Antes de manejar o pincel, o artista capixaba Jhon Bermond precisa cavar. Seu processo de criação não se inicia diante de uma tela em branco ou em um balcão de suprimentos artísticos, mas na caminhada por solos variados do país, no exercício de recolher porções de chão e transformá-las em matéria pictórica. Esse inventário de poeira e minerais ganha corpo em Culto à Terra, exposição que abre ao público nesta sexta-feira, 23 de outubro, no Sesc Niterói. Sob a curadoria da artista e pesquisadora Moara Tupinambá, a mostra reúne pinturas, estandartes e um mural executados rigorosamente com geotintas e pigmentos minerais e vegetais. O que se vê nas paredes não é apenas a representação do território, mas o próprio território liquefeito e reorganizado sobre o suporte.
Nascido no interior do Espírito Santo, Bermond carrega na paleta telúrica as lembranças da infância rural e o repertório das festas que movem o imaginário do Sudeste profundo, como as folias de reis e as congadas, além de ritos de matrizes indígenas e afro-brasileiras. O barro que pigmenta suas telas evoca a visualidade das pinturas rupestres e a iconografia dos biomas nacionais, costurando um comentário visual sobre a permanência de mestres e mestras da cultura popular que guardam esses saberes. As cores ali deixam de ser uma escolha meramente cosmética; tornam-se indexadores geográficos e afetivos de onde foram extraídas.
A curadora Moara Tupinambá enxerga na metodologia do artista uma recusa ao divórcio moderno entre a humanidade e a paisagem. Para ela, cada pigmento manufaturado por Bermond funciona como um arquivo de histórias humanas e não humanas ligadas à ancestralidade. “A terra nunca deixou de falar; nós é que precisamos reaprender a escutá-la”, pontua Moara. O feitio das tintas exige do artista uma diplomacia prévia: uma aproximação lenta com as comunidades locais, a escuta de crônicas orais e o respeito pelo manejo tradicional da terra. Para Bermond, o ecossistema opera como uma instância criativa autônoma: “A terra já é uma obra de arte. Pintar com ela é unir e reescrever diversas memórias em linhas e traços”.
Contemplada pelo edital Sesc Pulsar, a exposição ocupa o circuito fluminense em um momento no qual o debate sobre o colapso climático e as urgências ambientais costuma ser pautado pela crueza dos dados estatísticos. Ao deslocar a crosta do planeta para o espaço institucional do museu, Bermond prefere a via da sedução estética e da memória viva, convertendo a geologia em uma crônica tátil sobre pertencimento e identidade.
Serviço
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