J. P. Cuenca | NND|Azeco
Em junho de 2020, o escritor e cineasta João Paulo Cuenca tuitou uma ironia que misturava o palácio presidencial e a Igreja Universal. A boutade digital converteu-se, em ritmo industrial, em 144 processos judiciais quase idênticos, movidos por pastores de rincões variados do país, além de um rol de promessas de violência física. Sitiado em seu próprio apartamento enquanto advogados decifravam a investida forense, Cuenca começou a desenhar. Não buscava a ilustração, mas o escudo. Riscou nas superfícies domésticas os primeiros contornos de uma heráldica de proteção.
Seis anos depois da blitz processual, esse inventário de sobrevivência deixa o isolamento e ocupa as paredes da galeria NND|AZECO São Paulo. A exposição 144 – Fim é o nome do que vem antes do começo, que abre neste sábado, 24 de outubro, exibe o resultado dessa transmutação: telas a óleo sobrepostas a colagens, mosaicos construídos com páginas de seus próprios manuscritos e originais de livros sacrificados, assemblages e uma sequência de 15 neons. Nelas, cruzes, tridentes e flechas emergem sob estratos de grafite, fuligem de spray, penas e sementes. O gás aprisionado no vidro faz as linhas flutuarem no ar, em um arranjo que o próprio Cuenca descreve como uma operação de “grandes cores e alto contraste”.
A mostra sela a primeira parceria formal entre o artista e o curador Victor Gorgulho, que o acompanha há uma década. Para Gorgulho, a produção recente de Cuenca esgarça amarras estéticas para alcançar um território em que a crônica política e a feitiçaria operam juntas. O curador recusa a chave do revide ou do ressentimento; enxerga ali uma tentativa de pacto, um ensaio de aproximação que encontra no sincretismo religioso brasileiro o solo comum para o diálogo. “Não há lados vencedores, não há bom ou mau”, anota.
Essa leitura mística do Brasil ganha contornos teóricos no texto crítico de Cipriano, artista e pesquisador cuja obra investiga a gramática dos cultos de matriz bantu. Cipriano aproxima o desenho de Cuenca dos pontos riscados da umbanda — a caligrafia sagrada que dá corpo ao invisível — e define o autor como “aquele que desenha o invisível que protege o segredo que guarda”. Sob essa ótica, o neon deixa de ser o fetiche luminoso da decadência urbana e vira prova material: um tubo cheio de vácuo e mistério, capaz de despertar o suporte do seu repouso.
O numeral que batiza a exposição e a contenda jurídica guarda um verniz bíblico: no livro do Apocalipse, 144 mil é a soma dos escolhidos, o produto das doze tribos de Israel pelos doze apóstolos, os selados para a salvação no Juízo Final. Mas o imbróglio de Cuenca produziu efeitos práticos aquém do tribunal divino. O assédio em massa que sofreu serviu de estopim para que o Supremo Tribunal Federal reconhecesse, em 2024, a existência do assédio judicial contra a imprensa, o que levou o Ministério Público Federal a abrir uma ação civil pública contra a Universal no ano seguinte.
A peregrinação que o escritor empreendeu pelo interior do Brasil no encalço das audiências com os pastores foi registrada em película. O resultado é o longa 144 – Apocalipse Não, que recebeu Menção Honrosa no Festival do Rio e integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
O vernissage deste sábado se equilibra em uma dessas coincidências de calendário que parecem planejadas pelo destino ou pelas entidades: ocorre simultaneamente à estreia do filme na Mostra e exatamente na véspera do segundo turno das eleições municipais, no instante preciso em que o balcão da fé e os palanques institucionais voltam a travar o debate público mais ruidoso do país.
Serviço
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