Exposições e Eventos

Liane Roditi apresenta Dobras e Desdobras no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

O Centro Cultural Correios Rio de Janeiro recebe a primeira exposição individual da artista Liane Roditi, Dobras e Desdobras, com curadoria de Isabel Sanson Portella e abertura em 28 de janeiro de 2026, das 16h às 20h. A mostra reúne 40 trabalhos que investigam as relações entre corpo, memória e matéria, destacando as estruturas de silenciamento, apagamento e objetificação das mulheres. Durante a abertura, a artista realizará a performance Até 120, às 18h30.

A pesquisa de Liane Roditi parte da observação do corpo em movimento e de suas constantes transformações frente às condições impostas pelas estruturas patriarcais. Com formação em dança, a artista compreende o corpo como território de experiência, percepção e memória, utilizando-o como meio de expressão e resistência. Sua prática transita por diferentes linguagens, como performance, vídeo, fotografia, desenho, pintura, escultura e instalação, e articula materialidades diversas, como pedras, cabelos, fibras vegetais, sisal, tecidos e fragmentos do cotidiano, estabelecendo conexões entre o pessoal e o coletivo.

Liane Roditi ‘Dois turnos’

Segundo a curadora Isabel Sanson Portella, “a força da obra de Liane Roditi encontra-se nos desdobramentos, no movimento, na transformação. São delicadezas que revelam a tensão existente entre desgaste e permanência, continuidade e finitude”. O corpo, eixo estrutural de sua produção, aparece como extensão da natureza e da história, carregando marcas, restos e vestígios que se inscrevem na memória.

Sobre a exposição no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

A performance Até 120 (2025) inaugura o percurso expositivo e condensa questões centrais da pesquisa da artista. Nela, Liane Roditi pensa o corpo como um lugar de acúmulo, um espaço onde o tempo se deposita lentamente e onde pesos visíveis e invisíveis se somam ao longo da vida. A ação se desenvolve a partir da repetição e da escolha, do movimento entre manter e soltar, reconhecendo que nem tudo o que nos atravessa precisa ser levado adiante. Há um esforço silencioso em lidar com memórias, afetos, culpas e responsabilidades que se acumulam, muitas vezes sem que se perceba o quanto pesam. “A performance nasce da necessidade de olhar para aquilo que carrego, sem nomear ou classificar, apenas reconhecer”, afirma a artista.

Liane Roditi ‘Até 120’ Performance

Essa dimensão do acúmulo, do esforço e da dissolução também atravessa o vídeo Sal, apresentado por meio de um monóculo instalado na parede. Dispositivo óptico historicamente associado à observação íntima de imagens, como fotografias familiares e registros do passado, o monóculo cria uma experiência concentrada e silenciosa, convidando o visitante a se aproximar do objeto e do conteúdo que ele abriga. No vídeo, a artista caminha pelo mar à noite, iluminada apenas pela luz da lua, entrando na água até desaparecer ao fundo. A ação aborda a dissolução progressiva do corpo feminino, acionando noções de apagamento, silêncio e transmutação. Ao olhar pelo monóculo, o espectador adentra um universo escuro e restrito, acompanhando de perto o desaparecimento do corpo na escuridão, o que intensifica a imersão na performance e reforça a sensação de isolamento e introspecção.

Liane Roditi ‘Gruta’ Fotografia Katy Kamay

O uso de cabelos, da própria artista e de outras mulheres, sisal e fibras vegetais aparece em diferentes trabalhos instalativos que evocam o fazer manual, a ancestralidade e as redes de ligação entre mulheres. Inspiradas por narrativas históricas e simbólicas, como a trajetória de Santa Bárbara e o conto de Rapunzel, essas obras investigam os efeitos do confinamento, do controle e da violência sobre os corpos femininos. Em Ossatura (2026), instalação site specific com 180 metros de fibras trançadas, sisal, cabelos, pedras e elementos orgânicos, Liane Roditi constrói uma estrutura que atravessa o espaço como um corpo em sustentação. O gesto de trançar carrega uma dimensão afetiva e amorosa, mas também remete à sobrevivência e à resistência, como nos saberes das mulheres escravizadas que criavam mapas e escondiam sementes em seus cabelos. Esses elementos operam como camadas simbólicas que atravessam a produção, entre cuidado e aprisionamento.

Liane Roditi ‘Teia Fotografia Mariana Vieira Elek

Entre os trabalhos apresentados, destacam-se ainda Vertebrada (2024), um véu de 18 metros de comprimento confeccionado em tule e voil, bordado com 33 pedras de rio de diferentes tamanhos e tonalidades, e o políptico fotográfico Ocultar Revelando (2023). As fileiras de pedras evocam as vértebras da coluna, eixo central do corpo, estabelecendo um paralelo simbólico com o peso historicamente sustentado pelas mulheres, uma carga que se acumula ao longo de um percurso socialmente esperado. “Tempo e memória atravessam esse processo”, aponta a artista, destacando também o interesse por linhas, formas e pelos contrastes de luz e sombra, que intensificam as noções de ocultamento, apagamento e dissolução do corpo feminino.

Em Campo de Forças (2025), instalação composta por esculturas de fragmentos do corpo moldados em gesso pedra e fixados diretamente na parede, instala-se uma tensão em suspensão. Não se sabe se esses corpos estão sendo sugados pela superfície ou se tentam emergir e atravessá-la. Os gestos habitam um campo ambíguo entre delicadeza e tensão, dualidade recorrente na obra de Roditi. A relação com a parede, com vórtices e com partes do corpo que emergem da superfície dialoga diretamente com o conto O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, referência fundamental para a artista, especialmente nas questões ligadas ao casamento, ao controle e ao apagamento dos corpos femininos.

O espaço expositivo é configurado com iluminação de baixo contraste, direcionada às obras, reforçando o uso do claro-escuro como elemento compositivo e criando uma atmosfera intimista e onírica. As instalações utilizam fibras, sisais e pedras que atravessam o espaço, contornam objetos e estabelecem linhas contínuas entre chão e paredes. As pedras funcionam como pontos de ancoragem, peso e memória, articulando temas como permanência, resistência e esforço físico e histórico, além de sugerirem rastros e trajetórias femininas frequentemente invisibilizadas.

Ao longo de Dobras e Desdobras, a articulação entre vídeos, objetos, performances e instalações transforma o espaço em uma composição contínua entre corpo e matéria. “Nada é mais importante do que compreender as dualidades”, afirma Isabel Sanson Portella. “Nada nos representa mais do que o entendimento do nosso corpo como extensão da natureza. O corpo existe também nos restos, nos vestígios, e fica inscrito na memória.” A exposição propõe, assim, um percurso de desafios e escolhas, um mergulho em vozes e silêncios, desenvolvendo e desdobrando questões que o tempo e a sociedade insistem em apagar.

Sobre a artista Liane Roditi

Liane Roditi (1967), carioca, bailarina e artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro, Brasil. Graduada em Dança pela Faculdade da Cidade, estudou na Escola de Belas Artes da UFRJ e frequenta cursos regulares na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Participou de exposições coletivas, entre elas Encontrar a Solidez, na Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, com curadoria de Bruna Costa (2025). Foi selecionada pela Chamada Aberta da Apexart, em Nova York (EUA), para a mostra The Uterus is also a Fist (2026), com curadoria de Talita Trizoli e Renata Freitas, junto ao coletivo GAF. Sua trajetória inclui também participações em residências artísticas, com destaque para a temporada no Vermont Studio Center, em Johnson, EUA (2024).

Serviço

Exposição: Dobras e Desdobras
Artista: Liane Roditi
Curadoria: Isabel Sanson Portella
Abertura: 28 de janeiro de 2026, das 16h às 20h
Performance: Até 120, às 18h30
Período expositivo: até 14 de março de 2026
Local: Centro Cultural Correios Rio de Janeiro
Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro
Visitação: terça a sábado, das 12h às 19h
Entrada franca

Paço Imperial inaugura a exposição “Gilberto Salvador – Geometria Visceral” e traz obras táteis

Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi bem sucedida.
Equipe Editorial

Os artigos assinados pela equipe editorial representam um conjunto de colaboradores que vão desde os editores da revista até os assessores de imprensa que sugeriram as pautas.

Recent Posts

O que faz um artista vender?

“O que faz um artista vender?”: a pergunta que movimenta artistas, estudantes, consultores, galeristas e…

5 horas ago

Casa Triângulo recebe mostra ‘Jardim Flamejante’, de Rafael Chavez, inspirada na caatinga paraibana

Casa Triângulo inaugura em 24 de janeiro de 2026 a exposição Jardim Flamejante, primeira individual…

2 dias ago

Pinacoteca de São Bernardo do Campo apresenta individual de Daniel Melim

A Pinacoteca de São Bernardo do Campo apresenta, entre os dias 31 de janeiro e…

3 dias ago

Zipper Galeria recebe a 17ª edição do Salão dos Artistas Sem Galeria

A Zipper Galeria recebe, entre 17 de janeiro e 28 de fevereiro, a 17ª edição…

1 semana ago

Exposição ‘Joaquín Torres García – 150 anos’ no CCBB São Paulo

O CCBB São Paulo (Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo) apresenta a exposição Joaquín…

1 semana ago

Museu do Inhotim está na lista do The New York Times entre os melhores destinos para visitar em 2026

O Museu do Inhotim, localizado em Brumadinho (MG), representa o Brasil na lista de 52…

1 semana ago