Arte

Percursos artísticos transgressores e revolucionários


Os percursos artísticos se entrelaçam nas mais diversas ocasiões, expressam as experiências vivenciais do ser humano nas suas complexas relações pessoais como no âmago da sua intimidade psíquica nas transformações da sensibilidade, de um simples olhar às mais instigantes reflexões.

Algumas mostras, em cartaz, revelam sutilezas e nostálgicas sensações, confrontos de épocas diversas, sugerindo uma harmonia que se desfaz na realidade e um mundo cada vez mais desumano e violento.

No IMS – Instituto Moreira Salles, a mostra J.Carlos – Originais transporta o visitante para uma outra época, um refinamento contagiante, reunindo 300 obras que refletem um extraordinário ilustrador, chargista e designer gráfico. A exposição documenta diversos aspectos do grande artista que retratou sutilmente períodos marcantes da história brasileira, notadamente durante os governos de Dutra e Vargas. Imagens do cotidiano do Rio com todas suas características como charges relacionadas à Segunda Guerra contrastando com desenhos de histórias para o público infantil.

Acesso ao video

A vasta produção de J.Carlos (José Carlos de Brito e Cunha 1884-1950) impressiona, calcula-se em mais de 50 mil desenhos, entre caricaturas, charges, cartuns, alfabetos tipográficos, vinhetas, publicidade, uma infinidade de itens que enriqueceram visualmente as mais famosas revistas ilustradas do Brasil dos anos 20, 30 e 40.  

As peças expostas foram selecionadas diretamente da coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha, filho do artista, sob guarda do IMS desde 2015, que é formada por mais de 1000 itens. A preciosa coleção reúne raridades como coleções encadernadas de publicações marcantes no cenário cultural da época como Careta, Para Todos…, Fon Fon, O Malho, O Cruzeiro e Almanaque do Tico Tico.

O espírito Art Déco marcou presença na trajetória de J.Carlos, sua obra se reveste de notáveis inovações na diagramação das revistas como na sutileza dos desenhos que retratam uma época extremamente requintada, tanto no aspecto comportamental como no quesito moda, uma estética impecável. Seu olhar atento captava todas as nuances de uma sociedade que se transformava ao ritmo do fox trot, dos carnavais das colombinas, dos arlequins e do pierrôs passando pela melindrosa e tantos outros encantos traduzidos na sensibilidade de um grande mestre.

Desenho de J. Carlos para a revista Para Todos (23-06-1923).
Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha / Acervo IMS

Por outro lado, no mesmo IMS, a mostra do artista alemão Harun Farocki (1944-2014) instiga a imaginação pelo seu conteúdo impactante, percorre o mundo do trabalho por meio de videoinstalações realizadas entre 1969 a 2014, fazendo uma incursão pelos diferentes aspectos de uma sociedade envolta nos meios de produção. Harun atuou no cinema ativista no final dos anos 60 e se envolveu no universo da videoinstalação na década de 90.

Paralelamente, na mesma mais paulista das Avenidas, na Galeria do Centro Cultural Fiesp, uma oportuna mostra “Alphonse Mucha: O Legado da Art Nouveau” que percorre parte representativa da obra de um artista gráfico e pintor tcheco que atuou em Paris bem no final do século XIX. Famoso por seus cartazes de teatro (affiches) criados para a icônica atriz Sarah Bernhard, como por seus fabulosos anúncios de produtos como os famosos Bicuit Lefèvre Utile – LU, além dos painéis decorativos e notáveis produções gráficas que influenciaram gerações futuras.

Alphonse Mucha em seu estudio © Mucha Trust 2019

A mostra formada por mais de cem obras fazem parte do acervo da Fundação Mucha, localizada na República Checa, traça o percurso de um artista que é considerado um dos pioneiros da arte publicitária. Mucha (1860-1939) produziu intensamente em Paris em plena Belle Époque, também se preocupava com a libertação do povo eslavo, dominado pelo Império Austro-Húngaro, tendo realizado obras com mensagens camufladas que refletiam o desejo dos seus conterrâneos. O vínculo do Art Nouveau com os estilos orientais pode ser observado em algumas obras como o fato de Mucha ter influenciado os Beatniks sem falar de inúmeras produções de HQs, inclusive mangás e filmes.  


Veja também:


Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi bem sucedida.
José Henrique Fabre Rolim

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

Recent Posts

Exposição “Roberto Burle Marx pelos amigos” no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

O Centro Cultural Correios Rio de Janeiro apresenta, a partir de 1º de julho de…

2 dias ago

Galeria 18 inaugura a edição 2026 da exposição coletiva anual NOT SAMO

A Galeria 18 abre, no dia 1° de julho, a edição 2026 da NOT SAMO,…

3 dias ago

Basquiat e Andy Warhol: a parceria que a crítica destruiu

Basquiat e Andy Warhol começaram a trabalhar juntos no início da década de 1980. A…

3 dias ago

Redes sociais para artistas: é preciso aparecer para construir uma carreira?

Redes sociais para artistas se tornaram uma ferramenta quase inevitável para quem deseja divulgar seu…

1 semana ago

Como um objeto comum se transforma em arte contemporânea?

A arte contemporânea tem demonstrado que materiais cotidianos podem dar origem a obras surpreendentemente complexas.…

2 semanas ago

A arte contemporânea se despede de David Hockney

David Hockney, um dos artistas mais influentes, populares e valorizados da arte contemporânea, morreu na…

2 semanas ago