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Mulheres em foco, arte e questões de gênero

Durante muito tempo, eu diria até primeira década do século XX, ao menos, ter repertório literário, saber pintar, desenhar, tocar piano e ter sensibilidade para as artes eram considerados pré-requisitos fundamentais para uma boa moça de sociedade. Jane Austen ilustrou isso muito bem em suas obras. Em Orgulho e Preconceito, uma velha dama da sociedade ao ser apresentada a jovem Elizabeth, protagonista da história, lhe faz o seguinte interrogatório: suas irmãs todas cantam e tocam? Por que todas não aprenderam? Sabem desenhar? Como? Nenhuma de vocês? Sua mãe deveria tê-las levado à cidade em todas as primaveras para que se aperfeiçoassem.

Outras obras e estudos de diferentes épocas mostram também como as mulheres eram estimuladas a adotar a expressão artística como passatempo, e nada mais do que isso, e o grau de erudição que uma moça demonstrava ao freqüentar a sociedade era sinal, e deveria se condizente, com a posição social que seu marido ou família ocupavam.

Todo este estímulo, estudo, desenvolvimento de técnica e percepção gerou, indiscutivelmente, uma produção artística protagonizada por mulheres. Para onde foram todas essas obras? Quem catalogou seu valor histórico ou estético para cronologia da arte? De tempos em tempos estas questões são recolocadas. Estigmatizadas a priori como “amadoras”, as mulheres artistas tiveram suas obras silenciadas, invisibilizadas no ambiente doméstico, assim como suas próprias vidas, eu arriscaria dizer.

Publicado em 1971, o artigo “Por que não existiram grandes mulheres artistas?”, de Linda Nochlin, historiadora da arte da Universidade de New York, é considerado por muitos estudiosos da área o precursor das discussões sobre as diferenças de condições de produção  e de critérios de julgamento das obras feitas por homens e mulheres. Nos anos 1980, jovens artistas de New York ( ou feministas? Ou artistas feministas?) fundaram o  grupo Guerilla Girls, cuja obra mais conhecida, ou obra-manifesto, é um cartaz que diz “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum? Menos de 4% dos artistas das seções de arte moderna são mulheres, mas 76% dos nus são femininos.”

Em 2004, a Pinacoteca montou a exposição “Mulheres pintoras, a casa e o mundo”, com as obras dessas mulheres que no Brasil do século XIX haviam estudado arte com tutores particulares em casa, com seus próprios familiares ou na Europa, e embora fossem proibidas de se matricular em instituições de arte no Brasil, ousaram apresentar seu trabalho em salões oficiais e exposições anuais organizadas pelas academias de Belas Artes. Quem não viu a exposição pode passar o olho pelo catálogo, cujo volume de nomes e obras apresentadas evidencia que existia sim, e segue existindo, uma produção artística de autoria feminina com continuidade no Brasil.

Também em 2004, a Ana Paula Simioni apresentou o levantamento realizado para sua tese de doutorado em cima dos arquivos de catálogos das exposições da Academia Imperial, a mais importante instituição de arte no Brasil Império, que com o fim da monarquia passou a se chamar Liceu Nacional de Belas Artes. A pesquisadora listou que 212 mulheres atuaram como artistas plásticas entre 1884 e 1922. Como ela mesma comenta, as modernistas não vieram do nada, embora os nomes de suas antecessoras protagonistas da produção artística brasileira tenham se perdido quando a “história oficial” foi escrita, delegando às mulheres o status máximo de “amadoras com muito talento”.

Faço todo esse pequeno panorama para mencionar o esforço mais recente que encontrei na tarefa de suscitar a discussão sobre as questões de gênero na arte. Uma edição recente do folder educativo Para Saber Mais, publicado pela Pinacoteca, sugere aos visitantes um passeio pelo acervo do museu orientado por uma visão de gênero, buscando refletir sobre o percurso de liderança e participação social feminina a partir de como a mulher está representada nas obras de arte. Intitulado “Mulheres em foco, o papel de liderança e participação da mulher por meio da arte”, o material foi planejado com base no programa da ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas criada em 2010 para estimular a igualdade de gênero e empoderamento das mulheres.

Embora não aborde a questão da autoria feminina, o folder suscita reflexões sobre o quanto a representação da mulher nas obras de arte pode demonstrar a repressão ao corpo feminino ao longo da história, como as cenas captadas trazem às claras situações cotidianas de liderança feminina e também questionam o fato de que muitas dessas modelos estavam neste papel de posar para artistas justamente por suas posições e atitudes libertárias,  inadequadas em relação ao que se projetava como o papel da mulher na época. Vale uma visita.

Por Samanta Dias

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