RosanaPalazyan- Da série;Botões- Luiz, 2026
No final dos anos 1980, quando frequentava as salas da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, a artista plástica carioca Rosana Palazyan pintava. Era o destino natural de quem buscava as artes na época, até o dia em que trombou com a produção de Arthur Bispo do Rosário. A torrencial cosmologia de Bispo, desfiada em fardas, estandartes e lençóis no hospício de Jacarepaguá, funcionou como um curto-circuito. Palazyan percebeu ali que a agulha e a linha podiam carregar tanta ou mais voltagem dramática que o óleo sobre a tela. Havia também um fantasma doméstico que a empurrava para os tecidos: sua avó, uma sobrevivente do genocídio armênio de 1915, ganhara a vida ensinando bordado em um campo de refugiados na Grécia. Rosana nunca teve lições formais com ela, mas passou a juventude observando aquele vaivém manual. Quando a matriarca morreu, o gesto, guardado por osmose, aflorou. O fio virou sua escrita.
Em 2020, com a chegada da pandemia, Palazyan fez o caminho de volta. Deixou seu endereço e recolheu-se na casa da infância, no bairro da Abolição, no subúrbio ferroviário do Rio, para fazer companhia à mãe, Rebeca, que hoje soma 95 anos. No confinamento daquele endereço suburbano, o horizonte da artista reduziu-se ao perímetro do quintal e, mais especificamente, à sombra de uma mangueira de sessenta anos de idade. A árvore, que fora a confidente de suas angústias juvenis, revelou-se um arquivo botânico do tempo. Enquanto o país contava mortos e o noticiário ardia, Palazyan desenhava os pássaros e insetos que pousavam nos galhos. O refúgio virou laboratório.
O resultado desse retiro forçado e de seis anos de maturação ganha os salões da Galeria Anita Schwartz, na Gávea, a partir do dia 28 de outubro, com a exposição individual Quintal. Sob a curadoria de Ulisses Carrilho, a mostra é uma delicada operação de engenharia afetiva que transporta a mangueira da Abolição para o circuito nobre da Zona Sul carioca, recriando-a não como cópia naturalista, mas como uma instalação etérea de tecidos translúcidos, organzas e fiapos de memória.
No centro do espaço, a instalação desdobra-se em três ramificações poéticas. A primeira delas, batizada de Botões/sonhos, utiliza uma coleção de botões antigos herdada do avô de Rosana, que era alfaiate. A caixinha de costura, posteriormente engordada pela avó e pela mãe, fornece os botões que a artista costurou sobre tecidos finos, emulando as inflorescências da mangueira — o estágio que antecede o fruto. Ao lado desses aviamentos, Palazyan bordou fragmentos de sonhos coletados em conversas com amigos, parentes e desconhecidos ao longo dos últimos anos. “Eu queria que viesse o sonho dali, daqueles botões que ainda não eram frutos. Ainda iam acontecer”, explica a artista, que desde o fim da década de 1990 dedica-se a ouvir e registrar as expectativas de populações invisibilizadas, como crianças de rua e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas.
A segunda série, Visitantes da mangueira, expõe uma pequena transgressão técnica. Embora manipule linhas desde 1989, Palazyan sempre bordou estritamente à mão. Desta vez, decidiu domar uma velha máquina de costura que pertenceu à família. Sem a perícia de uma costureira industrial, ela guiou os tecidos de forma errática, sobrepondo camadas e cores para dar vida a pássaros e a um morcego que habitavam a copa da árvore na Abolição.
A trindade da instalação fecha-se com Sementes/ensinamentos, onde caroços reais de manga são envolvidos em tiras de organza. Nestas faixas, a artista caligrafou conselhos e máximas ouvidos durante sua pesquisa de campo. A tinta usada para fixar os verbetes é um sumo denso de romã, fruta que na tradição armênia carrega o símbolo da fertilidade e da resiliência. No hibridismo de friccionar o caldo da romã euro-asiática sobre o caroço da manga tropical, Rosana costura suas duas linhagens.
O espectador que percorre a galeria encontra ainda o díptico Casa, um desenho executado a quatro mãos por Rosana e sua mãe, Rebeca, e uma série de panos bordados pela avó nas primeiras décadas do século passado. Sobre esses panos históricos, a artista inscreveu comentários visuais que conectam o trauma original de sua família — o massacre armênio pelos turcos-otomanos — a fraturas geopolíticas contemporâneas, como o esvaziamento forçado do enclave de Nagorno-Karabakh em 2023 e a atual guerra na Faixa de Gaza. Para o curador Ulisses Carrilho, o quintal funciona como essa dobra geográfica e temporal: um território ambíguo que não é exatamente a segurança da casa, nem a crueza da calçada, mas uma zona de passagem para o mundo.
Aos 60 anos, Rosana Palazyan usa a mangueira da infância para falar, fundamentalmente, sobre o tabu do envelhecimento e a persistência do desejo na maturidade. Em uma época em que o mercado de arte frequentemente celebra o gigantismo e o barulho das instalações imersivas de alta tecnologia, a exposição faz o caminho inverso. Como bem define Carrilho no texto de apresentação, Palazyan opera por subtração: “Em vez de aumentar o volume da história, ela diminui sua escala até que possamos escutá-la. A Grande História passa pelo fio. O trauma passa pelo tecido”. No subúrbio reconstruído na Gávea, o tempo corre mais lento.
Serviço
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