A memória é sempre um tema apaixonante, no seu sentido mais amplo, é essencial para se compreender o contexto de cada época. No caso da arte, a preocupação em preservar documentos, relatos, imagens fotográficas, gravações e tantos outros meios de difusão de ideias e propostas são primordiais. Alguns artistas preocupados pela histórico das obras organizam arquivos preciosos relatando o percurso desenvolvido. Preservar a obra é tão importante como conservar a memória da vivência, das experiencias, permitindo a pesquisadores e historiadores terem uma fonte segura de confrontos e análises.
Recentemente, foi lançado um primoroso livro “Leonilson: diários de uma voz –trechos transcritos” com 232 páginas numa concepção da Sociedade Amigos do Projeto Leonilson, com patrocínio Itaú e Laranjinha Itaú.
O livro cobre o período de 1990 a 1993, justamente os últimos anos de José Leonilson (1957-1993), que gravou 19 fitas cassete com aspectos variados de sua vivência. Tendo nascido em Fortaleza, em 1957, veio para São Paulo com a família ainda bem criança. Teve sempre interesse pela arte, fez cursos livres na Escola Panamericana de Arte, ingressou no curso de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, mas não completou, mergulhou logo na carreira artística. Fez parte da Geração 80, grupo de artistas renovadores da pintura brasileira, integrou mostras importantes tanto no Brasil como no exterior, entre as quais se destacam Bienais, Panoramas e a revolucionária “Como vai você, Geração 80”.
A Moda lhe atraía também, tendo trabalhado com o grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone criando cenários e figurinos do espetáculo A Farra da Terra. Apresentou a convite de Gloria Kalil, sua interpretação sobre moda em evento de lançamento da coleção Fiorucci.
Na Moda, conheceu muitas pessoas envolvidas na área como Marie Rucki, em Paris, uma referência extremamente importante, tanto como seus professores de arte. Uma vez ela disse para ele: “quem faz moda não tem tempo para se vestir”. Ele levou isso para a arte: quem faz arte não tempo para teorizar em cima do tema. Dizia: “você faz arte ou você faz teoria”.
Fez muitas viagens pelo mundo, chegou a morar em Madri, Milão e Munique, conheceu muitos lugares do Brasil, com olhar atento aberto a desafios experimentais na busca de novas linguagens.
Apesar de ter falecido jovem, em decorrência do vírus HIV, aos 36 anos, deixou uma obra vigorosa que representa uma visão intimista de sua vivência, produziu 4.000 obras e vasto arquivo documental, uma preciosa fonte para se compreender a complexidade de uma poética única e revolucionária.
Cada detalhe de sua obra espelha sutileza e conexão com o universal e o pessoal numa dimensão livre das convenções, rompe barreiras visíveis e invisíveis, cria na simplicidade da concepção uma linguagem arrojada, uma poética que envolve reflexão e paixão.
Em certo sentido, a obra de Leonilson é um eterno diário, confronta realidade com ficção numa poética que abrange imagens, textos e materiais dos mais diversos, mas sempre propondo reflexões.
As suas incursões estão sempre abertas a amplas leituras, fonte de inspiração, renovando olhares a cada observação mais atenta. Trabalhando com desenho, pintura, objeto, bordado, tecido e instalação, Leonilson expressa todas as suas emoções incluindo a solidão, os encontros e desencontros envoltos no dinamismo dos confrontos.
A sua obra permite interpretações variadas estimulando pesquisas das mais significativas, recentemente em 2024, uma grande exposição no MASP abriu novos caminhos e perspectivas para se compreender a dimensão exata de sua produção no panorama artístico, a potencialidade de suas propostas alicerçadas numa visão lúdica e poética desvenda sutilezas radicais. A série de ilustrações realizadas para a Folha de S. Paulo, refletem a linha sutil de seu desenho exercendo um refinado grau de observação da cotidianidade.
O livro organizado pelo escritor João Anzanello Carrascoza é dividido por seis temas: as próprias palavras, os trabalhos, os amores, as viagens, as relações familiares e as inquietações existenciais. A sequência de falas do artista enfoca em cada dos seis temas títulos com frases como “Nada direi, tudo direi”, “Um artista com fogo nas mãos”, “Costura da solidão”, “A visão exterior”, “Anjos da guarda” e finalmente “As bordas da dor”.
Leonilson dizia: “fazer um texto, seja uma pintura, seja um romance, é, inegavelmente, uma declaração de amor: para o outro, para si mesmo e, sempre, para a humanidade”.
A publicação projetada de forma inovadora enaltece aspectos marcantes do trajeto poético e revolucionário do artista, que sugere contínuas releituras de sua obra envolvente e intensamente apreciada por sua sensibilidade.
O Projeto começou a funcionar em 1993, pouco tempo depois do falecimento do artista. A missão principal é resguardar a memória do artista por meio de pesquisa, catalogação e divulgação de sua vida e obra, realçando a sua importância no cenário cultural do país. O Projeto tem sido referência para outras instituições imbuídas de realizarem a devida preservação do acervo e da documentação de artistas proeminentes no panorama da cultura brasileira.
Em 2017, o Projeto Leonilson publicou o Catálogo Raisonné de Leonilson com patrocínio da Fundação Edson Queiroz, lançado no Espaço Cultural Unifor (Fortaleza, 2017). A publicação reúne três volumes, com 3.400 registros entre obras, estudos e projetos realizados pelo artista, seguindo ordem cronológica. Uma obra essencial para se aquilatar a importância de sua linguagem, transparente e sutil, uma poesia da solidão na intimidade das recordações.
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