Em outubro de 2006, num gabinete refrigerado em Las Vegas, Steve Wynn preparava-se para concretizar um ritual habitual entre magnatas: desfazer-se de uma tela célebre para embolsar uma quantia obscena de dólares. Conhecido por redefinir o horizonte do jogo com vulcões mecânicos e lagos artificiais, Wynn colecionava arte com a mesma voracidade com que erguia casinos.
A joia da tarde era Le Rêve, óleo sobre tela pintado por Pablo Picasso em janeiro de 1932. A composição retrata Marie-Thérèse Walter adormecida numa poltrona vermelha, com a face recortada por um perfil duplo associado pela crítica a um falo aprumado. Wynn já havia acordado a venda da obra ao gestor de fundos Steven A. Cohen por 139 milhões de dólares — à época, um valor inédito para uma transação privada.
Antes do envio da pintura para a Costa Leste, o proprietário reuniu amigos íntimos para um brinde de despedida. Entre os presentes contavam-se a cineasta Nora Ephron, o argumentista Nicholas Pileggi e a jornalista Barbara Walters. Contudo, um detalhe anatómico alteraria o rumo dos acontecimentos: Wynn sofre de retinite pigmentar, uma patologia que lhe reduz drasticamente a visão periférica. Somava-se a isso o hábito de gesticular com expressividade para pontuar as suas falas.
Posicionado diante do quadro, Wynn explicava a composição com o entusiasmo de um cicerone habituado a plateias solenes. Ao recuar um passo e girar o tronco sem olhar para trás, abriu os braços para rematar o raciocínio.
O som ouvido de seguida não teve solenidade alguma. Conforme relatou Ephron num ensaio publicado pouco depois, escutou-se apenas um rasgo seco, semelhante ao de fita adesiva arrancada com violência de um cartão. O cotovelo direito de Wynn acabara de perfurar o antebraço de Marie-Thérèse.
Na tela de 1932 abriu-se uma fenda triangular do tamanho de um punho, de onde pendia uma aba de tecido desbotado. Perante o silêncio atónito dos convidados, o empresário olhou para a manga do fato e soltou uma frase desconcertante: “Vejam só o que fiz. Ainda bem que fui eu”.
O negócio com Steven Cohen desfez-se de imediato. Wynn acionou os corretores da Lloyd’s de Londres e contratou a prestigiada restauradora Joyce Hill Stoner. Com recurso a resinas sintéticas e reintegração cromática microscópica, a especialista realizou uma intervenção que tornou o dano praticamente impercetível a olho nu.
Todavia, o mercado de arte transaciona tanto matéria como fetiche e autenticidade virginal. Wynn moveu uma ação judicial contra os seguradores, sustentando que, apesar do restauro primoroso, a tela sofrera uma desvalorização simbólica irremediável, exigindo 54 milhões de dólares de indemnização. O litígio terminou com um acordo financeiro confidencial e milionário.
A reviravolta final ocorreria em 2013. O mercado internacional de leilões operava sob um novo ciclo de liquidez e Cohen continuava determinado a adquirir a tela. Mais do que isso: o incidente deixara de representar um defeito oculto para se converter numa anedota célebre, agregando notoriedade biográfica ao percurso da obra.
Cohen comprou finalmente Le Rêve por 155 milhões de dólares — 16 milhões acima do valor acordado antes do acidente. Entre a indenização recolhida junto das seguradoras e o montante da venda final, a desatenção motora de Wynn transformou-se num dos episódios mais rentáveis da história do mercado de arte moderna.
Mais uma prova de que a história é muito mais poderosa do que a própria obra.
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