A Pinacoteca anuncia duas exposições inéditas no mês de setembro, ambas iniciando em 05 de setembro no Edifício Pina Luz. Confira Luana Vitra: Bandeira Branca’ e ‘Ismael Nery: armadilha moderna’.
O Octógono recebe a instalação inédita Bandeira Branca, de Luana Vitra, desenvolvido especialmente para o espaço central do edifico Pina Luz.
Luana Vitra tem o ferro, a fuligem, a cerâmica, o trabalho e o corpo como elementos constantes em sua produção. Em Bandeira Branca, a artista parte das terras-raras; conjunto de dezessete elementos químicos decisivos para as tecnologias que organizam o mundo contemporâneo, para refletir sobre as continuidades entre extrativismo, colonialismo e as formas de vida que emergem deles.
Nascida em um estado atravessado por séculos de economias mineradoras e extrativismo, Vitra se interessa pelas propriedades concretas dos minerais, sua capacidade de conduzir, pesar, proteger, contaminar ou resistir, e pelas histórias que essas matérias condensam. Para a artista, ferro, cobre e chumbo são, ao mesmo tempo, elementos físicos e signos de processos extrativos, industriais, coloniais e espirituais.
Luana Vitra (Contagem, MG, 1995) é uma das vozes mais singulares de sua geração na arte brasileira. Ela investiga a relação entre os reinos mineral, humano e espiritual, tratando os materiais não apenas como suporte estético, mas como corpos dotados de memória, carga histórica e capacidade de cura. Com participação na 35ª Bienal de São Paulo (2023) e mostras individuais no Instituto Inhotim e no Museu Paranaense (MUPA), foi vencedora do Prêmio PIPA (2023) e contemplada com o Prince Claus Seed Award (2022). Seus trabalhos integram acervos institucionais como o da Pinacoteca do Estado de São Paulo, do Museu de Arte da Pampulha e do Instituto Inhotim.
A exposição “Ismael Nery: armadilha moderna”, dedicada ao trabalho de Ismael Nery (1900–1934), pintor, desenhista, arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta, investiga a trajetória de um dos artistas mais inquietantes do modernismo brasileiro.
Nery apropriou-se de linguagens como a ilustração, o cubismo e o surrealismo, alterando-as a partir de suas próprias inquietações. Em pinturas, desenhos e poemas, o corpo tornou-se o lugar onde ele investigou a instabilidade da identidade, a fusão entre os gêneros, a corrupção da matéria e o desejo religioso de superar os limites do espaço e do tempo.
A mostra reúne cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas, retratos, autorretratos e composições com figuras humanas sensuais, muitas vezes andróginas, algumas ameaçadoras, que operam na fronteira entre o afeto e a violência, o desejo carnal e o trauma da finitude.
Desde sempre compreendido como uma das vozes mais singulares da arte brasileira, Nery tem sua trajetória revista pela Pinacoteca nessa mostra panorâmica que apresenta suas contradições, sua densidade teórica e a radicalidade de suas invenções.
Ismael Nery (Belém, PA, 1900 – Rio de Janeiro, RJ, 1934) foi pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, ilustrador e poeta. Ingressou na Escola Nacional de Belas Artes em 1917 e complementou seus estudos na Académie Julian, em Paris, em 1920. Em suas viagens à Europa, entrou em contato com expoentes do surrealismo e do cubismo, como André Breton, Marcel Noll e Marc Chagall, desenvolvendo, contudo, uma poética própria pautada pelo Essencialismo. Autor de uma vasta produção gráfica e pictórica focada na figuração humana, na anatomia, na androginia e na retratística, faleceu precocemente aos 33 anos em decorrência de complicações da tuberculose. Sua obra figura em importantes coleções públicas brasileiras e em acervos particulares de relevância nacional, como o da Pinacoteca de São Paulo.
Sua filosofia fundamentava-se no desprendimento das noções de tempo e espaço, buscando na criação o desdobramento do “eu” e a revelação de uma verdade imutável situada por trás das formas efêmeras da matéria. Essa busca traduziu-se no recorrente tema da androginia e da duplicidade. Em suas telas, corpos desprovidos de gênero definido, figuras calvas e duplos espelhados se fundem em um abraço sensual ou melancólico.
Exemplo central desse procedimento é a obra Autorretrato com Adalgisa (sem data), na qual a face do artista e a de sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery (1905–1980), aparecem sobrepostas e portadoras dos mesmos traços anatômicos, sugerindo manifestações complementares de um único organismo espiritual.
Em outras obras, Nery desestrutura a anatomia das figuras humanas – expondo suas vísceras para depois reconstituí-las enquanto unidade. Em obras como Visão Interna – Agonia (1931) e Eternidade (1931), o corpo surge aberto, visceral e fragmentado: as entranhas humanas articulam-se com a paisagem e com a terra, convertendo o sofrimento em meditação sobre a mortalidade e a eternidade.
Exposição ‘Luana Vitra: Bandeira Branca’
Exposição ‘Ismael Nery: armadilha moderna’
Data: de 5 de setembro de 2026 até 31 de janeiro de 2027
Local: edifício Pina Luz (1º andar, Octógono)
Endereço: Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo — SP.
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h). Sábados e segundos domingos do mês gratuitos.
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