A Casa do Olhar Luiz Sacilotto inaugura a exposição individual “Cidades Invisíveis”, da artista visual Corina Ishikura. Com curadoria de Érica Burini, a mostra reúne 38 obras divididas em oito séries que cruzam pintura, trabalhos sobre papel e instalações escultóricas. O projeto toma levantamentos demográficos, cartográficos e dados de cobertura vegetal para investigar as tensões entre o traçado urbano planejado, a memória individual e o desaparecimento progressivo das áreas verdes no território brasileiro.
Após passagem pelo Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) em 2025, a exposição chega a Santo André com novas configurações espaciais e obras inéditas criadas especificamente em diálogo com o imóvel histórico tombado que abriga a instituição.
A pesquisa de Corina Ishikura traduz dados estatísticos — obtidos em bases como MapBiomas e Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF) — em experiências táteis e volumétricas que convocam a percepção corporal do visitante. Em instalações como Pilares desmedidos, a artista utiliza pilares de madeira queimada com alturas proporcionais à densidade populacional de diferentes municípios paulistas, contrastando extremos demográficos e relacionando a escala das peças diretamente ao pé-direito da arquitetura expositiva.
A multiplicidade de suportes e processos é central na mostra: o óleo sobre linho e madeira convive com o papel perfurado a laser, a madeira queimada e a aquarela pigmentada com as próprias cinzas resultantes da queima do papel. Na série de 27 trabalhos sobre papel Há algo sólido no brilho do céu, cada perfuração indica uma cidade, enquanto círculos em aquarela de cinza dimensionam a cobertura vegetal remanescente de cada unidade da Federação. Processo correlato estrutura a instalação inédita Floresta e o conjunto Foi casa, composto por 28 módulos de madeira dedicados aos índices de supressão da vegetação nativa no país.
Em produções recentes de 2026, como as três telas de grande formato da série A poética do espaço (100 × 100 cm) e as pinturas sobre madeira de Para passear, Ishikura expande sua paleta cromática em direção a tons terrosos, aquosos e minerais. Já na série Átrios invisíveis, o vazio e as áreas de respiro atuam como elementos ativos de composição, estimulando a reflexão sobre o silêncio, a desaceleração e o convívio nas metrópoles contemporâneas.
O arcabouço conceitual da exposição estabelece conexões diretas com a literatura. Além do diálogo com o clássico As cidades invisíveis, de Italo Calvino, o trabalho absorve a economia formal e a precisão imagética dos haicais de Alice Ruiz. Graduada em Letras pela Universidade Mackenzie, Corina integra a poética do texto ao seu repertório visual, combinando referências conceituais da arte contemporânea ocidental à contenção espacial e ao respeito aos materiais herdados da cultura japonesa, presente em suas raízes familiares.
A curadoria de Érica Burini pontua como essa economia de elementos constrói uma ética da atenção: os dados cartográficos deixam de ser índices numéricos abstratos para se tornarem perguntas sobre a qualidade do habitar, a preservação ambiental e a desigualdade territorial. A ocupação das salas da Casa do Olhar Luiz Sacilotto potencializa essas questões ao confrontar as obras com a memória construtiva da própria casa histórica e as sucessivas transformações da paisagem do Grande ABC paulista.
Corina Ishikura possui formação complementar em instituições como MAM-SP, Pinacoteca de São Paulo e FAAP, tendo frequentado o ateliê de Kazuo Wakabayashi e participado de residências artísticas na Kaaysá e no Japão (Fundação Mokiti Okada). Sua produção já foi exibida em espaços como MASC (16ª Bienal Internacional de Curitiba), Museu Nacional da República em Brasília, MAC Niterói e MARP.
A curadora Érica Burini é pesquisadora, mestre em História da Arte pela Unicamp, com passagens pelo Instituto Marco do Valle, Ateliê397 e residência internacional junto à rede YBYTU/SAHA em Istambul.
A mostra na Casa do Olhar Luiz Sacilotto integra um circuito de difusão contemplado pelo ProAC Editais e pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com produção da Indri Produções. Após o encerramento em Santo André, “Cidades Invisíveis” circulará pelas cidades de Sorocaba e Praia Grande ao longo do primeiro semestre de 2027, acompanhada de oficinas formativas, visitas mediadas e catálogo com distribuição gratuita.
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