova York.
Sob o comando dos sócios Antonia Bergamin, Conrado Mesquita e Tomás Toledo, a Galatea conta com dois espaços vizinhos em São Paulo, na Rua Oscar Freire, 379, e na Rua Padre João Manuel, 808, além de uma sede em Salvador, na Rua Chile, 22, no centro histórico da capital baiana.
Com foco na arte brasileira moderna e contemporânea, a galeria representa artistas consagrados e novos nomes da cena contemporânea, além de promover o resgate de artistas históricos. Sua atuação parte das trajetórias complementares de seus sócios-fundadores: Antonia Bergamin, ex-sócia-diretora de uma galeria de grande porte em São Paulo; Conrado Mesquita, marchand e colecionador; e Tomás Toledo, curador que integrou o processo de renovação institucional do MASP, onde atuou como curador-chefe até 2022. A Galatea busca aprofundar as relações entre artistas, galeristas e colecionadores, valorizando as conexões que dão vida à arte.
Exposições ‘Mucki Botkay: pinturas bordadas’ e ‘Glauco Rodrigues: devorador de imagens’
Local: Galatea Oscar Freire
Endereço: Rua Oscar Freire, 379 — Jardins, São Paulo, SP
Abertura: 5 de novembro de 2026, quinta-feira, das 18h às 21h
Período expositivo: 5 de novembro a 19 de dezembro de 2026
Horários: Segunda a quinta, das 10h às 19h; sexta, das 10h às 18h; sábado, das 11h às 17h
Instagram: @galatea.art_
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