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O Retorno do Artesanato na Arte Contemporânea

Em um mundo saturado pela produção industrial e pela efemeridade digital, o ressurgimento do artesanato na arte contemporânea emerge não apenas como uma tendência estética, mas como um ato de resistência. O artesanato, historicamente relegado à sombra da “alta arte”, agora desafia as fronteiras estabelecidas, questionando o que significa criar em uma era de reprodução mecânica. Para um público já imerso nas nuances da arte contemporânea, este retorno não é uma mera nostalgia, mas uma provocação: o que o fazer manual revela sobre a condição humana que a arte conceitual, por vezes, obscurece?

A arte contemporânea, com sua multiplicidade de mídias e abordagens, encontra no artesanato uma forma de reconectar-se com a materialidade e a autenticidade. Artistas como Sheila Hicks, que entrelaça fibras têxteis em instalações monumentais, ou Grayson Perry, cujas cerâmicas narram histórias sociais e políticas, exemplificam essa fusão entre o tradicional e o inovador. Este texto explora como o artesanato, longe de ser um anacronismo, se torna um veículo para a crítica cultural e a experimentação estética.

1. Histórico do Artesanato e sua Relação com a Arte

Antes da Revolução Industrial, o artesanato era a essência da criação artística, uma prática onde forma e função se entrelaçavam. Com a ascensão da produção em massa, no entanto, o artesanato foi marginalizado, visto como uma relíquia de um tempo pré-moderno. A arte, por sua vez, abraçou o conceitual, muitas vezes desdenhando o manual como mero ofício.

Contudo, o final do século XX testemunhou uma reviravolta. Movimentos como o Arts and Crafts de William Morris já prenunciavam uma revalorização do fazer manual como resposta à desumanização industrial. Hoje, artistas contemporâneos como Theaster Gates, que revitaliza comunidades através da cerâmica, ou El Anatsui, cujas tapeçarias de metal reciclado transcendem a utilidade, reabilitam o artesanato não como um retorno ao passado, mas como uma afirmação do presente.

Grayson Perry. Um vaso de cerâmica decorado com imagens detalhadas que contam histórias sobre temas sociais e políticos.

2. Motivos do Retorno do Artesanato na Arte Contemporânea

O retorno do artesanato na arte contemporânea é multifacetado. Primeiro, há uma busca por autenticidade em um mundo de simulacros. O trabalho manual, com suas imperfeições e singularidades, contrapõe-se à esterilidade da produção em série. Artistas como Magdalene Odundo, com suas cerâmicas que evocam tradições africanas, celebram a unicidade do objeto artesanal.

Segundo, o artesanato resiste à homogeneização cultural imposta pela globalização. Em um contexto onde a padronização estética é a norma, técnicas tradicionais como o bordado ou a tecelagem tornam-se atos de preservação identitária. O coletivo indígena Ka’apor, por exemplo, utiliza o artesanato para reafirmar sua cultura em face da colonização cultural.

Terceiro, o artesanato permite a exploração de novas formas de expressão. Artistas contemporâneos não apenas revivem técnicas ancestrais, mas as subvertem. A obra de Yinka Shonibare, que utiliza tecidos africanos em esculturas que questionam o colonialismo, exemplifica essa hibridização.

Por fim, o artesanato serve como comentário social e político. Em uma era de consumo desenfreado, artistas como Liza Lou, que cria instalações com miçangas para criticar o trabalho exploratório, utilizam o fazer manual para abordar questões de sustentabilidade e justiça social.

3. Exemplos de Artistas e Obras Contemporâneas

Diversos artistas contemporâneos incorporam o artesanato de maneira inovadora. Na tecelagem, por exemplo, artistas como Diedrick Brackens criam tapeçarias que narram histórias de identidade queer e racial, enquanto na cerâmica, Roberto Lugo mescla grafite e porcelana para discutir classe e raça.

Uma obra emblemática é “The Dinner Party” de Judy Chicago, uma instalação que utiliza cerâmica e bordado para celebrar figuras femininas históricas, desafiando a exclusão das mulheres na arte e na história. Outro exemplo é a série “Mended Spiderwebs” de Nina Katchadourian, que repara teias de aranha com linha, questionando a intervenção humana na natureza.

The Dinner Party é uma obra de instalação da artista feminista Judy Chicago. Considerada amplamente como a primeira obra de arte feminista épica, ela funciona como uma história simbólica das mulheres na civilização.

Essas obras não apenas empregam técnicas artesanais, mas as elevam a um patamar conceitual, onde o processo manual se torna parte integrante da mensagem artística.

4. Impacto Cultural e Social do Retorno do Artesanato

O retorno do artesanato na arte contemporânea tem implicações culturais e sociais profundas. Ele valoriza tradições culturais, preservando saberes ancestrais em um mundo que os ameaça com o esquecimento. Ao mesmo tempo, cria novas formas de arte, expandindo as fronteiras entre o que é considerado “arte” e “artesanato”.

Além disso, o artesanato conscientiza sobre questões sociais e políticas. Artistas como Tania Bruguera, com seu projeto “Immigrant Movement International”, utilizam práticas artesanais para empoderar comunidades marginalizadas, transformando o fazer manual em um ato de resistência política.

Sheila Hicks

Fontes Bibliográficas

  • Benjamin, Walter. A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
  • Sennett, Richard. O Artífice. Rio de Janeiro: Record, 2009.
  • Morris, William. Arts and Crafts Essays. Londres: Longmans, Green, and Co., 1893.
  • Hicks, Sheila. Weaving as Metaphor. Nova York: Yale University Press, 2006.
  • Perry, Grayson. Playing to the Gallery. Londres: Penguin Books, 2014.
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Paulo Varella

Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e colecionadores a melhorarem o acesso no mercado internacional.

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