Casa-ateliê Tomie Ohtake. Foto: Instituto Tomie Ohtake
A Casa-ateliê Tomie Ohtake (1913-2015), localizada no Campo Belo, em São Paulo (Rua Antônio de Macedo Soares, 1800), projeto de seu filho Ruy Ohtake (1938-2021), surpreende o espectador com os detalhes, da concepção estética que enaltece o equilíbrio das formas aos espaços de convivência.
A casa teve três etapas de construção. Em 1966, a casa ocupava um lote retangular e o jardim no meio da quadra, em 1982, o terreno vizinho foi adquirido ampliando a cozinha, a sala de jantar foi deslocada para um espaço voltado para o jardim e uma biblioteca foi concebida para Ricardo Ohtake. Em 1996, surge um novo ateliê para Tomie Ohtake e uma reserva técnica. O pé-direito dessas áreas teve uma elevação frente ao restante da construção. A visão para o jardim unifica o projeto, sendo a claraboia de vidro e metal o elemento essencial para a entrada da luz natural, o efeito é excepcional.
A casa, que foi residência da artista por 45 anos, acolhe o visitante pela harmonia dos espaços, cada canto guarda uma história, a convivência de Tomie Ohtake com a sua arte, suas tintas, suas telas, seus estudos, a energia da criatividade acoplada a uma claraboia a iluminar um projeto arquitetônico estimulante, um encontro dos elos a fortalecer a reflexão e o prazer de tempos vividos e projeções futuras de descobertas.
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A exposição “Ruy Ohtake – Percursos do habitar” que ocupa a residência-ateliê apresenta seis projetos residenciais desenvolvidos pelo arquiteto entre as décadas de 1960 a 2010: a da Casa-ateliê Tomie Ohtake (1966), a Residência Chiyo Hama (1967), a Residência Nadir Zacarias (1970) a Residência Domingo Brás (1989), a Residência Zuleika Halpern (2004) e o Condomínio Residencial Heliópolis (2008-2009), conhecido como Redondinhos, erguido na maior favela da cidade. Um percurso significativo em propostas inovativas como a integração do espaço da casa como um núcleo cultural que recebe exposições, encontros e atividades públicas. Vídeos com depoimentos de lideranças de Heliópolis abordam aspectos do cotidiano, evidenciando a dimensão social da arquitetura de Ohtake e sua relação com a coletividade. Maquetes, fotografias e croquis possibilitam a compreensão do processo criativo das obras. O conjunto enaltece a reflexão do arquiteto sobre o habitar na trama urbana, projetando a escala doméstica em diversos contextos históricos.
A curadoria destaca o conceito de casa-praça, recorrente na obra do arquiteto. As áreas coletivas são ampliadas e os ambientes íntimos reduzidos, enquanto a luz com os jardins internos e os recuos organizam a circulação entre interior e exterior. A relação com a integração dos espaços permite vislumbrar aspectos estéticos marcantes, um ritmo de estratégicas luzes naturais que envolvem o ambiente propiciando olhares cinematográficos. Com curadoria de Catalina Bergues e Sabrina Fontenele, a exposição apresenta residências projetadas por Ruy Ohtake em detalhes técnicos, uma panorâmica bem esclarecedora.
A casa não tem portão, o visitante se defronta diretamente com uma galeria, as paredes são enriquecidas com obras de artistas consagrados como Anna Bella Geiger, Volpi, Carmela Gross, Le Corbusier e Kimi Nii. Trabalhos de Tomie e maquetes de suas obras públicas estão espalhadas pelo espaço.
A casa já recebeu figuras ilustres das artes e da cultura em geral como o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, o Nobel de Literatura José Saramago (2008), ocasião em que participou de uma exposição no Instituto Tomie Ohtake e a artista Yoko Ono (2007), que realizou uma exposição no CCBB.
A biblioteca da casa acrescida em 1982, como a sala de jantar, abriga grande parte do acervo da família, formada por livros de música, arquitetura e design além de títulos diversos compondo um ambiente que traduz o espírito criativo e universal da artista e de seus dois filhos Ruy e Ricardo.
O arrojado projeto arquitetônico da residência é um local excepcional para eventos culturais, que ampliará as perspectivas de apreciação da arte nas suas mais diversificadas linguagens incrementando a prestigiosa atuação do Instituto como referência expositiva museológica no panorama cultural da cidade. A casa-ateliê é um espaço integrado à programação do Instituto Tomie Ohtake, que completará 25 anos em novembro, a comemoração ocorrerá no próprio antigo ateliê como na sede principal localizado em Pinheiros. Os eventos programados para este ano são extremamente representativos como a residência da pintora e escultora japonesa Leiko Ikemura, que exporá suas peças no espaço, e mostras do arquiteto e designer Zanine Caldas (1919-2001) e do artista Vick Muniz.
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