A galeria apresenta, em sua unidade de Ribeirão Preto, as primeiras exposições individuais dos artistas João Bez Batti (1940, Venâncio Aires – RS) e Deli Sampaio (1932, Ribeirão Preto – SP). A programação estabelece um diálogo fértil entre a pesquisa volumétrica e mineral de Bez Batti e a geometria pictórica histórica de Deli Sampaio, destacando dois momentos cruciais da investigação plástica e da síntese formal na arte brasileira.
A mostra de João Bez Batti apresenta vinte esculturas executadas em basalto e bronze, concebidas entre 2024 e 2026, acompanhadas por uma seleção de sua coleção de seixos — acervo que ultrapassa mil peças coletadas ao longo de sua trajetória. A poética do escultor gaúcho se fundamenta na escuta atenta da matéria pétrea. Suas sinuosidades, protuberâncias e transições entre o polimento vítreo e a pedra bruta evidenciam uma relação visceral com o universo mineral e os ritmos ecológicos.
Essa proximidade com a mineralogia se consolidou ainda na infância do artista, às margens do Rio Taquari, onde começou a observar as formas lapidadas pela correnteza. Mais tarde, estabelecido próximo ao Rio das Antas, em Bento Gonçalves, Bez Batti manteve o hábito de coletar seixos e transpor o fluxo hídrico para as suas formas tridimensionais. Ao trabalhar com a densidade e a rigidez do basalto, o artista opera numa temporalidade desacelerada, exigindo perícia e rigor manual para dar vazão tanto a formas terrenas — como visto em Floração, Bólido de Espinhos e Touro — quanto a visões astronômicas, exemplificadas pelas obras Relevo lunar e Planeta arrasado. O basalto atua como vetor entre tempos remotos e o presente, conectando o gesto escultórico aos primórdios materiais da Terra e das primeiras civilizações.
Em diálogo espacial e conceitual, a exposição dedicada a Deli Sampaio reúne aproximadamente vinte pinturas produzidas nas décadas de 1950 e 1960. A artista ribeirão-pretana articula a observação de elementos do cotidiano a uma rigorosa disciplina construtiva. Em suas telas e madeiras, embarcações, píeres, cadeiras, portas e animais são submetidos a uma intensa economia formal, estruturados a partir de retângulos, quadrados e eixos ortogonais que tensionam os limites entre superfície bidimensional e profundidade espacial.
A materialidade é elemento chave na obra de Sampaio: pintadas a óleo sobre madeira, as composições incorporam os veios, as rugosidades e até mesmo perfurações feitas pela própria artista para a fixação na parede. O uso de palha trançada real — material idêntico ao das cadeiras que representa — integra o próprio objeto à superfície pictórica. A aparente precariedade dos suportes e as marcas de desgaste revelam a passagem do tempo como parte ativa da linguagem visual.
Outro eixo expressivo da mostra reside nos retratos e autorretratos femininos. Em meio à cena artística dos anos 1950 e 1960, marcada por hierarquias de gênero, a opção de Deli Sampaio por retratar mulheres e a si mesma desloca a presença feminina da condição de mero motivo figurativo para o centro da subjetividade autoral e do pensamento crítico, antecipando debates fundamentais da história da arte no país.
Ambos os artistas contam com trajetórias consolidadas em importantes polos formadores. João Bez Batti iniciou seus estudos no Instituto Técnico de Desenho e frequentou os ateliês de Vasco Prado e Zoravia Bettiol em Porto Alegre, transitando da madeira ao basalto a partir dos anos 1980 e apresentando retrospectiva marcante nos núcleos do Instituto Moreira Salles nos anos 2000.
Deli Sampaio graduou-se na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro sob orientação de mestres como Quirino Campofiorito, Abelardo Zaluar e Henrique Cavaleiro. Em 1967, foi cofundadora do histórico Ateliê 1104 em Ribeirão Preto, polo coletivo de produção, discussão estética e projeção da arte moderna no interior de São Paulo.
Com essa dupla mostra em sua sede de Ribeirão Preto, a Galeria Marcelo Guarnieri reforça seu compromisso com a pesquisa historiográfica e com a circulação de produções que expandem as fronteiras da visualidade nacional.
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