Andre Mogle
Há uma ironia de trajeto em André Mogle. Conhecido pelo pulso largo do grafite paulistano e por espalhar seu melancólico “homem-planta” por muros do Brasil e da Europa, o artista recolheu-se. Depois de um ano atravessando geografias, Mogle estacionou diante da tela em branco não para somar ruído ao debate público, mas para tatear o que escapa ao dicionário.
O resultado é O que não sei dizer, exposição em cartaz no Jardim América com curadoria de Renata Rocco. Na esteira de mostras anteriores como Lar e Água Corrente, a nova safra de pinturas abandona a urgência urbana em favor de uma suspensão quase terapêutica. São telas habitadas pela figura de rosto esverdeado do artista — uma espécie de avatar da vulnerabilidade — lidando com pesos domésticos, balanças invisíveis e o descompasso das horas.
A curadora acerta ao evocar a diferença cardeal entre solidão e solitude. Enquanto a primeira corrói, a segunda elege-se. Há nos quadros de Mogle — títulos à parte, como A Liberdade é Solitária ou A Chuva Passa — a coragem de quem aceita estar a sós sem pedir desculpas pelo silêncio. Numa época em que a praça pública digital exige opinião sobre absolutamente tudo, Mogle faz da pintura um refúgio analógico: um lugar onde a resposta correta para o caos do mundo é, simplesmente, fechar a cara verde e respirar.
Como ressumou o próprio pintor diante do cavalete, para quem a palavra gagueja, só a arte dá conta do recado.
Serviço
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