Exposição Cristina Salgado: a mãe contempla o mar no Octógono da Pina Luz
A Pina Luz apresenta duas novas exposições que ampliam o diálogo entre práticas contemporâneas e reflexões sobre corpo, política e sociedade. As mostras “Cristina Salgado: a mãe contempla o mar” e “Pascale Marthine Tayou: Knockout!” ocupam diferentes espaços do edifício com instalações de grande escala que convidam o público a percorrer narrativas sensoriais e críticas. Enquanto a artista brasileira investiga a relação entre corpo, paisagem e psicanálise por meio de uma monumental instalação têxtil no Octógono, o artista camaronês transforma as salas do museu em um percurso que conecta história global, materiais cotidianos e questões geopolíticas.
A artista carioca leva para o espaço central da Pina Luz, o Octógono, sua interpretação do corpo feminino e do mar; “A mãe contempla o mar”, uma enorme instalação construída a partir de dezenas de faixas de tapetes multicoloridos.
Feita especialmente para o espaço expositivo, Salgado constrói duas grandes situações com mais de 3.500m² de tecidos predominantemente vermelhos e azuis. A instalação, é a maior obra de sua carreira e escancara sua relação com a psicanálise, dado que nutre sua produção há muitas décadas.
A obra retoma uma série de elementos presentes em sua pesquisa desde os anos 80, como o mobiliário doméstico e a paisagem, a casa e o mar, que se opõem e se completam.
O excesso de matéria e instalações com tapetes foi o meio encontrado pela artista para elaborar visualmente uma espécie de convulsão interna do corpo. O corpo com que Cristina Salgado trabalha é, em geral, dramático, sinuoso, mas também introspectivo e silencioso. Isso é o que se vê na obra exposta na Pina Luz.
A artista constrói duas grandes situações em “A mãe contempla o mar”, na primeira, um corpo repousa sobre uma cadeira e se estende sobre uma mesa de jantar. À sua frente, um televisor exibe uma paisagem de ondas suaves batendo na praia.
De outro lado, uma imensa onda com garras antropomórficas arrasta e desmonta a situação doméstica anterior. Na instalação, a personagem tem sua maternidade definida pela forma contemplativa e vaga como esse corpo visceral espelha o mar da tela.
Cristina Salgado considera o corpo a principal matéria prima de sua produção artística. Há mais de 40 anos, a artista realiza pinturas, esculturas e desenhos, construindo obras extraordinárias a partir da combinação inusitada entre beleza, familiaridade e estranhamento, como a emblemática “Grande nua na poltrona vermelha”, realizada em 2009, no Parque Lage, Rio de Janeiro. Foi lá, em 1984, que a artista participou da importante exposição “Como vai você, Geração 80?”, mostra responsável por apresentar uma geração de jovens artistas que trabalhavam com pintura figurativa e instalações.
A primeira exposição institucional do camaronês Pascale Marthine Tayou no Brasil apresenta instalações, esculturas e pinturas do artista com mais de 25 anos de carreira. As obras reorganizam materiais e ativam trocas, refletindo sobre a existência dos objetos cotidianos e convidando o público a olhar para a vida coletiva em diálogo com importantes conferências internacionais.
O título “Knockout!” sugere confronto, mas também humor e excesso, elementos que atravessam a narrativa da exposição, estruturada a partir de sete conferências internacionais: Berlim, Yalta, São Francisco, Roma, Rio de Janeiro, Bandung e Avignon.
Na exposição que ocupa as sete salas da Pina Luz, Tayou entrelaça esses episódios com experiências estéticas, explorando cores, texturas, materiais e tensões, onde o poético e o político se encontram em atrito constante.
Na primeira sala, dedicada à Conferência de Berlim (1884–1885), uma escultura em forma de lápis com quatro metros de altura ocupa o centro do espaço. O objeto articula, de um lado, a energia criativa do desenho e, de outro, seu potencial bélico inscrito na própria forma, revelando como todo gesto de criação convive com a tensão entre invenção e confronto.
A segunda galeria aborda a Conferência de Yalta (1945), que reorganizou o mundo após a Segunda Guerra Mundial. Nela está a obra “L’enfer du décor” (2025), composta por quatro grandes colagens sobre tela que reúnem 89 bandeiras nacionais.
Na terceira sala, associada à Conferência de São Francisco (1945), que resultou na criação da ONU, Tayou apresenta a instalação “Court-circuit” (2026).
Na sequência, uma grande instalação de galhos secos e sacolas plásticas coloridas denuncia a poluição ambiental causada pelo excesso de plástico. “Plastic Tree” (2014-2015) dialoga com a Rio-92, conferência voltada às questões climáticas e ecológicas.
Na sexta galeria, “Falling House” (2014), uma casa suspensa de cabeça para baixo desafia noções de estabilidade e os sistemas impostos historicamente, se relaciona à Conferência de Bandung (1955).
A exposição se encerra com a Conferência de Avignon, um evento criado pelo próprio artista como exercício de crítica e fabulação política. Nesta sala estão algumas de suas obras mais icônicas, como “Colorful Stones” (2015–2026) e “Pascale’s Eggs” (2019).
Nascido em Yaoundé, Camarões, Pascale Marthine Tayou construiu uma prática artística marcada pela reorganização de materiais e pela transformação poética de elementos do cotidiano, como cadeiras de plástico, bandeiras, fios elétricos, lápis e utensílios domésticos. Sua trajetória é consolidada por participações em algumas das mais relevantes exposições internacionais de arte contemporânea, incluindo a Bienal de São Paulo, Bienal de Veneza, a Documenta e a Serpentine Gallery, em Londres.
Exposição Cristina Salgado: a mãe contempla o mar
Data: até 2 de agosto de 2026
Local: Edifício Pina Luz
Endereço: Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo — SP.
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)
Exposição Pascale Marthine Tayou: Knockout!
Local: edifício Pina Luz
Data: até 2 de agosto de 2026
Endereço: Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo — SP.
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h). Sábados e segundos domingos do mês gratuitos.
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