David Hockney
David Hockney, um dos artistas mais influentes, populares e valorizados da arte contemporânea, morreu na última quinta-feira (11), aos 88 anos, em sua residência. O pintor britânico estava a poucas semanas de completar 89 anos e deixa uma trajetória marcada por inovação, experimentação e uma produção que atravessou mais de seis décadas.
Conhecido por suas cores vibrantes, retratos intimistas e pelas icônicas pinturas de piscinas californianas, Hockney construiu uma obra profundamente pessoal e ao mesmo tempo universal, tornando-se uma das figuras mais queridas da arte dos séculos XX e XXI. Sua obra mais reconhecida é Portrait of an Artist (Pool with Two Figures), de 1972.
Nascido em 9 de julho de 1937, em Bradford, no oeste de Yorkshire, na Inglaterra, David Hockney cresceu em uma família que ele próprio descrevia como uma “família operária radical”. Desde cedo demonstrou interesse pelas artes e iniciou sua formação na Bradford College of Art.
Em 1959, mudou-se para Londres para estudar no Royal College of Art, onde entrou em contato com artistas como Francis Bacon e Peter Blake, além de desenvolver amizade com R.B. Kitaj. Foi nesse período que começou a consolidar uma linguagem própria e assumiu publicamente sua homossexualidade, anos antes de a prática ser descriminalizada no Reino Unido.
A experiência pessoal também se tornou tema de sua produção. Obras como We Two Boys Together Clinging (1961) e Domestic Scene, Los Angeles (1963) abordavam de forma direta a vida queer em uma época em que poucos artistas tratavam o tema publicamente.
Sua primeira exposição individual aconteceu em 1963, na Galeria Kasmin, em Londres. Ele tinha apenas 26 anos.
A mudança para Los Angeles, em 1964, transformou definitivamente sua carreira. Encantado pela luz, pela arquitetura moderna e pelo estilo de vida californiano, Hockney passou a desenvolver as pinturas que se tornariam sua marca registrada.
Foi nesse período que produziu algumas de suas obras mais conhecidas, especialmente as cenas de piscinas que capturam momentos aparentemente simples, mas carregados de tensão, silêncio e contemplação.
Entre elas, destaca-se A Bigger Splash (1967), considerada uma das obras-primas da arte contemporânea. A pintura retrata o instante exato em que alguém mergulha em uma piscina, embora a figura humana esteja ausente da cena. O resultado é uma imagem ao mesmo tempo dinâmica e estática, capaz de condensar o imaginário do verão californiano em uma única composição.
Ao longo de sua carreira, Hockney transitou entre pintura, fotografia, gravura, desenho digital e cenografia para produções de balé e ópera.
Entre suas obras mais importantes estão:
Nos anos 1980, tornou-se conhecido por suas colagens fotográficas, que exploravam múltiplos pontos de vista em uma mesma imagem. Já nos anos 2000, voltou-se intensamente para a pintura de paisagem ao ar livre, produzindo obras monumentais inspiradas no interior da Inglaterra.
Mesmo em idade avançada, continuou experimentando novas tecnologias. Durante a pandemia da Covid-19, criou uma série de trabalhos digitais utilizando iPads para retratar a paisagem da Normandia, na França, demonstrando uma curiosidade criativa que permaneceu intacta até os últimos anos de vida.
Além de sua relevância histórica, David Hockney também ocupava um lugar de destaque no mercado de arte.
Em 2018, sua pintura Portrait of an Artist (Pool with Two Figures) foi vendida por US$ 90,3 milhões na Christie’s, estabelecendo na época o recorde de obra mais cara já vendida em leilão por um artista vivo.
A cena mostra um homem elegantemente vestido observando uma figura que nada sob a água cristalina de uma piscina. Com sua atmosfera ensolarada e composição sofisticada, a obra tornou-se uma das imagens mais emblemáticas da arte contemporânea.
Outros resultados expressivos vieram nos anos seguintes. Em 2019, Henry Geldzahler and Christopher Scott alcançou US$ 49,5 milhões em leilão, enquanto Nichols Canyon ultrapassou a marca de US$ 41 milhões.
Ao longo de sua trajetória, Hockney recebeu algumas das mais importantes distinções culturais do mundo. Entre elas estão o John Moores Painting Prize, o Praemium Imperiale de Pintura, concedido pela Associação de Arte do Japão em 1989, e a Ordem do Mérito, concedida pela Rainha Elizabeth II em 2012 — uma das maiores honrarias do Reino Unido. Embora tenha recusado o título de cavaleiro, aceitou integrar o seleto grupo da Ordem do Mérito, limitado a apenas 24 membros simultaneamente. Em 2026, também recebeu o título de Oficial da Legião de Honra da França.
Sua carreira foi celebrada em mais de 400 exposições individuais. Entre as mais importantes está a grande retrospectiva organizada em 2017 para celebrar seus 80 anos, apresentada na Tate Britain, no Centre Pompidou, no Metropolitan Museum of Art e no Los Angeles County Museum of Art.
Mais do que um pintor de sucesso, David Hockney foi um artista que atravessou diferentes linguagens sem perder sua identidade. Da pintura à fotografia, do desenho digital à cenografia, sua produção foi marcada por uma permanente disposição para experimentar. Carismático e dono de um estilo imediatamente reconhecível, tornou-se uma referência para gerações de artistas interessados em explorar novas formas de representar a experiência humana.
No comunicado que anunciou sua morte, sua assessora descreveu Hockney como “uma das figuras mais importantes da arte contemporânea tanto no século XX quanto no XXI”. Ela destacou ainda que seu legado reflete “seu profundo entusiasmo pela vida, seu excelente senso de humor, sua imensa generosidade e sua curiosidade investigativa”.
Talvez nenhuma frase resuma melhor sua trajetória do que aquela que o próprio artista repetia com frequência: “ame a vida”.
Com sua morte, a arte contemporânea perde um de seus maiores nomes. Sua obra, no entanto, permanece como testemunho de uma carreira dedicada a olhar o mundo com curiosidade, liberdade e encantamento.
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