Exposições e Eventos

Paris Noir: Uma Cartografia da Resistência e da Circulação Artística no Pós-Guerra

Paris Noir – Artistic Circulations and Anti-colonial Resistance, 1950-2000 é uma das exposições mais ambiciosas apresentadas pelo Centre Pompidou antes de seu fechamento temporário. Reunindo cerca de 150 artistas da África, Caribe e Américas que viveram, circularam ou atuaram em Paris entre as décadas de 1950 e 2000, a mostra, curada por Alicia Knock, propõe uma abordagem polifônica, transnacional e profundamente política da história da arte no contexto pós-colonial.

Ao invés de seguir uma linha narrativa simples, Paris Noir constrói um percurso denso, onde vozes, redes e deslocamentos se entrelaçam. A curadora destaca que a exposição não pretende oferecer respostas definitivas, mas sim abrir espaços de escuta e múltiplas interpretações sobre como essas trajetórias artísticas moldaram – e continuam moldando – noções de identidade, solidariedade e emancipação.

Roland Dorcély, Leda et le cygne, 1958. Rights reserved. Photo: © Centre Pompidou, MNAM-CCI/Janeth Rodriguez-Garcia/Dist. GrandPalaisRmn

No cerne da mostra estão movimentos como a Negritude, liderada por figuras como Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, e o pensamento poético-filosófico de Édouard Glissant. O projeto revela como Paris funcionou como um polo de encontro e efervescência intelectual para artistas, escritores e ativistas negros durante o século XX. Momentos-chave, como o Congresso de Artistas e Escritores Negros de 1956, são revisitados como marcos de articulação entre arte, política e pensamento decolonial.

A exposição também mergulha na complexa relação entre Paris e outras cidades como Dakar, Lagos e Argel, traçando os caminhos dos artistas que, após viverem na capital francesa, retornaram ao continente africano para fundar escolas, ateliês e redes culturais. Essa dinâmica reforça a ideia de Paris não como um centro fixo, mas como um lugar móvel, de trânsito e tradução.

Além das referências históricas, Paris Noir se posiciona como um gesto de crítica ao apagamento sistêmico dessas narrativas dentro das instituições francesas. A mostra não celebra Paris como centro colonial, mas questiona e reimagina seu papel a partir das margens. Os diálogos com o modernismo europeu – e com artistas como Matisse e Léger – não são reverenciais, mas muitas vezes críticos, desafiando e ressignificando os cânones eurocêntricos.

Há também um caráter urgente e político na concepção da mostra. Ao abordar os efeitos do colonialismo e da extrema-direita na França contemporânea, Paris Noir aponta para o presente e o futuro. O projeto propõe que a diplomacia cultural pode ser uma ferramenta de resistência e reinvenção identitária, especialmente em um momento em que o revisionismo histórico e o nacionalismo ganham força.

Paris Noir é mais que uma exposição: é um programa. É um convite à continuidade — a que museus, universidades e instituições colaborem, que pesquisadores se debrucem sobre essas trajetórias, e que múltiplas exposições e narrativas brotem a partir dela. Como afirmou Alicia Knock, “esse show é um mapa”. Um mapa que precisa ser explorado, debatido e expandido.

Leia também – Jack Whitten: The Messenger – A Grande Retrospectiva no MoMA

Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi bem sucedida.
Maria Paula Borela

Recent Posts

As novas regras do governo para o mercado de arte.

O mercado de arte brasileiro vive uma transformação profunda. Durante décadas, o setor cultivou a…

12 horas ago

Enoque vai ao centro da Terra, exposição na NND | AZECO SP

A NND | AZECO SP inaugura no sábado, 22 de agosto, exposição concebida e curada…

16 horas ago

SP-Arte Rotas 2026 amplia diálogo com América Latina em sua 5ª edição

A SP-Arte Rotas chega à sua 5ª edição com 70 galerias de arte, além de…

16 horas ago

Demons in Fragile Bodies: dois modos de pintar o corpo

"Demons in Fragile Bodies", é a exposição apresentada pela NND | AZECO, com curadoria de…

16 horas ago

Nair Benedicto lança spin-off de expedição ao São Francisco

"…na boca da noite…", novo livro de Nair Benedicto, reúne 30 fotografias realizadas entre 2018…

17 horas ago

Artes Visuais no Cultura Artística, em São Paulo

As Artes Visuais ganham um primoroso espaço com a primeira edição ABERTO Solo que acontece…

20 horas ago