'Logunede na cachoeira' da série Narrativas de Abebe com Ofa. 2026. Ayrson Heraclito
A Simões de Assis inaugura, dia 8 de agosto,em São Paulo, a exposição individual Ojú-Inú, de Ayrson Heráclito, com texto crítico de Hélio Menezes. Em cartaz até 12 de setembro, a mostra reúne cerca de 30 obras entre esculturas, aquarelas, fotografias e vídeos, com trabalhos inéditos. O artista também participa da 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, “In Minor Keys”, até o dia 22 de novembro de 2026.
Em iorubá, Ojú-Inú significa “olho interno”, expressão empregada pelo historiador da arte Rowland Abiodun para descrever o tipo de percepção estética e espiritual que orienta os artistas iorubás na criação de suas obras, permitindo captar a essência, o caráter e os axés de cada tema. É a partir dessa chave, compartilhada pelo próprio Ayrson Heráclito, que a exposição organiza um conjunto de trabalhos atravessados pela cosmologia afro-brasileira e pelas referências rituais que estruturam toda a sua produção.
A mostra reúne 30 obras em um panorama amplo da produção recente do artista, entre esculturas, aquarelas, fotografias e vídeos, são elas: “Juntó” – série de esculturas e aquarelas –, “Inventário”, “Black Atlantic”, “Espada de Ogum”, “Marcas de identificação em caixas de açúcar da Frota de 1702” e “Oríkìs de Instrução” – série apresentada em fotografia e vídeo –, com sala de vídeo dedicada exclusivamente ao trabalho.
O corpo, os elementos rituais do candomblé e as conexões entre o continente africano e as diásporas negras nas Américas seguem como eixos centrais da pesquisa de Heráclito, que atravessa a mostra tanto nos novos trabalhos quanto nas séries que já integram sua trajetória.
Ayrson Heráclito (Macaúbas, 1968). É artista, professor e curador. Possui doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo, e mestrado em Artes Visuais pela UFBA. Com um olhar particular, a obra de Heráclito evidencia as raízes afro-brasileiras e seus elementos sagrados, projetando ações e práticas que compõem a história e a cultura da população negra.
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Seus trabalhos transitam entre instalações, performances, fotografias e produções audiovisuais que lidam com as conexões entre o continente africano e as diásporas negras nas Américas. O corpo é um elemento central de sua pesquisa, empregando referências rituais, principalmente do candomblé, como dendê, carne, açúcar e sangue, buscando relacioná-los ao patrimônio histórico e arquitetônico ligado ao comércio escravista. Entre 2008 e 2011, produziu a série intitulada Bori, que significa oferenda à cabeça. A performance apresenta uma espécie de rito em que Heráclito oferece a comida sacrificial ligada a cada um dos 12 principais orixás. São utilizados alimentos como milho, pipoca, quiabo, arroz e fava, colocados em torno da cabeça de cada performer, que estão deitados em esteiras de palha e vestidos com roupas brancas.
Outro importante marco na carreira do artista foi Transmutação da Carne, iniciado em 1994. A obra surgiu a partir de um documento que descreve as torturas cometidas pelos senhores de engenho contra os escravizados. Em 2015, Heráclito reapresentou Transmutação da Carne durante a exposição Terra Comunal, da artista sérvia Marina Abramovi? (1946), no Sesc Pompéia, em São Paulo. Uma de suas principais pesquisas é Sacudimentos, sobre o tráfico negreiro entre a Bahia e o Senegal, realizada em 2015 e apresentada na 57ª Bienal de Veneza (2017). Composta por vídeos e fotografias, a obra é construída a partir de rituais de limpeza da Casa dos Escravos na Ilha de Goré e de um grande engenho de açúcar no Brasil, exorcizando os fantasmas da colonização.
Integrou a 61st International Art Exhibition of La Biennale di Venezia (2026), com curadoria de Koyo Kouoh, intitulada “Minor Keys”; 16ª Bienal de Sharjah (2025), Emirados Árabes; After the End of the World: Pictures from Panafrica (2024), The Art Institute of Chicago; 35ª Bienal de São Paulo (2023); 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza (2023) tendo conquistado o Leão de Ouro de melhor participação nacional; 57ª Bienal de Veneza (2017); Bienal de fotografia de Bamako, Mali (2015); e da Trienal de Luanda (2010), Angola. Em 2021 e 2022, teve uma grande exposição individual, “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano” no MAR, Rio de Janeiro e na Pina Estação, São Paulo. Foi um dos curadores-chefes da 3ª Bienal da Bahia, curador convidado do núcleo “Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica e Bahia” no projeto Histórias Afro-Atlânticas no MASP, que esteve em cartaz no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em 2018. Recebeu o prêmio de Residência Artística em Dakar do Sesc_Videobrasil e a Raw Material Company, Senegal. Possui obras em acervos do Museu Solomon R. Guggenheim, Nova York; Musem der Weltkulturen, Frankfurt; MAR – Museu de Arte do Rio; Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; MON, Curitiba; Videobrasil e Coleção Itaú.
Hélio Menezes é antropólogo, curador e crítico de arte, nascido em Salvador (BA). É mestre e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e affiliated scholar do BrazilLab, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Foi curador de Arte Contemporânea do Centro Cultural São Paulo (2019-2021) e, em 2023, assinou a curadoria da 35ª Bienal de São Paulo, “coreografias do impossível”. Atualmente é diretor artístico do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo. Assina também a curadoria de exposições como Histórias Afro-Atlânticas (MASP/Instituto Tomie Ohtake), Rubem Valentim: construções atlânticas (MASP) e Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros (IMS), entre outras. Em 2021, a revista ArtReview o incluiu em sua lista das 100 personalidades mais influentes do mundo da arte contemporânea.
Com mais de 40 anos de história, a Simões de Assis é uma das principais galerias da América Latina dedicadas à arte moderna e contemporânea. Inaugurada em Curitiba, Brasil, em 1984, é conduzida por duas gerações da família fundadora, operando em duas sedes – São Paulo e Curitiba.
A galeria representa um grupo curado de 39 artistas e espólios, com foco especial na arte brasileira, mas também na arte latino-americana em diálogo com perspectivas globais. A Simões de Assis é profundamente comprometida com a internacionalização de seu programa, estabelecendo parcerias com importantes galerias, museus e curadores ao redor do mundo. Em estreita colaboração com colecionadores e instituições, busca posicionar seus artistas em importantes coleções públicas e privadas, por meio da participação regular nas feiras de arte mais relevantes – o que reflete sua visão estratégica e sua crescente atuação internacional.
Como pioneira na promoção de diálogos transgeracionais, a Simões de Assis trabalha com artistas consagrados e emergentes, construindo um programa que combina elementos históricos e uma visão voltada para o futuro. Como um projeto multigeracional, é uma plataforma de amplo alcance para intercâmbios culturais, moldando o legado da arte brasileira e latino-americana dentro de um sistema artístico globalizado e interconectado.
Ojú-Inú, individual de Ayrson Heráclito
Entrada gratuita
Abertura: 8 de agosto, sábado, das 11h às 15h
Período de visitação: 8 de agosto a 12 de setembro
Local: Galeria Simões de Assis | Alameda Lorena, 2050 A – Jardins, São Paulo/SP
Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 15h
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