Fernanda Valadares, NY County Courthouse, 2026. Foto: Flavio Freire. Cortesia Aura
A Aura Galeria apresenta “Khāmoshī”, nova exposição individual da artista Fernanda Valadares, que reúne um conjunto inédito de pinturas, acompanhado do texto curatorial de Priscyla Gomes. Conhecida por uma investigação centrada no uso da encáustica – técnica milenar, baseada na utilização da cera de abelha pigmentada, aplicada ainda quente sobre o suporte – , Valadares adentra nessa nova pesquisa uma paleta radicalmente mais escura, construída a partir de negros profundos.
Na língua persa, uma voz que se cala e uma chama que se apaga podem encontrar-se sob uma mesma palavra: khāmoshī (یشوماخ(. O termo reúne os sentidos de silêncio e quietude, mas também pode designar o desaparecimento de uma luz, e integra um glossário que Fernanda Valadares vem reunindo nos últimos meses, em paralelo à produção das pinturas. A pesquisa começou a partir de palavras encontradas em notícias e manchetes da imprensa internacional e se expandiu para um vocabulário ligado à noite, à sombra, ao voo e à ausência de som. A tradução desses termos conduziu a artista por referências históricas e culturais da civilização persa e pelos desdobramentos geopolíticos que culminaram no atual conflito na região.
De um lado, os horizontes de Ormuz, o estreito marítimo que separa o Irã da Península Arábica e conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Trata-se de uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo: no primeiro semestre de 2025, passaram pelo estreito, em média, 20,9 milhões de barris de petróleo e derivados por dia, volume equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo.
Nas pinturas, entretanto, essa geografia é reduzida ao mínimo. Montanhas aparecem como linhas baixas no limite entre terra e céu, enquanto uma massa negra ocupa grande parte das composições. O petróleo esteve inicialmente presente como matéria e referência direta no processo da artista, mas, ao longo da elaboração dos trabalhos, foi cedendo espaço para uma investigação sobre a própria ideia de noite. O negro, então, é encarado como matéria pictórica, atmosfera densa e campo de tensão.
Do outro lado estão os interiores de tribunais de justiça. Colunas, pórticos, arcos, bancadas e caixotões são organizados em estruturas rigorosas, reconhecíveis como espaços destinados à reunião de corpos, à circulação e à escuta de vozes. Nas pinturas,
porém, esses lugares aparecem completamente vazios e silenciosos.
O contexto em que essas pinturas foram realizadas é parte importante dessa pesquisa. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã teve início em 28 de fevereiro de 2026, com ataques americanos e israelenses ao Irã. Em 7 de abril, durante um impasse relacionado à reabertura do Estreito de Ormuz, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma ameaça de que “uma civilização inteira” morreria naquela noite caso não houvesse um acordo, acrescentando que não desejava que isso acontecesse, mas que provavelmente aconteceria.
As pinturas não procuram ilustrar esses acontecimentos. Em vez disso, foram produzidas dentro de sua temporalidade, absorvendo a instabilidade do presente por meio de uma pesquisa sobre silêncio, escuridão, arquitetura e paisagem.
Para Priscyla Gomes, a produção recente da artista se desloca de uma ideia de beleza como experiência suficiente em si mesma:
“Talvez seja nesse ponto que a produção recente de Fernanda Valadares se afaste de uma ideia de beleza que ela própria passou a considerar insuficiente. Não porque a beleza tenha desaparecido. As pinturas continuam trabalhando com a sedução da superfície, o brilho da cera, o rigor das linhas, a gravidade dos negros, a aparição súbita do ouro ou do vermelho. O que parece se perder é a possibilidade de essa beleza permanecer inocente. Ela já não oferece apenas repouso. Carrega consigo a memória de um calor que pode fundir ou incendiar, de uma arquitetura que pode ordenar ou calar, de uma paisagem que pode ser contemplada ou transformada em corredor de energia e alvo estratégico.”
Fernanda Valadares — Khāmoshī
Local: Aura Galeria
Período expositivo: até 18 de novembro de 2026
Texto curatorial: Priscyla Gomes
Endereço: Rua da Consolação, 2767 – Jardim Paulista, São Paulo, SP
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